Tem preconceito na música

ENTREVISTADO: MARCELO LEITE

Por Helena Tofeti

foto de divulgação

Músico e professor cearense, o flautista Marcelo Leite, que é também coordenador e sócio da escola de música Espaço Tom Maior, contou-nos um pouco sobre como é ser músico no Ceará. Num estado em que os incentivos públicos são mínimos e a grande preferência é o forró, os músicos cearenses enfrentam ainda preconceito do público local.

Segundo Marcelo, ainda existe em Fortaleza a ideia de que “santo de casa não faz milagre”. Para ele, o preconceito não é necessariamente com as músicas autorais, mas com o artista da Cidade. Entre os problemas que acentuam o quadro, está a dificuldade que os músicos locais sentem para divulgar seu trabalho e a falta de incentivo público, tanto da prefeitura quanto do Estado. Ele falou também sobre os pontos positivos para a música no Ceará. É o caso, por exemplo, dos vários festivais que têm crescido a cada ano. Um deles é o “Mel, Chorinho e Cachaça”, em que Marcelo é curador da parte musical. “A gente tem sorte de o Ceará ter muito festival”.

O flautista, que acabou de lançar seu CD “Marcelo Leite e Carlinhos Crisóstomo Tocam Noel Rosa”, juntamente com o violonista Carlinhos Crisóstomo, também conversou  sobre temas polêmicos como pirataria e internet. Segundo ele, ambas são positivas para os músicos que ainda não possuem tanta visibilidade. “Pelo estágio que eu estou, e que a maioria dos músicos que não tem um renome está, é massa a pirataria”.

Você acredita que haja  preconceito do público do Ceará contra a música autoral dos cearenses?

Rapaz, tem. Qualquer pessoa que faz um show é autoral, quase todas, a não ser quando a pessoa é intérprete, né? Assim, quando o Paulinho Moska vem aqui e tá lotado lá, é porque é o Paulinho Moska, mas ele não deixou de cantar músicas autorais. O preconceito eu acho que nem é com a música, é com o artista. Ainda tem um negócio com o artista da cidade. Por exemplo, se você pegar qualquer banda desses grandes nomes lá de fora, tem um cearense tocando. Na banda do Chico Buarque, na banda do Roberto Carlos, na de Caetano, na de Djavan, tem cearenses, nessas bandas todas tem um cearense tocando, e muitos deles são compositores também e parceiros das músicas que tão fazendo sucesso, entende? Mas, se eles vierem pra cá tocar as músicas deles, ninguém vai.

Você lançou agora, com o Carlinhos Crisóstomo, o seu CD, só com composições do Noel Rosa. Como surgiu essa ideia?

Ano passado, a gente soube que entrou em domínio público a obra do Noel, aí o que a gente fez? A gente viu todas as músicas que não tinham uma parceria direta, por causa do direito autoral, porque o que faz a gente não gravar mais é isso, é direito autoral, né? Era uma obra toda sem vínculo com alguma editora, era domínio público e a gente podia gravar. A gente fez por causa disso: uma porque a gente já tinha feito um show disso e outra porque a gente não ia gastar com direito autoral.

Qual a importância de nomes como Noel Rosa e Cartola para sua formação musical?

Toda vida que eu vou montar alguma coisa pra tocar, eu tenho que sempre me agarrar em alguma coisa que teve um registro, que teve um negócio pra dar como parâmetro. Então, assim, quando eu comecei a estudar música na universidade, principalmente, era muito Bach e Bethoveen, porque na universidade, querendo ou não, a gente estuda muito o erudito. Na minha época, não tinha uma cadeira de música brasileira. A gente estudava de gaiato. Poxa, eu posso ir ao Rio e conversar com a filha do Cartola. É uma coisa tão próxima. A linguagem desses artistas brasileiros é como se fosse mais… É mais fácil a assimilação, entende? Porque toda vida que a gente escuta alguma coisa de fora, e de fora que eu digo é coisa erudita, a gente acaba tocando do nosso jeito. É como se a gente quisesse que um alemão tocasse um samba. Por mais que ele estude e que ele toque, a gente vai achar que tá faltando alguma coisa. Quando eu percebi isso, eu disse não, a minha onda, a minha praia é a música brasileira.

