Blog do Labjor

Laboratório do curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza

Não deixe o “Peteca” cair: uma história de superação que trouxe bons resultados

Antonio de Oliveira Lima é coordenador estadual do Peteca. /Fotos: Renan Silva

Antonio foi uma criança como muitas outras nascidas no interior. Natural de Morada Nova, interior do Ceará, ele é filho de pai agricultor e, desde cedo, teve que ajudá-lo no sustento da família, juntamente com seu irmãos. Começou a trabalhar aos 9 anos de idade e tinha que dividir o seu tempo entre as obrigações de um adulto e as obrigações de uma criança: estudar. Devido ao trabalho infantil, Antonio certamente deixou de ter muitas oportunidades, mas ele demonstrou a sua capacidade de superação. Algum tempo depois, cursou Direito na UFC, tornou-se analista do Tribunal de Justiça, foi Procurador Federal da Previdência Social e, hoje, é Procurador do Trabalho e Coordenador de várias ações do Ministério Público do Trabalho no Ceará voltadas para a erradicação do trabalho infantil, dentre as quais se destaca o Programa de Educação contra a Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente (Peteca).

Era uma vez… um sonho real

Você viu a Rosinha? Esse é o nome do livro, escrito pela Professora da UFC Célia Gurgel. O livro, que posteriormente virou DVD, conta a história de uma mãe que tenta encontrar a sua filha na cidade de Fortaleza, um ano após entregá-la para a madrinha, que lhe prometera estudos. A história sugere a madrinha explorava a afilhada no trabalho doméstico, fato que explicaria a evasão escolar constada pela mãe. Com base no vídeo, realizou-se um Projeto de Formação de Agentes Multiplicadores para Erradicação do Trabalho Infantil Doméstico, coordenada pela Professora Célia Gurgel.. Em 2008, Antonio promoveu a divulgação do vídeo no interior do Estado do Ceará e em várias outras Unidades da Federação, por ocasião atividades alusivas ao dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil (12 de junho), cujo tema foi “Educação: resposta certa para o trabalho infantil.” Satisfeito com os resultados da campanha, Antonio articulou parcerias com as Secretarias Municipais de Educação para implantar um programa de educação que visa conscientizar a sociedade para a erradicação do trabalho infantil. Nasce, assim, o Peteca.

Veja o vídeo sobre o projeto lançado em outubro de 2008

O Peteca realiza oficinas de capacitação e sensibilização de profissionais da educação, que atuam como coordenadores municipais do Programa e são responsáveis pela formação de coordenadores pedagógicos. Estes, por sua vez, debatem com os professores os temas estudados nas oficinas, elaborando um plano de ação para a abordagem em sala de aula e promoção de eventos que permitam ampliar o debate para toda a comunidade escolar. O projeto contou, inicialmente, com a cooperação técnica entre o Ministério Público do Trabalho no Ceará (MPT), Universidade Federal do Ceará (UFC) e a União dos Dirigentes Municipais de Educação do Ceará (Undime).

Trabalho infantil: a “bruxa-má” da história 

Crianças atendidas pelo Projeto Peteca

O trabalho infantil ainda é um problema grave no Brasil. Segundo dados do PNAD 2009, em torno de 4,25 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos estão trabalhando no Brasil. Já o Ceará é o quinto estado brasileiro em incidência de trabalho infantil. De acordo com pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 13,46% das crianças e adolescentes do Estado exercem alguma atividade profissional. Antonio de Oliveira Lima, coordenador estadual do Peteca, cita as principais causas que geram o trabalho infantil: “Existem as causas histórico-culturais, em que a criança é vista como um protótipo de adulto, ou seja, começa a trabalhar cedo para adquirir responsabilidade, e existem os problemas sócio-econômicos, onde os pais desempregados incluem os seus filhos no trabalho.”

O coordenador estadual do Peteca afirma também que, nas últimas décadas, houve uma redução gradativa do índice de trabalho infantil, mas essa redução é muito lenta. Segundo ele, o êxodo rural e as dificuldades de moradia na cidade apenas modificam o cenário da exploração infantil. “Devido a vulnerabilidade social, muitas crianças tornam-se moradoras de rua e vítimas da exploração sexual”, disse Antonio de Oliveira Lima.

Passe o “Peteca” adiante

Intensificar o processo de conscientização da sociedade. Esse é um dos principais objetivos do Peteca, que há dois anos realiza um trabalho de prevenção em escolas públicas e particulares, para evitar que as crianças que estão na escola se tornem possíveis vítimas do trabalho infantil. E, com essa iniciativa, o projeto vem obtendo êxito a cada ano. No início, 51 municípios mais Fortaleza aderiram a essa proposta. Em 2009, já eram 95 municípios participantes e, esse ano, são 115. Hoje, cerca de duas mil escolas são atendidas pelo Peteca, sete mil educadores participam do projeto e trezentos mil alunos aprendem que lugar de criança é na escola.

Veja vídeo sobre a prevenção do trabalho escravo

Desenhos, pinturas, esquetes teatrais, músicas, paródias, contos, poesias de cordel e estórias em quadrinho. Essas são algumas das modalidades produzidas pelos alunos no Peteca. Todos os trabalhos produzidos são compartilhados com a comunidade escolar e a sociedade em geral, por meio de eventos produzidos nas escolas e nas secretarias municipais de educação. Os melhores trabalhos são apresentados durante o Prêmio Peteca, evento anual promovido pela Coordenação do Programa, na capital do Estado. Esse ano, a etapa estadual do Prêmio recebeu cerca de 190 trabalhos. 

Apresentação dos trabalhos produzidos durante o Prêmio Peteca 2010

O que tem a ver a composição “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, com o single “We Are the World”, escrito por Michael Jackson e Lionel Richie? A princípio nada, mas na mente criativa de algumas das crianças que participaram do Prêmio Peteca 2010, apresentando paródias dessas músicas, elas renderam os primeiros lugares na premiação. E quando só a criatividade não é o bastante, a superação é fundamental. Um dos alunos participantes do evento, natural de Quixadá, produziu dois trabalhos de literatura de cordel, um sob o tema trabalho infantil, que fico em segundo lugar geral, e outro em homenagem a Raquel de Queiroz. O que seria apenas uma homenagem ao centenário da autora, acabou se tornando um momento marcante na premiação: o aluno é deficiente visual.

Apresentação de artes cênicas dos alunos da escola de Guaramiranga

Ao relatar algumas das experiências que já teve a frente do Peteca, Antonio de Oliveira Lima demonstra claramente orgulho e emoção. Orgulho pelo êxito do Projeto, que já ajudou milhares de crianças e adolescentes a escaparem do risco de serem vítimas do trabalho infantil. Emoção pela sensação de quem está cumprindo o seu papel de cidadão e por saber que ainda pode fazer muito mais.

Texto de Renan Silva

*Esta reportagem foi produzida pelos alunos da disciplina Oficina em Jornalismo/Ciberjornalismo do semestre 2010.2. 

About these ads

Sobre blogdolabjor

Blog do Laboratório de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 14 de dezembro de 2010 por em Ciberjornalismo, Geral, Oficina em Jornalismo e marcado , , , , .
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 418 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: