Arte urbana: breack, Dj, Mc e graffiti

“Hoje a gente vai treinar o alfabeto, cada um vai descobrir o seu estilo. O caderno é muito importante, não pode perder”, foi assim que o professor, Davi Favela, começou a sua aula para cerca de 25 adolescentes que compareceram à escola, em um sábado às 9 horas da manhã, para aprender a grafitar.

Estes alunos estão participando do Projeto Farol que acontece em toda a comunidade do Bom Jardim e conta com a orientação e coordenação geral de Roberto, que decidiu ajudar comunidades seguindo o exemplo de sua esposa, Geralda. “Minha esposa fazia trabalhos voluntários, ajudava pessoas nas comunidades, aí eu falei pra ela: Peraí, uma coisa não tá certa, bora se organizar, montar uma entidade. E a coisa foi crescendo e eu não estava mais satisfeito em ser engenheiro, aí eu me qualifiquei, e passei a assumir como professor. Sou de São Paulo, tô no Ceará por causa desse trabalho, isso aqui é minha razão de viver”.

O projeto aborda a identidade do Hip Hop e o aluno Evanildo, mais conhecido como Biboi Gurú, explica melhor esse movimento: “O hip-hop não é só música, mas sim a junção de quatro elementos: expressão corporal (breack), poesia (hap), música (Dj) e visual (graffiti)”. Este último surgiu em Nova York no fim da década de 60 e a maioria dos grafiteiros usava os tag’s (assinaturas) sempre com números que correspondiam a rua em que moravam ou o número da casa, exemplo disso era Tak 183, Phase 2 e Cope 2. Nos anos 80 o graffiti chega ao Brasil, em São Paulo, com os grafiteiros Os Gêmeos, que se tornaram reconhecidos até hoje com o spray, depois deles apareceram Binho, Tinho, Speto, Victhe, mas só em 1993, através do grafiteiro Flipjay, o graffiti chega ao Ceará. Este ano o Brasil aprovou uma lei que tira o graffiti do código penal e o coloca como arte, mas muitos grafiteiros já sofreram alguns preconceitos, como explica Tubarão: “Quando comecei, em 99, era muito difícil pintar, muita repressão da polícia, essas coisas. As pessoas também não sabiam o que era graffiti, confundiam com pichação e quase nunca conseguíamos a liberação de muro, então, eram sempre trabalhos feito ilegalmente. Agora o preconceito é menor, mas ainda existe,[…] esse lance de arte e vandalismo, acredito que isso é taxar o graffiti, e não concordo com isso. Ele é um tipo de arte, mas uma arte voltada mais pro social e com caráter de rua mesmo, nossa arte é pública”.

Grande parte dos grafiteiros de hoje, já foram pichadores e agora condenam sua antiga atividade. Um deles é Henrique, mais conhecido como Ice Rick, que é ex-pichador e diz que há uma grande diferença entre pichação e graffiti, para ele a arte de grafitar mostra algo bonito para a sociedade, já a pichação polui a cidade. Hoje, em cada obra de graffiti que desenha, coloca sempre uma boa mensagem para aquelas pessoas que olham e admiram sua arte.

Arijonas, aluno do Projeto Farol, também é prova viva disto: “Eu já pichei muito e era tudo feito nas intoca, o grafite é diferente, é liberado. Aqui no bairro não tem nenhuma atividade, o único projeto que tem aqui para a pessoa se entreter é esse. Aprendi muita coisa já, não picho mais”. E não são só meninos que participam, é o que afirma a aprendiz de graffiti Ana Kézia: “Tô aprendendo muito, não sabia nada, e tem muita mulher aqui se envolvendo com graffiti, além de nós, tem mais meninas. Eu não vim aqui só pra me entreter, quero fazer graffiti profissional, sempre achei interessante, meu irmão já fazia e quando apareceu esse projeto, me inscrevi logo”. Diferente de Kézia, Flávio Santos não sonha em ser grafiteiro, seu desejo é trabalhar com odontologia: “Vim só pra aprender, já participei de um curso de artes plásticas no SENAC, mas desisti. Só que aqui, nesse projeto, é bem mais descontraído, mas não pretendo usar pra ganhar dinheiro”. Mesmo não desejando fazer sua carreira profissional no graffiti, Flávio finaliza: “o pessoal pensa que arte é uma coisa perfeita, mas arte é um sentimento”.

Os coordenadores do projeto também aprendem, a cada dia, mais sobre a arte de grafitar, é o que afirma Elenilse, cantora do grupo Afoxé Acabaca e faz o apoio pedagógico do projeto: “Tô aprendendo muito junto com o Davi Favela, percebi a diferença entre pichação e grafite. O grafite só se faz se o dono do muro consentir, pra pichar o cara não faz isso. No grafite você consegue fazer a leitura, ele passa uma coisa boa, já a pichação faz com que a pessoa arrisque sua vida. Próximo lá de casa, um menino de 16 anos resolveu pichar numa parte bem alta de um prédio, virou de cabeça pra baixo, caiu e morreu. Já vi até um aluno me dizendo que conseguia pegar numa arma pra dá um tiro, mas não conseguia pegar na lata de spray, porque se tremia todo. Eu quero mudar isso, preparar o adolescente pra vida”.

O graffiti não é arte só para quem mora na favela, a arte de grafitar já foi debatida dentro de algumas escolas particulares, projetadas em grandes obras de arte, através do Graffiti Ren, é como conta Amanda Batista: “Minha professora, um dia, mostrou pra gente o grafite dentro da arte clássica, através dessas obras. Achei tudo muito lindo”.
E não é só pintar por divertimento, é como afirma Davi Favela: “Tem alunos meus fora (de Fortaleza), tem uns que tão ganhando mais dinheiro do que eu. Tem dois que estão viajando agora para o Juazeiro para pintar canga de praia, outros estão pintando tela. Tem uma aluna minha que trabalha em uma funerária, começou no graffiti, mas tá agora deixando os rostos dos defuntos mais bonitinhos, usando a mistura de cores que aprendeu. Ou seja, o graffiti é a porta e a gente utiliza a lata de spray como instrumento de inclusão social”.

Babau

Dia 19 de novembro, os alunos do Projeto Farol se reuniram na Praça do Ferreira com os adeptos do hip-hop para comemorar, antecipadamente, o Dia da Consciência Negra, 20/11. No evento, vários grupos se apresentaram e, cada um, tinha 30 minutos para mostrar simultaneamente todos os elementos do hip-hop, confirmando a união existente entre eles. É o que reforça Babau: “Autoestima o tempo todo, irmão. Vocês fazem parte de um todo, todos juntos nesse mesmo barco. A periferia é uma só, não é o rap, dança, graffiti, é tudo. Somos pobres, temos a mesma cor, muda só tonalidades, vocês têm que saber o que é consciência negra, têm que entender o que significa essa data, tem que pensar em hip-hop, ser preto 24 horas”.

Texto: Bruna Feijó

Orientação: Profa. Adriana Santiago e Profa. Joana Dutra

Um comentário em “Arte urbana: breack, Dj, Mc e graffiti

  1. eu queria pode ir pra uma escola de grafitagem assim meu sonho é aprender muito a grafitar eu só sei grafitar olhando pra outra grafitagens ou letra eu queria poder inventar letra inventar bonecos de grafite etc…
    mas que pena que aqui na minha cidade não tem muito isso de grafitagem
    eu sou fan de grafit e o que eu mas queria é aprender a grafitar eu tento muito

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