Histórias e impressões em gravuras

“Claro – escuro renascentista em pleno sertão, contraste barroco entre a alegria e a dor, imagem talhada pela fé, como se a vida fosse reinventada cada vez que fosse impressa, como Verônica imprimiu a face de um Cristo no tecido de linho.

Imagens que só se completam quando entintadas e pressionadas sobre o papel, que de outro modo configuram apenas uma tábua marcada por escavações e cortes, flagelada pela dor que é criar, buscar todas as influências e lembranças possíveis, mergulhar no fundo mais fundo e trazer a idéia do traço que vai se transformar nessa imagem.”

Gilmar de Carvalho

A xilogravura, uma das grandes representantes da cultura popular nordestina, foi uma das primeiras técnicas de gravação e impressão. Utilizada em capas de folhetos de cordel, sua gravação é feita sobre uma placa de madeira. Embora não haja um consenso sobre o período de origem da xilogravura, sabe-se que seu uso nos primeiros folhetos de cordel surgiram no final do século XIX e, desde então, transformou-se em um ícone da nossa produção artística.

O Brasil só pôde desfrutar da xilogravura a partir de 1808, quando a Família Real veio para cá. Até então, era proibida a instalação de oficinas de impressão no País, alegando que a metrópole tinha condições de suprir a demanda da colônia. Algum tempo depois, houve uma tentativa oficial de ensino da xilogravura, abrindo-se a cadeira na Academia de Belas-Artes; entretanto, a disciplina nunca teve existência efetiva.

Em seguida, surgiu a chamada “gravura da arte”, com Lasar Segall, Osvaldo Goeldi e Livio Abramo. Esses artistas influenciaram, em maior ou menor escala, os gravadores e, principalmente, xilogravadores, que seguiam seu caminho. Entre eles, pode-se citar Renina Katz, Maria Bonomi, Marcello Grassman e Newton Cavalcanti.

Influenciada pela capacidade de reprodução de uma imagem em grande escala, a xilogravura passou a ser associada a manifestações populares, possuindo, quase sempre, um caráter expressionista e figurativo. Hoje, ela atende a exigências estéticas modernistas e também contemporâneas e marca o trabalho de artistas como Audifax Rios e Rafael Limaverde, atraindo o interesse dos mais diversos públicos.

O psicólogo José Vasconcelos Filho, por exemplo, é um dos admiradores dessa arte. Ele conta porque a considera peculiar e do plano de utilizá-la para fazer seu ex-libris. Ouça aqui.

As imagens agradam por serem, ao mesmo tempo, simples e complexas. Fácil de fazer e até mesmo de improvisar – elas podem ser produzidas com uma batata ou melancia cortadas ao meio –, a xilogravura conquista cada vez mais adeptos em nosso Estado, e várias oficinas são oferecidas em Fortaleza. Também está em andamento a criação do Centro de Referência da Gravura no Ceará, que ficará localizado na casa em que nasceu Castelo Branco, na rua Sólon Pinheiro.

Eduardo Eloy coordenou, no ano passado, o curso Gravura – Oficinas em Rede, e acredita que a produção cearense tem potencial. “O Ceará já tem gravura de bom nível. Nossa produção é boa, já disse a que veio”, afirma. O artista Rafael Limaverde é um grande exemplo – ele já realizou duas exposições individuais e desenvolveu logomarcas para a Prefeitura, como a do V Festival de Tetro de Fortaleza, abaixo:

Veja galeria de xilogravuras aqui.

Embora ainda sofra algum preconceito, a xilogravura tem conquistado respeito e admiração ao longo dos anos e, mais do que uma técnica de reprodução, transformou-se na representação impressa da história, da cultura e dos anseios populares.

Texto: Indira Arruda
Orientação: Profas. Adriana Santiago e Joana Dutra

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