É possível viver de arte em Fortaleza?

Giba Ilhabela em seu ateliê / Foto:Arquivo Pessoal

“Fazer arte é o meu trabalho”, sentenciou o artista plástico Giba Ilhabela. Transformar sua produção em fonte de renda e conseguir sobreviver do talento é um grande desafio que se impõe aos artistas em todos os lugares do mundo, desde tempos remotos. Apesar da dificuldade, alguns artistas em Fortaleza conseguem superar esses obstáculos com criatividade.
Gilberto Gomes Pinna nasceu em Ilhabela, litoral norte de São Paulo, de onde veio a carinhosa alcunha. O desenhista e pintor sempre nutriu uma paixão por Fortaleza que tem origem, principalmente, de sua ligação familiar e identificação com a temática do mar e dos jangadeiros. Apesar do carinho pela cidade, o artista ainda encontra dificuldades para ganhar o mercado local com suas obras.
“Fortaleza tem um circuíto muito fechado, com muitas panelinhas. A cidade tem uma ótima estrutura que ainda é mal aproveitada”, avaliou. Com a dificuldade de ter acesso ao circuito de arte local e devido o alto custo para expor em galerias reconhecidas, onde os marchand’s chegam a cobrar um percentual de 50% do valor das peças, Giba ainda não conseguiu o reconhecimento desejado no cenário fortalezense e tem a maioria das encomendas vindas de São Paulo.
Para garantir sua subsistência, Giba Ilhabela resolveu pintar santos tradicionais sob encomenda, pois assim acredita não comprometer sua qualidade artística e, ao mesmo tempo, encontra um bom público. “Criei junto com meu filho, que é publicitário, o Pinnateliê, onde a gente faz criações publicitarias de diversos tipos, desde de pinturas para locais comerciais até, por exemplo, o boneco da campanha de um futuro candidato a vereador”, revelou.

Giba mostra sua obra / Foto:Arquivo Pessoal

Para preservar a diferenciação de sua obra artística mais pura dos seus trabalhos publicitários e as pinturas de santos, ele utiliza pseudônimos. O artista revelou um cuidado necessário que ele tem com sua obra para não vulgarizar. “Como acontece em São Paulo e em todo canto, na beira-mar tem artistas de qualidade duvidosa e expor ali pode depor contra meu trabalho. Peças que eu vendo, por exemplo, em São Paulo por R$ 1000, lá vou vender por duzentos”.
Apesar deste cuidado, o artista considera fundamental a obra ser exposta e trazer a população para perto da arte. “Realizei uma exposição no salão de eventos do condomínio onde moro, chamada ‘Arte para Vida’, distribuí convites, mas poucas pessoas vieram prestigiar”. Sem desistir, Giba encabeça alguns projetos sociais, entre eles o “Muros e Fachadas”, onde pretende trabalhar com crianças com necessidades especiais.

Dificuldades com as políticas públicas

Narciso Jr. em cena / Foto:Arquivo Pessoal
Apesar de algumas políticas públicas pontuais de fomento artístico, como os editais para música, cinema, teatro e outras expressões, os artistas fortalezenses reclamam das dificuldades de acesso a esse sistema. “Nos do grupo Abre Alas já tentamos algumas vezes e infelizmente não conseguimos. O que a gente vê é que as pessoas que estão ganhando esses editais já sabem mais ou menos o caminho que tem que percorrer para ganhar. Sabem o tipo de proposta para fazer, os lugares que tem que ir, além de contatos já feitos”, indigna-se o ator Narciso Júnior.
Com mais de 10 anos de experiência no teatro, o ator do grupo Abre Alas procura outras formas de se sustentar sem abandonar a arte. “Nós atores costumamos dizer que a gente não vive de teatro, mas sobrevive. Existem casos de pessoas que já conseguem uma grana legal e uma vida mais estável com o teatro, mas não são muitos. Nosso dinheiro geralmente vem da bilheteria e nem sempre é o esperado, como alternativa, eu me especializei e sou professor de teatro”, revelou.
O ator esclarece como a companhia Abre Alas, a qual pertence, faz para sobreviver no mercado sem o apoio das políticas públicas. “Como a gente já é muito antigo, temos um grande repertório de espetáculos de onde reaproveitamos cenários, figurinos, economizando tempo de ensaio e gastos em produção. Mesmo assim, muitas vezes o espetáculo só se paga. Mas, graças a Deus, a gente vem conseguindo e, pelo menos, dá para manter o grupo”.
Uma forma encontrada para amenizar os gastos é procurar empresas para patrocinar. “Quando as empresas patrocinam nunca é diretamente com dinheiro, mas dando apoio com os figurinos, cenários, locações e etc”. Para garantir trabalho para o ano todo, as companhias criaram algumas alternativas. “Buscamos as empresas, corporações, aniversários, eventos particulares, escolas e, dessa maneira, temos um calendário de apresentações”.
Música: quase um monopólio
Banda Estado Anestesia comemora divulgação em jornal / Foto:Arquivo Pessoal
Grandes conglomerados empresariais dominam o mercado musical em Fortaleza. Estruturas gigantescas, que incluem casas de show, rádios, estúdios e todo aparato tecnológico desde equipamentos de som, iluminação e transporte fazem com que o domínio do chamado “forró eletrônico” seja quase absoluto em Fortaleza.
Buscando seu espaço, quem deseja fazer uma música em outro estilo encontra enormes barrerias. A banda Estado Anestesia vem desde 2004 buscando seu espaço na cena underground da cidade. “Muito difícil viver de música, principalmente com o rock. Se a gente pudesse iria viver trabalhando só com a banda, mas ainda não dá. Todos nós temos outras atividades. Toda hora a gente pensa em desistir, mas ai não passa um mês e recomeça”.
Para não se afastar da música, o vocalista se especializou em trabalhar nas backstages dos shows e festivais das bandas que já tem nome forte no mercado, trabalhando como roddie e técnico de som. “O que eu recomendo para todo mundo é união. Nos juntamos àPanela Discos, que é uma produtora pioneira nesse estilo aqui. Com a outras bandas, a gente promove shows, faz a divulgação e até conseguimos um espaço em uma rádio”, recomenda o músico.
Outra forma inovadora encontrada pela banda foi gravar seu próprio CD, após montar um estúdio caseiro. “Como não temos dinheiro para uma produção cara em estúdios, montamos um home stúdio e com a ajuda de um primo meu que é produtor conseguimos gravar o primeiro EP, que se chama Fúria, e vamos gravar o CD todo nesse esquema”, revelou.
Sobre o espaço na mídia, Marcos Daniel lamentou: “Colocar uma música na rádio é muito difícil, mas uma vez com a ajuda da produtora e a união das bandas conseguimos um espaço de uma hora por semana na rádio, onde conseguimos colocar nossas músicas”. O vocalista se refere ao programa Cidade do Rock, que é veiculado na FM 99.1, rádio Cidade, todos os domingos das 19:00 às 20 horas. Ele considera que outra ferramenta importante para a divulgação são as novas mídias. “Temos Facebook, Myspace e Vimeo… Não podemos se abster de qualquer tipo de mídia”.
Texto: Glaydson Galeno
Orientação: Profªs. Adriana Santiago e Joana Dultra 

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