Reflexões sabáticas de uma jornalista não judia – entrevista exclusiva com Adísia Sá

Ela foi a primeira mulher a trabalhar numa redação de jornal. Foi pioneira, uma das fundadoras, a implantar o primeiro curso de Jornalismo no Ceará. Já trabalhou no magistério. É formada em filosofia. Como escritora publicou “Metafísica para quê?”, “Fenômeno Metafísico”, “Introdução à Filosofia”, “Ensino de Jornalismo no Ceará”, “Biografia de um Sindicato”, “Capitu conta Capitu”, “Clube dos Ingênuos”, “Traços de União”, “Jornalista Brasileiro” e “Três Mulheres no Divã de Freud”, com a participação do médico psiquiatra dr. Cleto Pontes. Atualmente está trabalhando em um livro sobre Iracema, de José de Alencar e quer escrever uma releitura das mulheres judias.

Uma mulher que sempre esteve á frente de seu tempo. E segundo a própria, sem arrependimentos. Em nossa entrevista, Adísia Sá diz que trabalha sem parar desde 1955. Teríamos que escrever uma lista enorme para aquela mulher tão pequenina, que com oitenta e um anos de idade ainda bebe, quase que religiosamente, um cálice de vinho do porto por dia, antes do almoço.

Mas, de uns tempos pra cá, algo além do amor e dedicação ao jornalismo vem envolvendo Adísia. E é essa nova fase de sua vida que exploraremos na entrevista. Uma jornalista cética que se apaixonou por uma das religiões mais ortodoxas e conservadoras praticadas atualmente.

O judaísmo entrou na vida de Adísia, como ela mesma disse, de forma aleatória, despertando depois o interesse em buscar suas origens judaicas. Sobre o holocausto, deixa clara a sua indignação, “foi um grande distúrbio anti-semita”. Ao conversar com essa mulher judia, (embora ela não use o termo, é na própria ênfase de se dizer não judia que singularmente se reflete a forma mais nobre de sê-lo, pois demonstra uma inabalável convicção das obrigações e atribulações de compreender e respeitar a filosofia judaica) percebo em Adísia um sentimento de afinidade muito forte, um sentimento de afinidade que é do povo judeu e que é mais uma experiência mística do que algo que possa ser racionalmente explicado.

A palavra “judeu” deriva de Judá, filho de Israel, o mais proeminente das doze tribos e ao assumir a fé judaica, ao aceitar os deveres religiosos e admirar sua missão espiritual, você se liga também ao passado coletivo. Ela não acredita em imagens, santos e muito menos em rosários ou crussifixos e ainda afirma, sem a preocupação de ser julgada que, Jesus, é um profeta de terceira categoria. Hoje se considera uma mulher com muito mais paz de espírito, mais calma, mais feliz: “coisas que só a verdade divina do judaísmo revela aos seus”.

Perguntei para Adísia como uma jornalista tão racional relaciona suas ideias feministas a uma religião onde a mulher é visivelmente submissa: “pois é, com alguns preceitos eu simplesmente não concordo”. É uma amante da música judaica, a hora, e dedica parte de seu tempo, mas não tanto quanto gostaria, à leitura de obras rabínicas. Com opiniões intrigantes sobre guerra, D’us, morte e etc., ela nos levará por um caminho de conhecimento profundo, elaborado com boa fé, a boa fé judaica.   

 

Na porta de entrada da casa de Adísia, uma mezuzá.

Ao chegar em sua casa, logo me deparei com uma mezuzá, um pequeno rolo de pergaminho (klaf) que contém, escritas à mão, duas passagens da Torá (Deut. 6,4-9 e Deut. 11, 13-21). Embora mezuzá seja a palavra hebraica para umbral, o pequeno rolo que é colocado no lado direito de quem entra na casa, é obrigatório na entrada de cada cômodo de um lar judaico. Como toda boa judia, a mezuzá me serviu para lembrar a presença divina e sua unicidade fixadas na residência judaica. Um apartamento com decoração clássica e simples, tons pastéis, madeira bruta, armários antigos e livros, muitos livros.