Você falou na dificuldade de gravar um CD. Como você vê essa questão da venda de CDs e das gravadoras aqui no Ceará?

Hoje em dia, o CD pro músico é como se fosse o book. A modelo não vende book, né? O Cd pro músico tá assim, é como se fosse um cartão, uma mostra do seu trabalho. Você não consegue projetos, tocar em grandes eventos, festivais ou tocar fora do estado, se você não tem um trabalho registrado. Assim, claro que é legal. Dependendo de como for feito, se for um trabalho sério tem uma vendagem boa.  Esse negócio de gravadora é porque hoje em dia qualquer pessoa pode gravar um CD, com qualidade ou não. A dificuldade maior é a distribuição desse CD. A gravadora faz toda a produção de arte, de divulgação, de levar na televisão, aquele negócio todo, né? Então, hoje, a gravadora trabalha bem mais a parte do depois, do que realmente a gravação.

A respeito dessa questão de ir pra televisão e de divulgar o trabalho. Como você vê o espaço pra isso aqui no Ceará, um estado que, nesse aspecto, é meio dominado pelo forró?

Tudo que sai na mídia é bom pra gente. Por exemplo, a gente vai ter um show quarta-feira, então, eu tenho muitos amigos jornalistas, aí eu ligo pra eles. Eu sou meu produtor, entende? Quando é um projeto pelo banco, um projeto que tem um apoio, aí são eles que ficam responsáveis por tudo isso. Já tem hoje, graças a Deus, em Fortaleza, um espaço maior, mas, com certeza, se você tem dez atrações pra apresentar na televisão, nove são de forró ou é de uma coisa de baixa qualidade. Baixa qualidade no meu ponto de vista. A gente, assim, instrumental é mais… Sabe? Eles olham a gente como se fosse “não, rapaz, eles nem querem vir aqui pro programa”. Mas não é, a gente quer.

Você acha legal a mistura de ritmos musicais?

Eu tô indo agora, em outubro, fazer um projeto que foi aprovado pelo banco. O nome do show é “Flauta Popular Nordestina”, então não tem nada a ver com o CD do Noel. É a flauta com um repertório de música popular nordestina, e aí vai todo um regional atrás. A gente vai divulgar a música nordestina. A flauta, por ser um instrumento solista, pode fazer um show só de peças eruditas, pode fazer um show só de choro, ou só de samba.

E sobre os projetos que você falou, você acha que há incentivo?

Rapaz, mais dessas empresas assim como o Banco do Nordeste (que não é do governo). O Banco do Nordeste talvez seja a instituição que mais apóia, porque, além de ter os projetos pro dia a dia dos shows que tem nos centros culturais de lá, tem projeto de divulgação de algum trabalho que já tenha, tem projeto de produção de algum trabalho, enfim, são vários tipos de projetos durante o ano. Tem um espaço, entende? Agora, assim, como são muito poucos, é muito concorrido. Pra você ter uma ideia, nesse que eu vou fazer agora, no mês que vem, do Ceará só tem o meu show e o show do Neroldo Numérico, que é um baixista cearense. Todos os outros shows são de fora do Estado. O pessoal sabe do projeto e se inscreve de outros lugares, entende? Porque o projeto não é restrito ao Ceará ou a Fortaleza. É aberto.

E do Estado mesmo e da Prefeitura, para os músicos cearenses? Tem alguma coisa, ou é precário?

Tem, mas esses projetos da prefeitura e tudo são como se eles lhe dessem um cachê pra você, onde tocar, levar o banner da Prefeitura. Às vezes, você recebe uma quantia x pra fazer dez shows, aí você vai colocar na ponta do lápis, é certinho o dinheiro pra bancar os próprios shows, então, no final das contas, você tá trabalhando pra prefeitura. É legal porque divulga e tal, mas, às vezes, é meio mentira esse negócio aí.

Tem crescido muito aqui no Ceará essa coisa do festival. Você acha que eles são uma boa opção?

