De quem é o cabeção?

ENTREVISTADO: NARCÉLIO GRUD

Por Suiani Sales

Quem anda por Fortaleza às vezes se depara com vários personagens coloridos geralmente no centro da cidade, na Aldeota, nas praças e nos cruzamentos mais movimentados. As caixas de transmissão telefônica agora são cabeções coloridos, marca registrado do trabalho de Narcélio Grud, um dos grafiteiros que enfeitam a cidade.

Os personagens confeccionados pelo artista possuem sempre olhos bem abertos e um sorriso bem generoso. São homens e mulheres que sempre estão nos vigiando.

Desde o primeiro compartimento da casa de Narcélio, verificamos que ela possui grafitagem de diversos tipos. A arte vai desde a escadaria cheia de flores e galhos de árvores, que se entrelaçam em perfeita harmonia, até ao escritório, onde a entrevista aconteceu. Um armário de aço também se tornou um cabeção e estava lá olhando simpaticamente para a equipe.

Narcélio prefere não grafitar nas periferias da cidade, pois a violência nesses locais é maior e às vezes uma noite de trabalho pode ser perdida por causa da falta de segurança e vandalismo de certas pessoas.

O grafite vem quebrando a mesmice visual do meio urbano. Mesmo assim ainda há preconceito das pessoas que confundem grafitagem com pichação. Os adeptos do grafite veem o seu trabalho como arte, uma evolução da pichação, visto que muitos deles começaram como pichadores, para depois se tornarem grafiteiros.

Cabeções pela cidade / Foto: divulgação

Por que você escolheu grafite para se expressar?

Narcélio: Na verdade, eu trabalho com arte em geral. Trabalho com artes plásticas, de vez em quando faço teatro, vídeos, mas o grafite é o que me acompanha desde criança. Porque eu era pichador e foi essa a forma como eu entrei no mundo da arte. Foi o meu primeiro contato com o spray.

O grafite ainda é tido como um ato de vandalismo?

Narcélio: As pessoas não veem como vandalismo não, mas também não sei se consideram como arte. Eu digo isso porque hoje o conceito de arte é tão complicado. Tem arte que é feita pra gente não entender, e algumas pessoas que fazem arte são consideradas estudiosas de arte e dizem que entendem o que estão fazendo.

Como você acha que os cearenses encaram o grafite que você faz nas caixas de transmissões telefônicas?

Narcélio: Pelo o que eu vejo, aparentemente as pessoas gostam do meu trabalho e acham interessante o grafite dos cabeções. Elas chegam perto de mim e elogiam meu trabalho. Inclusive, certa vez o Ronda do Quarteirão já parou pra olhar eu trabalhar e também elogiaram meu trabalho.

Já recebeu alguma crítica?

Narcélio: Não lembro. Já aconteceu de apagarem um dos meus trabalhos, de mexerem, de picharem em cima dos cabeções. Então eu fui perguntar para algumas pessoas o porquê disso e elas disseram que o grafite dos cabeções estava assustando as pessoas.

Você acredita que aqui em Fortaleza os grafiteiros possuem seu espaço para que possam trabalhar as suas expressões culturais?

Narcélio: Com certeza, não tem como não haver espaço. Hoje em dia, as pessoas compram um carro e mandam grafitar. Na novela tem grafite e está na moda, está dentro de casa e por aí vai. Até mesmo a arte gráfica das revistas é relacionada com o trabalho que os grafiteiros desenvolvem. E eu tenho amigos que são grafiteiros e designers gráficos de revistas.

E em relação ao espaço para os grafiteiros nas ruas?

Narcélio: Tem uma coisa muito ruim acontecendo hoje na cidade que é a questão dos cartazes publicitários. Além de ocuparem praticamente todo o espaço da cidade, eles não respeitam o grafite. Eles chegam e colam seus anúncios por cima de qualquer trabalho dos grafiteiros.

Você já pensou em fazer algo para tentar mudar essa situação?

