A profundidade humana do Labirinto do Fauno

Espanha, 1944. Quem conhece um pouco de História sabe que durante esse período o país ibérico estava se refazendo de uma guerra civil que pôs no poder uma ditadura militar de caráter fascista liderada pelo general Francisco Franco. Além disso, o continente europeu passava pela maior e mais sangrenta guerra até hoje já vista, a Segunda Guerra Mundial. Agora, imagine-se criança e tendo que viver num mundo em guerra, cheio de rigidez, obediência, recalque, alienação, intolerância com o outro, perda de princípios assim como de valores humanos, morte.

É exatamente nesse cenário que a menina Ofélia, personagem do filme O Labirinto do Fauno, película do mexicano Guillermo del Toro, tenta resgatar a si mesma saindo na busca pela sua própria identidade. O filme foi exibido ontem (18/11) no Cineclube Unifor e contou com a participação de Celeste Magalhães Cordeiro, doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e professora de Sociologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Para Celeste, um dos temas centrais do filme é a questão da obediência. Logo no início, Ofélia entra em contato com essa questão que sempre se mostrará presente. No caminho para sua nova casa, a menina se depara pela primeira vez com o que ela pensa ser uma fada. Vai ao encontro dela, tentando assim, obedecer a uma convocação interior, mas logo depois sua mãe também a chama, fazendo-a voltar para o mundo real. Quando conhece o novo marido da mãe, o capitão Vidal, Ofélia encontra outro tipo de obediência: o obedecer por obedecer. Nas palavras de Karl Marx, teórico alemão, a obediência alienante.

 

Márcio Acserald e Celeste magalhães debatem temas abordados no filme. / Foto: Farley Aguiar

 

Marx diz no seu conceito de alienação que o capitalista é tão vassalo, tão dependente do operariado quanto este daquele. Mas o operário pode se desprender do patrão e abrir outras portas, é apenas questão de escolha. A alienação discutida por Celeste e que ela diz se encontrar na obra fílmica, é na falta de autonomia que o capitão se encontra, a compreensão do mundo através dos olhos dos outros. Ele está tão preso ao tempo e à rigidez da vida militar que se tornou, segundo Celeste, um “morto-zumbi” que não tem vontade própria. Antes de ser um indivíduo, um ser humano, ele é um militar. O capitão é a personificação daquilo que o ser humano teria que combater, essa é uma das mensagens que o filme tenta passar para o espectador. Numa das melhores cenas do filme, o médico, após dar uma injeção letal para atender o pedido de um guerrilheiro capturado e torturado pelas tropas de Vidal, se justifica dizendo que poderia ter obedecido as ordens do capitão, mas não quis mesmo que tivesse sido melhor para ele obedecer. Ou seja, nós não devemos abrir mão dos nossos princípios e convicções mesmo que isso signifique a morte.

A partir dessa concepção, segundo a socióloga, enxergamos que existem duas insurreições ocorrendo no filme. Uma, bastante explícita, é o foco de guerrilha que luta contra o capitão que representa a ditadura militar instaurada na Espanha. A outra é a insurreição pessoal de Ofélia. As três principais figuras femininas da película (Ofélia; Carmen, mãe da menina e Mercedes, governanta do capitão Vidal), se complementam e se desdobram umas nas outras. Enquanto a heroína tenta se auto-descobrir, ela vai sendo influenciada por essas outras duas mulheres. Carmen é constantemente ridicularizada pelo capitão, obedece cegamente às ordens dele e a filha, vendo a situação em que a mãe se encontra, tenta de todas as formas escapar de um destino parecido. Ofélia vai resistindo ao mundo da mãe; mundo mortal que desconfia da eternidade. Já Mercedes não tenta limitar a imaginação de Ofélia, como faz Carmen que, a todo instante, chama a filha para a realidade que esta não quer viver. Quando Ofélia diz para Mercedes que viu um fauno, a governanta apenas afirma que ela tenha cuidado porque dizem que eles são perigosos e não acrescenta mais nada.

