Experiência e irreverência

ENTREVISTADO: RUY LIMA

Por Rebeca Marinho

“Só não me chame de senhor, por favor!” foi o único pedido de Ruy Lima quando agendamos a entrevista. Apesar de pertencer a uma velha guarda de jornalistas, o editor-executivo da TV O Povo e apresentador do programa Grande Debate consegue manter-se jovem.

Dono de uma carreira invejável, Ruy trabalha desde os 16 anos e já trabalhou em programas renomados como o Jornal Hoje, Jornal da Globo, além de ter sido editor do Jornal Nacional. Foi também o primeiro apresentador do Bom Dia Ceará, na TV Verdes Mares, e um dos responsáveis pela implantação da TV Jangadeiro e da TV Manchete no Ceará. Isso sem falar das coberturas internacionais, como as eleições na Argentina, Chile e Uruguai, e também a cobertura da Copa do Mundo de 86, no México.

Tudo isso não é nem metade de que ele já fez. Mas apesar dos anos de profissão e de toda a sua experiência, Ruy está longe de ser uma figura inatingível. Pelo contrário, ele é disponível e muito atencioso.

Nossa entrevista estava agendada no dia em que os programas da TV O Povo iriam ao ar em novos horários. Durante o encontro, fomos interrompidos três vezes para Ruy decidir as pautas do dia, os entrevistados e ainda ver mudanças no cenário do Grande Jornal, porém, mesmo tendo um dia ocupado, Ruy nos recebeu em um dos estúdios disponíveis da própria TV O Povo e foi paciente ao conversar com nossa equipe.

Irreverente, contou-nos algumas boas histórias e falou sobre segmentação, faculdades e estudantes de jornalismo, internet e televisão, claro.

Você além de editor-executivo é apresentador. Como você consegue conciliar os dois ofícios?
Ruy Lima:
É complicado conciliar, não é fácil. Eu acho que essa função que eu estou exercendo hoje, fora a apresentação do programa, é meramente executiva, meio burocrática também. Eu gosto de falar que quem está estudando, quem quer ser jornalista, tem que ter uma visão muito focada no fato de ser repórter.

Por quê?
Ruy Lima:
Eu acho que quando você escolhe ser jornalista, você deve gostar, antes de mais nada, de ser repórter. Eu não consigo imaginar uma pessoa que entra pra faculdade de jornalismo e diga “eu quero ser produtor”. Não tenho nada contra produtor, acho que é uma função super importante, mas a função de produtor hoje é deturpada. Porque, na verdade, o produtor acaba sendo uma secretária executiva, que fala no telefone, que marca entrevista. Isso é função de secretária. Acho que ser repórter é o grande barato de quem quer fazer jornalismo.

E quais as características que o repórter deve ter?
Ruy Lima:
O repórter é, na verdade, um contador de historias. É a pessoa que tá na rua, é a pessoa que capta as coisas que acontecem, que tem um olhar aguçado, que precisa ter uma percepção do que está acontecendo em torno. Quer dizer, ver as coisas por trás das coisas e, a partir daí, saber recontar essas historias para as pessoas. A pessoa tem que ter um prazer pela leitura, porque você jamais será um bom repórter se você não sabe escrever, não sabe falar, não sabe se comunicar. E como é que a pessoa aprende a escrever? Lendo.

Você disse no seu twitter que agora “educação física é a segunda opção pra quem quer fazer jornalismo”
Ruy Lima:
É, eu acho que tuitei isso uma vez.

Mas esse comentário que você fez tem a ver com a qualidade do curso?
Ruy Lima:
Eu acho que tem. As pessoas estão perdendo um pouco aquela coisa gostosa da profissão, porque quando você diz “eu vou fazer jornalismo ou vou fazer educação física”, são duas coisas completamente disparatadas. Eu tenho a sensação de que muita gente entra pra faculdade de jornalismo pensando em ser estrela da televisão. As pessoas têm uma visão completamente deturpada da profissão. Acho que a televisão ajudou muito isso, essa coisa de você ter os repórteres que são todos muito bonitinhos, bem arrumadinhos. Só depois você vai acabar descobrindo que os grandes repórteres não são necessariamente pessoas bonitinhas. O Tim Lopes é um exemplo. Um puta repórter, maravilhoso, um cara investigativo e era muito feio.