Uma seção inteirinha só com escritos sobre judaísmo, entre eles, a Torá, acima de todos por ser um livro sagrado, e o Sidur, que é o livro diário de orações. Maguen David, ou estrela de Davi e uma menorá, um candelabro de sete braços e um dos principais e mais difundidos símbolos do Judaísmo também faziam parte de sua estante, entre corujas, bibelôs e outros objetos menos significantes. Muito orgulhosa de sua coleção de objetos judaicos, Adísia logo se explicou quando desafiadoramente lhe perguntei o que um gordo boneco Papai Noel fazia em cima de sua mesinha de bebidas: “é de Ivoneide, minha secretária”. Ah, sim, então tudo bem. Estávamos ali, naquela sala aconchegante e com muita coisa em comum pra conversar. Os judeus não mantêm atividades missionárias, exceto entre si mesmos, e não estão interessados nelas. Por trás dessa atitude está a crença de que não há razão para que ninguém que já não seja judeu possa querer tornar-se judeu. O nosso encontro durou mais de duas horas e foi muito difícil editá-lo em apenas quatro páginas.

D’us (os judeus não pronuciam o nome Deus completo como sinal de respeito) possui 72 nomes em hebraico. Todo judeu escolhe um nome simbólico para si. A senhora já tem um nome judeu?

Eu não sou judia. Eu acredito que tenho uma ascendência judaica, mas não tenho nenhuma ligação que oficialize essa ascendência. Ainda não apareceu pra mim esse nome judeu. Mas vai aparecer, a minha tendência é muito grande para continuar os estudos no judaísmo.

Qual a sua origem e seu “background” judaico?

Vários sinais da minha família deram testemunha dessa origem. Inclusive meu sobrinho é Jacó, meu avô era Jacó, meu bisavô era Jacó, meus tios, tem sempre um Jacó na família com traços de judeu como aquele nariz proeminente que é dos homens. E meu pai era um homem que não era de freqüentar igrejas. E também havia costumes de alimentação que quando eu cheguei já encontrei.

Por exemplo? Em que situação sua família fazia o ritual casher de não ingerir alimentos impuros?

Por exemplo… Nós não tínhamos o hábito de comer galinha á cabidela. Por causa do sangue. 

 Voltando a falar de suas origens judaicas, o que mais lhe chamou atenção para buscar sua ascendência?

Meus bisavós moravam na serra de Ibiapaba, no município de Ibiapina. Isso foi uma coisa que me chamou atenção. Porque eles tinham plantio de cafezais na serra e quando o marquês Nassau veio para o Brasil ele trouxe consigo muitos judeus que eram perseguidos e foram para Holanda, grande abrigo dos judeus europeus que eram perseguidos tanto em Portugal como na Espanha. E eles vieram por ali, com a expulsão dos Holandeses foi um grupo para nova York e outros vieram para o Nordeste. Eles vieram justamente contornando os rios. E fincaram suas casas nos morros para poder observar qualquer movimento e tomar as providências em relação ao que estavam comendo etc. etc. E isso ficou muito marcado. Meu irmão Arlindo viajou para Ibiapina interessado em saber se alguém conhecia por Jacó. Lhe respoderam: o Jacó? Aquilo era um judeu! E meu irmão encontrou riscado lá na casa que foi de meu bisavó uma estrela de Davi.  Naturalmente já descobriram que ele era de fato judeu.

Quando criança a senhora estudou em colégio de freira, uma representante da fé católica quase destruiu seu sonho de ser escritora ao rasgar seu livro de contos. Essa atitude pode ter sido inconscientemente responsável pela sua decepção com a igreja católica e transição para a religião judaica? Como aconteceu essa transição?

Não. Não, porque eu vim me apaixonar pelo judaísmo agora, mulher feita. Naquela época eu era uma estudante e não tinha ainda esse tipo de preocupação.

O cristianismo é uma marca constante na vida de todo marrano. A senhora se considera uma cristã-nova?

Não. A minha atração, a minha tendência, a minha busca por esse estudo esteja talvez dentro da minha própria cabeça. Ainda não fiz o retorno.

O que vem a ser “o retorno”?

O retorno é uma espécie de batismo, com imersão na água. Um mergulho com uma oração, a pessoa fica completamente despida, é uma lavagem. Quando um judeu reconhece suas origens e quer voltar a seguir o judaísmo da família. Não sei em que momento eu e meu irmão fomos procurar nossas origens. Meu irmão Arlindo sempre foi muito inteligente e preparado e eu o imitava. Logo estávamos os dois buscando profundamente nossas causas. Cada vez mais vimos as nossas raízes lá em Ibiapina, inclusive com um inventário de minha avó. Só não te mostro porque meu sobrinho Jacó levou pra ler. Interessantíssimo os bens daquela mulher. Se eu tiver que fazer imersão na água será por retorno. Não conversão.

Já surgiu oportunidade da realização desse retorno?

Sim. Meu amigo Cândido Pinheiro, dono do HapVida, um marrano que fez uma sinagoga no apartamento dele, trouxe um rabino pra cá e eu fiz curso de judaísmo com ele. E assisti a conversão dele, que foi na praia porque tem que ser água corrente, e a mulher do rabino disse: a senhora podia fazer o seu retorno. O rabino afirmou: a senhora está preparada. E eu disse: não. Não é por aí. Eu só quero fazer no dia que eu sentir vontade de fazer.

O que levou a senhora a iniciar os seus estudos no judaísmo?

Eu estava na livraria cultura escolhendo meus livros e um amigo, Osvaldo Araújo, que estava também comprando livros me perguntou: Adísia, você já leu Bonder? Eu disse que não. Mas no momento adquiri e me deparei com uma linguagem muito curiosa. E que leitura foi essa! Que eu aí me apaixonei. O meu ingresso na literatura judaica foi muito aleatório.

Como o judaísmo é praticado em sua casa?

Eu apenas faço uma leitura diária do Sidur. Todas as manhãs eu faço a oração matutina. E no Shabat eu também sempre faço as leituras, embora não acenda as velas. A minha cozinha não é Casher. Eu adoro uma costelinha de porco com pimenta. 

Por que ao longo da história o judeu sempre foi tão cruelmente perseguido e mesmo assim continuou sendo um povo sábio, forte e unido?

Fala-se muito dos romanos que mataram os cristãos e não se conta do morticínio que fizeram aos judeus ao longo da história nesse país e nesse estado, eram chamados cristãos em pé, ou “batismo em pé”. Ou você renegava a tudo ou morria. Agora havia neste ato de matar um interesse peculiar. Eles não só matavam os que não tinham nada. Matavam os judeus que faziam riqueza. E é por isso que os judeus são conhecidos como sábios. Está tudo aqui, na cabeça deles. O direito de ter terras e bens lhes eram negados. Então eles foram se dedicar a música, a medicina, a ser ourives. Porque o conhecimento ninguém podia tirar da cabeça deles. E isso era e é passado de geração em geração.  O judeu investe na cabeça dos filhos porque é a única coisa que ninguém pode tirar deles.

 
 
 

Torá, livro sagrado do judaísmo

 

A senhora freqüenta alguma sinagoga? Qual?

Não. Eu tive uma decepção muito grande na SIC. (Sinagoga da Sociedade Israelense do Ceará). Primeiro eu vi uma moça com os ombros nus e com tatuagem. Eu tomei um susto. E a minha chegada foi como se não tivesse chegado ninguém. Não é a Adísia, eu era uma pessoa qualquer e estava chegando na casa deles. E quando alguém chega na sua casa o que é que você faz? você recebe. E ali eu fiquei muito chocada. Quando houve a leitura, me pareceu extremamente mundana.

Sobre a ética judaica, o que mais lhe fascina nessa constante da nossa fé?

A ética judaica é extremamente rica e fantástica. Ela é humana, é grandiosa, é justa. Pra mim, é o que me apaixona no judaísmo, fora a história, a literatura, é esse senso de justiça, de humor um com o outro, a verdade, pois no judaísmo você não pode mentir.

E quanto a Caballah, o misticismo judaico, a senhora também estuda?

Eu comecei a estudar, fiz cursos com rabinos, adiquiri livros, li bastante, mas é muito profundo. É muito profundo. Não adianta você querer ter aquele conhecimento das sefirots e não penetrar profundamente.

Acredita em reencarnação?

Eu sou uma mulher muito cética. Muito racional. Quando eu me afastei da igreja católica em 1955, me afastei principalmente porque tive um pregador, que depois até largou a batina, que me disse certa vez que quando a gente joga uma pedra na terra ou na água e espalha aquelas gotículas, aquilo é como se fosse o ato da criação. Ou seja, não morreu, não desapareceu. O mundo foi criado por uma explosão, por uma palavra, mas a palavra não morreu. Ela se propaga. Agora reencarnação é muito difícil pra minha cabeça. Que energia é essa que volta? Volta pra onde? Não acredito em plano nenhum. Acredito que estou viva com oitenta e um anos, viva e escrevendo.

O judaísmo é uma religião de 613 mitsvots “mandamentos”. 613 leis divididas entre “isto tem que ser feito” e “isto não pode ser feito”. Muitos afirmam não ter tempo de cumprir as leis da Torá, mas dizem ser judeus de coração. Pra senhora, qual é o significado dessa declaração?

O judeu não é só um ato intelectual não. Você não é judeu pela metade. Tem uma piada que o filho chega pra comer um sanduíche de porco com a mãe e ela o recrimina. Ele diz: mãe, isso é só em Israel. Ele vai sair pra balada numa sexta feira, a mãe o recrimina e ele usa o mesmo argumento. A mama íidishe olha para o filho e diz: mas a circuncisão você não tem como apagar!