Neste ponto presenciamos o conflito entre o mundo real versus o mundo mítico. Celeste diz que nós, humanos, geralmente nos submetemos à primeira opção e isto representa abrir mão de todos os portais. “Paramos de recorrer, na vida adulta, a alguma coisa que é maior do que nós, o cosmos, os sonhos, tudo isso é tratado como coisa morta”, afirma acrescentando ainda que crescer significa perder a capacidade de reverenciar o mistério e é desta maneira que envelhecemos, não no sentindo da aparência, mas na alma.

Outro ponto bastante discutido no debate foram os três testes que o fauno pede para que Ofélia realize. Ela tem que provar que não é inteiramente uma mortal. No primeiro, a menina tem que salvar uma árvore que está definhando porque um sapo enorme está sugando, aos poucos, toda a vida que há ali. A heroína tem que pôr a mão na massa e enfrentar a aversão, o nojo da vida em nome deste algo maior. O sapo vai se alimentando de pequenos insetos e isto faz a árvore parar de crescer. O episódio é uma metáfora de que o ser humano deixa que mínimos detalhes prejudiquem o relacionamento de uns com os outros; precisamos resgatar o que existe de bom em nós em meio às coisas terríveis que encontramos em nós mesmos. Aqui também podemos perceber que Ofélia quebra as regras com certa alegria. A mãe lhe faz um vestido novo e pede a ela que tenha cuidado para não o sujar porque logo mais o capitão irá receber convidados para jantar. Depois que Ofélia consegue realizar o primeiro teste com sucesso, volta à superfície e vê o vestido completamente sujo de lama; a mãe a repreende e diz que a menina decepcionou a ela e, principalmente, ao capitão e este fato lhe arranca um sorriso do rosto.

Já na segunda prova, que Celeste Cordeiro chama de a mais interessante das três, é o teste que todo herói precisa se submeter: a resistência aos apelos dos sentidos. Ofélia é advertida pelo fauno de que o que ela irá encontrar não é humano, avisa que ela verá uma mesa enorme com um banquete luxuoso, mas a proíbe de comer qualquer coisa que esteja lá. Para a socióloga, a cena é a representação das forças sombrias que nós não conseguimos perceber no dia-a-dia. “Os fantasmas e os monstros existem dentro de nós e muitas vezes nos vencem, mas nós precisamos ter astúcia para enfrentarmos essas forças obscuras”. Ofélia não resiste ao banquete e come duas uvas, acorda o monstro adormecido e paga o preço pela desobediência ao mundo mítico. E isso para lembrar ao público de que as forças materiais são fortes sobre nós, mas que precisamos aprender com os erros.

Na terceira e última prova, o fauno pede que Ofélia leve o irmão recém-nascido para o labirinto. Chegando ao local do encontro, ele revela à menina que precisa do sangue inocente do bebê para que ela consiga seguir seu destino de ser princesa do submundo. Imediatamente, Ofélia nega machucar o irmão porque se sente responsável por ele e assim, realiza o maior ato de caridade. Celeste Cordeiro afirma que o personagem principal de O Labirinto do Fauno não é Ofélia e sim a criança, o irmão da menina que tem o papel de centelha da esperança, não apenas de uma Espanha melhor, renascida do sangue dos que lutaram pela liberdade e igualdade entre os povos, mas do mundo todo.

Foto: blog los colehos

 

A morte é iminente. Ofélia é assassinada depois de um gesto eterno. Ela, como cada um de nós, humanos, cometeu muitos erros, mas ela foi profundamente leal aos seus princípios desde o começo. Durante as três provas, teve uma relação diferente com o fauno, não o obedeceu cegamente para atingir seu objetivo. Quando viu que o fauno lhe pedia uma atitude diferente das suas convicções, ela teve coragem de se negar a cumprir. Celeste faz uma pergunta para o público: “Qual a garantia que nós temos que as nossas escolhas diárias são as corretas? Nenhuma, mas precisamos ser leais aos nossos princípios”. Citando a mensagem final do filme, a socióloga acrescenta que nós precisamos saber para onde olhar e tentarmos nos enxergar através dos olhos dos outros porque só assim conseguiremos nos ver da maneira mais real: somos cheios de medo, inseguranças, erros, mas precisamos ver a universalidade.

Texto de Aline Veras

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