E sobre a desobrigatoriedade do diploma de jornalismo, você é contra ou a favor?
Ruy Lima:
Eu sou contra o diploma. Por que talvez eu não tenha diploma? Pode ser também. Mas eu sou a favor de que você tenha algum grau de instrução qualquer. Vários países do mundo não exigem o diploma. Os Estados Unidos e a França, por exemplo, não exigem. E isso não significa que você não tem jornalistas muito bem preparados. Eu acho que caindo o diploma, o que vai acontecer? Vai acontecer que a médio prazo várias escolas de comunicação que são muito ruins vão fechar.  Vamos falar sério? Têm escolas que tem professores semi-analfabetos. Então o que vai acontecer? Essas escolas vão fechar e você vai ter pelo menos uma grande escola em cada cidade ao invés de ter dez faculdades de comunicação, como existem hoje nas grandes capitais.

Então mesmo não sendo obrigado ter o diploma, você acha importante fazer a faculdade de jornalismo?
Ruy Lima:
Eu acho importante que todo jornalista tenha uma base. Se você vai ter essa base na escola de comunicação, ótimo. Acho que as pessoas precisam ter algum preparo pra exercer a profissão. Mas tem algumas coisas da comunicação que eu não consigo entender. “Técnicas de redação”. Tudo bem, tem uma certa técnica, mas se você não souber escrever não existe técnica de redação em jornalismo que vá te ensinar a escrever. Acho que o fundamental é leitura e você cair na vida. Você ter curiosidade, perspicácia, uma certa dose de coragem e de cara de pau. Eu acho isso legal da profissão do repórter, você ir buscar as histórias e ser o cronista da vida. Eu gosto muito de falar essas coisas do repórter, porque a essência da profissão é o repórter.

E hoje você consegue ver isso na televisão?
Ruy Lima:
É difícil, né? Hoje as empresas têm uma necessidade comercial de ter um produto chamado jornal na televisão, mas não entendem que é preciso fazer algum investimento nisso. É muito complicado você ter um repórter de televisão que seja obrigado a cumprir três pautas por dia e fazer um trabalho direito. Quando eu vim ajudar a montar a TV O Povo, uma das coisas que eu coloquei foi que não adianta querer montar uma televisão pra competir com outras televisões, como a Jangadeiro ou a Verdes Marés, que tem 20 equipes de reportagem enquanto nós temos três equipes. E você vai ver que todos os jornais dão basicamente as mesmo noticias. Então, não quero competir com isso, não quero dar as mesmas coisas que os outros jornais, mesmo se eu tiver condições de fazer. É muito mais interessante escolher um tema, um grande assunto de interesse da cidade.

Por exemplo?
Ruy Lima:
O IJF. É um assunto que interessa sempre. A qualidade do atendimento do serviço de saúde da cidade interessa sempre. Então, ao invés de você fazer seis matérias, vamos fazer uma puta matéria maravilhosa, entendeu? Vamos fazer um retrato da saúde pública da cidade, mostrar como é que funciona, vamos entrar lá, vamos ouvir as pessoas, vamos ver a dificuldade que as pessoas têm de conseguir atendimento, pessoas que tão há seis meses na fila, enfim. E vamos trazer as pessoas pra discutir isso a fundo, né?

O programa Grande Debate usa esse critério na escolha dos temas?
Ruy Lima: Sem dúvidas. E a gente usa esse critério também no próprio jornal. Se você não tiver um controle muito grande, acaba caindo no que todo mundo faz. Duas ou três pautas pra cada repórter e tudo mais. Mas a gente procura pautar sempre por isso. Há um ou dois grandes assuntos e trazer isso pra discussão, trazer pessoas que tenham um ponto de vista mais crítico em relação aos fatos, fazer uma análise mais profunda, mais detalhada. Também procuro sempre fazer alguma coisa assim, assuntos que eu acho legal discutir. Falar sobre ciúme, fazer um programa sobre o egoísmo e raiva, além das questões que todo mundo discute, assuntos polêmicos, como o aborto.