O messias cristão (conhecido como Jesus) é apenas um eufemismo para uma paz utópica na terra. O conceito de messias foi emprestado e alterado por outras religiões. De que forma a senhora como admiradora da fé judaica defende a importância do Mashiach das profecias judaicas para os judeus e para o resto do mundo?  

O judaísmo é um exercício permanente que aperfeiçoa a mente. O judeu é um ser sempre em contato com o Ser Supremo. E a sua relação com D’us está sempre firme e forte: a vinda do mashiach é uma metáfora judaica. É uma metáfora da literatura judaica. No caso do messias cristão, Jesus, esse não é nem citado na Torá, ele é um profeta de terceira categoria.

E quanto ao conflito entre Israel e a Palestina? A senhora defende os judeus ou conserva uma opinião imparcial?

Não vai terminar nunca. É briga de família e em briga de família ninguém mete a colher. Aquilo lá é briga de primos, vem desde os tempos remotos com Isaac e Ismael. Isaac, filho de Abraão com Sara (legítimo judeu, filho de um milagre, pois Sara era já idosa e estéril) e Ismael, filho de Abraão com a escrava Agar. Como todos devem saber, Isaac deu continuidade ao povo judeu e Ismael ao povo muçulmano.

Como todo pioneiro(a), a senhora deve ter vários projetos. Quais são as principais linhas de seu plano de trabalho com relação à cultura judaica? A senhora pensa em escrever sobre judaísmo?

Eu já tenho um trabalho e estou querendo parar para terminá-lo. Estou escrevendo um livro intitulado Meditações Sabáticas por uma Não-Judia. Doutor Cândido Pinheiro já me ofereceu sua editora. Quando terminar o livro será editado pela editora dele. Então, Meditações Sabáticas Por Uma Não Judia, é a minha leitura dos livros sabáticos. Eu fiz uma releitura de Capitu, de Ana Karenina de Madame Bovary, e agora quero fazer uma releitura das mulheres judias. Sara, Débora, Judite, Ester, etc.

Em sua viagem para Israel a senhora ainda não tinha despertado para o judaísmo e não fez o pedido ao muro das lamentações. Se viajasse novamente o que anotaria no bilhetinho? 

Nada. É uma tradição. Eu acho que fazer porque os outros fazem, pra tirar retrato, eu não faço não.  Todos que estão ali, os judeus, eles fazem com uma fé absoluta naquilo. Eu não entro muito nessa fantasia.

A Torá é a fonte essencial da religião judaica e a base espiritual do povo escolhido. Qual é o trecho que lhe transmite mais verdade, o seu versículo preferido?

Senhor, Salvai-a”. (Moisés pedindo por sua irmã Miriam).

Texto e fotos de Érika Zaituni

7 comentários em “Reflexões sabáticas de uma jornalista não judia – entrevista exclusiva com Adísia Sá

  1. Como eu sou um judio, tinha um interesso especial em ler esse articulo. Os fatos sobre a religião são exatos e verdadeiros – importante numa religião que parece que ainda tem muitos que não sabem nada dela. Achei muito bom escrito, e claro, a Adísia Sá é uma mulher que gostaria ter uma conversa boa com ela. Adorei!
    Érika Zaituni, queremos mais!

  2. É com profundo respeito que leio esta reportagem!Em seu trabalho arqueológico de nossas raízes,Adísia localizou mais uma vertente,desta vez paterna,de nossas orígens judaicas.
    Corajosa,intelectualmente crítica,fico feliz por ter tido como Escritor tal madrinha no Lançamento de meu primeiro Livro –
    “A Marca de caim”,1985,Federação baiana dos Escritores,em Fortaleza,no BNB.Parabéns Adísia,do primo e amigo
    Francisco J.B.Sá

  3. Eu sou lógico e cético, mas desde que tomei consciência da vida,e isso me ocorreu aos cinco anos de idade – Que uma forte consciência e Fé em Deus me chegou! Chegava a sentir tal sensação com lágrimas nos olhos!Ao longo da vida meu avô materno, dizia para mim e se indagava: –
    O Por quê dessa Fé que ele considerava inata em mim e de onde tinha saído eu,assim,
    que ele achava ser – uma diferenciação fantástica em relação aos demais! Hoje sei- A descoberta de meus primos,Adísia e Arlindo – sintetizam e explica esta Fé ,inata! A Origem judaica de nossos ancestrais!
    Francisco J.B. Sá
    Antropólogo/Escritor

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