Hoje tem espetáculo? Tem sim, Senhor!

“É festa!

Salve, salve minha gente, saiam às portas e janelas, venham ver o grande cortejo passar. No ar, de sua boca encarnada, menino dragão cospe um sol em noite de Estrela Dalva, pedrinha alva brilhosa que no verão dos Inhamuns é viçosa e ilumina o vosso passar. Sobre este solar cenográfico desfila a grande serpente. É gente! É gente da espécie alegre dos artistas: atores, palhaços, bonequeiros, malabarista. O saxofonista puxa uma melodia em dó. De cór, a multidão cantarola a canção dos alegres”.

É assim que os inhamuenses escutam o chamado nos diversos carros de som nas ruas, para participar do VI Festival dos Inhamuns de Arte, que aconteceu de 01 a 05 de novembro de 2011. Na ocasião, a plateia pôde assistir a apresentações circenses, teatro de mamulengo e, as mais esperadas encenações teatrais de rua. O evento tem uma importância imensa para todos aqueles que o esperam durante todo o ano, visto que esta é a única amostra teatral que contempla a região dos Inhamuns.

Devido à falta de repasses do Governo do Estado, a 6ª edição (2011) aconteceu de forma reduzida, apenas no município de Arneiroz. Nos demais anos, todas as cidades recebiam grupos de teatro, mas o orçamento não permitiu que os espetáculos fossem itinerantes. O festival organizou-se apenas com o incentivo de R$100 mil, da Fundação Nacional das Artes (Funarte) e com a ajuda da Prefeitura Municipal de Arneiroz.

O coordenador do projeto, Robson Cavalcante, lamenta a redução da abrangência, mas diz que isto não enfraquecerá os que lutam pela integração das artes cênicas na região. “É importante que as crianças cresçam com a ideia lúdica da arte, que elas possam encenar, possam ser o que quiserem e não o que a condição de miséria em que nasceram os obriga”. Ressalta emocionado.

Grupos de todo o Brasil e internacionais se apresentaram em Arneiroz. A peça do grupo Jucá de Teatro, da cidade anfitriã, foi ovacionada em sua apresentação, que contava a história de um sertanejo, incumbido por São Jorge, de devolver ao sertão a lua, que havia sido roubada. Talvez, por encorajar a arte e, despertar nas crianças o interesse pela encenação, a cidade de Arneiroz tem vários grandes artistas, atores e músicos consagrados que aprenderam suas primeiras lições na brincadeira e animação do Arte Jucá.

A direção do festival convidou os grupos participantes a permanecerem na cidade sede do festival durante todo o período, para que pudessem assistir aos espetáculos, participar dos encontros e vivências e contribuir com os debates. Esse formato, apesar de encarecer, é importante para o enriquecimento das discussões e para a formação dos artistas, que têm a oportunidade de assistir a outros colegas aprendendo, ensinando, participando.

Mapa do site do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal no Estado do Ceará

Para a Região dos Inhamuns fica não só a alegria de vivenciar cinco dias de pura arte, mas também um movimento no comércio e nos serviços de suporte a um grande evento, como os setores de hospedagem, alimentação, bebidas e transporte. Estima-se um aumento de 30% nos lucros dos comércios locais, como supermercados, padarias, lanchonetes e bares.

ARTE JUCÁ

O grupo Arte Jucá é hoje uma Associação que se sustenta com doações, pequenos incentivos da Prefeitura e muita vontade de fazer de sua direção. Há dez anos promovendo a cultura popular e divulgando a vida do sertanejo inhamuense, o grupo tem se fortalecido na primazia de suas apresentações e em sua capacidade criativa. A cantora e atriz Mazé Cavalcante, uma das idealizadoras e artista do grupo, o descreve dizendo que “assumimos o leme de um barco que deveria navegar os céus. Para isso seria preciso magia, alquimia, ousadia. Sempre sonhamos muito, beirando o utópico, exaltados, quase histéricos. Nossas reuniões de ‘produção’ mais parecem um pregão de feira, um espetáculo de rua. Por isso o chamamos entre nós de: a festa! Da alegria utópica e exaltada à decepção reflexiva, quando chega a hora de fazer as contas e cair na real: a grana curta. Mas decepção não é sinônimo de desânimo por aqui. O chapéu gira com dignidade, nele tem sido depositada generosidade e parceria. Isso tem garantido a alegria, mas não significa a anulação de nossa indignação, de nossa intenção e coragem de lutar”.

Pela declaração é fácil perceber de onde vem tanta dedicação – da paixão pela arte. O grupo, que tem um desdobramento especial para as artes cênicas, o Juká de Teatro, já se apresentou em todo o Brasil. No Ceará, estiveram em janeiro deste ano, no festival do Teatro José de Alencar, onde apenas ele e um grupo de Ubajara, na Serra da Ibiapaba, foram escolhidos no estado.

INHAMUNS?

Inhamuns é uma palavra de origem indígena que significa “sertão alto”. É uma macro-região cearense composta pelos municípios de Aiuaba, Arneiroz, Parambu, Tauá, Caratina e Saboeiro. É possível que você que está lendo jamais tenha ouvido falar de alguma destas cidades, que formam a área mais pobre do Ceará e se estabeleceram no semi-árido, onde a esterilidade do solo e o cinza da vegetação prevalecem na maior parte do tempo.

No entanto, como a flora, a vida das pessoas também se revigora ao menor sinal de prosperidade. Basta apenas uma ou duas chuvas para que todo o cenário cinzento se pinte de verde, assim como o astral de cada um dos moradores aguerridos. Não precisa muito para que o ânimo e o desejo de lutar aflore e as pessoas superem a miséria e a dificuldade de viver em total esquecimento pelo Governo do Estado.

Foto: arquivo pessoal das autoras

O festival acontece na cidade de Arneiroz, há 430 quilômetros de Fortaleza. A distância que nunca foi percorrida nem em sonhos pela maioria dos moradores da Capital, nunca deixou de ser por nenhum dos que vivem no sertão. Todos eles sonham com o dia em que poderão mudar de vida, morar na cidade grande e ver o futuro chegar. É nisto que as artes cênicas os ajuda, é nisto que alimenta a imaginação e a possibilidade de mudar de vida, de ser outra pessoa, sem jamais sair de suas origens.

Texto: Márcia Feitosa e Camila Montenegro
Orientação: Profas. Adriana Santiago e Joana Dutra 

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