E a questão da imparcialidade na hora dos debates?
Ruy Lima: Eu não sou imparcial, sou absolutamente parcial. [Risos] Não, mas você tem que ter um limite, quer dizer, tem uma fronteira que eu não considero nem que seja o limite da parcialidade. Eu acho que é o limite da delicadeza de você não ser indelicado com as pessoas que estão no programa com você, que você convidou pro programa, e tomar partido contra, né? Tomar partido a favor eu acho uma merda, mas enfim. Claro que, se você tá mediando um debate, você tem que ser meio advogado do diabo. Você tem que ser imparcial nesse sentido. Ou eu posso ter um ponto de vista sobre determinado assunto, mas, pra estabelecer uma provocação qualquer, eu finjo que sou do outro lado pra provocar as pessoas.

Como você acha que a internet e esses novos meios de comunicação influenciam a televisão?
Ruy Lima: Eu acho que todas essas mídias têm uma função muito interessante que é de você se comunicar com mais velocidade com todo o mundo. Agora eu acho uma grande bobagem você dizer (no twitter) “fui ao banheiro”, “tô indo ao cinema”. Isso é uma chatice muito grande. Eu acho que todas essas mídias, a internet, são muito interessantes do ponto de vista do conteúdo, mas eu acho que hoje você tem tanto conteúdo a sua disposição, que acaba não acrescentando muita coisa. Você precisa ser muito seletivo com a quantidade de informação que você tem na mão. Pra ser sincero, eu evito esse tipo de coisa, eu não acompanho. Tem umas pessoas que ficam com raiva, “pô, eu te sigo e você não me segue”. Eu não sigo ninguém, pô. Eu não tenho interesse, eu não tenho tempo pra ficar seguindo as pessoas, porque se eu não for muito seletivo naquilo que eu vou ler, não faço outra coisa se não ficar lendo bobagem o dia inteiro.

Mas você não acha que é interessante a questão da interatividade? Ela aproxima o publico.
Ruy Lima: Sem dúvidas. Acho isso fantástico. Do ponto de vista do programa, acho isso maravilhoso. Mas ai é outra via. Eu acho isso muito legal porque você abre um canal para as pessoas participarem.

Qual sua opinião sobre o futuro do jornalismo?
Ruy Lima: O futuro do jornalismo? Não faço a menos ideia. [Risos] É tão difícil a gente prever o futuro, né? Quando eu estava fazendo a copa de 86, como eu podia prever que um dia a gente ia ter computador pra trabalhar? Depois, que a gente ia ter telefone celular? Eu acho que o futuro depende muito da tecnologia. Então, o que é que a gente pode prever hoje? Uma segmentação muito grande. Eu acho que essa coisa de você ter uma quantidade muito grande de informação, você tem que segmentar muito o conteúdo, melhorar muito a qualidade do conteúdo que você tem para oferecer para as pessoas. Apesar dessa coisa da globalização, as pessoas estão cada vez mais interessadas no que acontece na esquina da sua casa. Do que adianta você ficar falando sobre ursinho panda? Porra, você vê Jornal Nacional, 17 km de engarrafamento na Marginal Pinheiro. Caguei, pô. E eu com isso?

Então o futuro do jornalismo é a segmentação?
Ruy Lima:
Sem dúvidas. É regionalizar cada vez mais, é fazer o jornal de bairro. Acho que as televisões não entenderam isso. Com toda essa tecnologia, elas não perceberam isso ainda. De vez em quando você vê matérias especiais, mas também é um negócio tão bobinho, aquela coisa meio bucólica, o morador mais antigo e num sei o quê. Tem que falar é das coisas mesmo, os problemas ali do cotidiano, ajudar a solucionar. Essa é a função do jornalismo, você criticar e cobrar soluções, cobrar resultados para melhorar a vida das pessoas.

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