Narcélio: Numa reunião em que eu estava com as pessoas que trabalham com arte urbana, discutimos o que podemos fazer pra impedir isso. Nós gastamos nosso dinheiro comprando material de boa qualidade, porque o nacional não é bom. Então é tudo importado da Espanha, Alemanha, para nós fazermos um trabalho bem legal. Esse acesso ao material de boa qualidade é umas das coisas que está auxiliando o trabalho de boa qualidade aqui no Ceará.

Existe alguma associação que reúna os grafiteiros de Fortaleza?

Narcélio: Existe uma federação de grafite, mas as pessoas do hip hop também participam. Todos são unidos e discutem várias vertentes dos nossos trabalhos. O grafite possui várias linhas, mas é do grafite arte que eu sou adepto. Hoje em dia a gente pensa mais na arte contemporânea, que remete a coisas mais além do que um simples bonequinho. Há vários tipos de linguagens, mensagens, que o grafite pode transmitir. Também há o grafite de intervenção, que é o caso do grafite dos cabeções que eu faço que tem uma questão urbana.

Os cabeções possuem alguma forma de protesto ou intervenção?

Narcélio: Os cabeções têm intervenção. Mas o que é o protesto em si? O protesto em si é que eles estão ali ocupando um espaço das nossas calçadas e a gente não pode fazer nada. Inclusive estão colocando outro tipo de caixa que é maior ainda, ocupando mais espaço da calçada. Na verdade, as calçadas que a gente tem estão ficando cada vez menores e a intenção dos cabeções é de fazer a cidade ficar mais alegre, é trazer um sorriso para quem olha para eles.

Como foi que surgiu essa ideia de pintar aqueles bonecos nas caixas de transmissão telefônica?

Narcélio: As pessoas não aguentam mais essa história cultural daqui com relação às jangadinhas. A nossa realidade não é só isso. As jangadas são referências para os turistas, mas não mais para os cearenses. É difícil você chegar a casa de um cearense e ter jangadas lá. Não que ninguém tenha, mas hoje em dia é bem difícil de vê. As coisas mudam, evoluem e não tem como nós ficarmos somente nesse negócio de jangadinha. Um personagem colorido chama mais atenção.

Então qual é a proposta desse personagem colorido?

Narcélio: A proposta é trazer mais cor pra cidade, é trazer um sorriso. Já pensei em fazer um cabeção mais pesado num determinado ponto perto da Assembléia Legislativa. E esse meu trabalho é uma estética que vem se desenvolvendo e cada um deles é diferente, por mais que seja uma mesma linha de trabalho, mas é uma estética que eu ainda estou desenvolvendo.

Numa entrevista sua você comentou que os cabeções eram um presente para a cidade. Por que você acha que Fortaleza estava precisando desse “presente”?

Narcélio: Cada pessoa merece alegria na sua vida e as pessoas estão muito estressadas e estão habituadas a sempre verem as mesmas coisas. Todo dia é o mesmo corre-corre e nós passamos a fazer tudo automaticamente e tudo tende a ficar sem graça. O que eu quero é que tenha uma comunicação e deixo a interpretação do cabeção para quem está olhando para ele.

Por que a preferência de mostrar sua arte na rua e não em uma galeria, por exemplo?

Narcélio: Eu gosto mesmo de mostrar meu trabalho na rua porque qualquer pessoa pode ver e não precisa necessariamente de cultura. Nada contra galeria de arte, na verdade eu acho muito interessante, mas as pessoas que frequentam esses locais são muito críticas e às vezes não dão valor às obras. Na rua não. Se as pessoas gostarem, ótimo, se não, tudo bem.

Você acha que os cabeções estão ganhando espaço?

Narcélio: Sim, e a minha pretensão é que eles saiam daqui também. Tem cabeção em Canoa Quebrada, no Crato, e eu quero viajar quando eu terminar a faculdade para pintar cabeções por onde eu estiver.

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