Eu posso falar mais diretamente do de Viçosa. Tem um festival, o “Mel, Chorinho & Cachaça”, que é um festival de choro, na verdade. Ele começou como uma feira gastronômica dos produtos da região, e o chorinho era a música. Eu falo nele porque eu tô mais ligado a ele. Me convidaram pra ser curador da parte da música. Ele tomou uma proporção tão grande nos três anos que, hoje, é o “Festival de Chorinho”. O mel e a cachaça ficaram meio de lado. Se um ano a gente tinha em Fortaleza vinte grupos de choro, hoje a gente tem no Estado, no mínimo, 60 mil. Muita gente se juntou, mesmo sem o intuito de ganhar, mas para participar do festival. Uma coisa que eu coloquei desde o primeiro ano é que sempre que tiver uma atração de fora, tem que ter uma atração daqui. Porque não é justo ter um festival na nossa cidade, no nosso Estado, e ficar trazendo o pessoal de fora e a gente ficar vendo. Até pro público ver que não tem muita diferença um pro outro. A gente tem sorte de o Ceará ter muito festival. Tá ajudando.

Como você vê a questão da pirataria, Marcelo? Como isso afeta o seu trabalho?

Pelo estágio em que eu estou, e que a maioria dos músicos que não tem um renome está, é massa a pirataria. Eu acho massa.

Mas você fala da pirataria da internet ou de venderem o seu CD na rua?

Da pirataria de tudo. Pra você ter ideia, eu soube que tem uma loja lá em Salvador que tá vendendo o CD da gente. É um sebo que pega CDs antigos e novos, faz a copilação e vende. Eu achei massa pra caramba, porque o lucro que eu ganho é porque as pessoas estão conhecendo. Eu talvez achasse ruim se não tivesse o meu nome lá, sabe? Foi o Marcelo que gravou, junto com o Carlinhos. Assim, pode ser que um dia eu venha a me importar, sabe? Mas eu acho muito legal. Eu toco no Boteco todo sábado, e tem um cara que vende Cd pirata lá fora, e ele tem o meu Cd lá. Como ele conseguiu, eu não sei. Eu não vou dar pra ele piratear. Mas, aí, é um dinheiro que ele ganha e eu tenho consciência de que o CD que a gente faz não é pra ficar rico, mas se puder todo mundo conhecer o meu trabalho… A história de muitos artistas foi porque alguém escutou no meio da rua.

Muitos músicos reclamam da internet, principalmente a questão do download, mas há vários também, principalmente quem não tem ainda tanta visibilidade, que focam mais nas vantagens, como a facilidade de divulgação. O que você acha da internet?

O lance da internet é que é muito fácil. A primeira gravação que eu fiz foi com a banda da Piamarta. Eram músicas instrumentais da banda e a gente gravou na Itália. Foi um trabalhão o CD, a gravação, foi quase um ano gravando, teve um grande lançamento lá na Itália e a gente vendeu não sei quantos mil CDs lá. A gente passava mais tempo dando autógrafos no CD, lá na Itália, do que se apresentando. Parecia os Menudos. E aqui eu não conheço ninguém que ouviu falar do nosso CD, Porque na época não tinha internet, não tinha nada. Bastava a gente “ah, participei desse CD, então vou botar no meu blog, no meu Orkut, e alguém vai se interessar”. Por exemplo, no dia em que eu lancei, aqui em Fortaleza, o meu CD do Noel, eu coloquei na minha foto lá do Orkut a capa do meu CD. Por causa disso, eu mandei, no mínimo, uns vinte CDs pra fora do Estado. Eu consegui chamar a atenção dos flautistas e daquelas pessoas que gostavam de flauta, ou dos que gostavam de Noel, ou dos que me conheciam, que era, talvez, a menor parte. Então, eu acho que a internet só faz ajudar. O máximo que pode acontecer de ruim é ter o meu CD lá pra baixar com o nome de outra pessoa. É a única coisa que eu acho ruim, mas fora isso, tudo é massa na internet.

(Entrevista feita em setembro de 2009)

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