Livro resgata a memória da cantoria

Simone Oliveira de Castro, autora do livro "Memórias da Cantoria: palavra, performance e público"

“Memórias da Cantoria: palavra, performance e público” é o primeiro livro de Simone Oliveira de Castro. O lançamento aconteceu ontem em uma festa bastante disputada no Instituto Federal do Ceará (IFCE). A obra é o resultado do doutorado da historiadora e professora do Instituto. Emocionada, falou da honra e do orgulho que sentia pela ocasião e ressaltou que tardou em realizar o lançamento porque queria os entrevistados presentes.

Dentre eles estavam os cantadores de viola Geraldo Amâncio e Zilmar do Horizonte, os primeiros convidados a subirem ao palco. E foi num clima bastante descontraído que Geraldo Amâncio começou a falar: “desculpe, eu estava lá fora, nem ouvi quando fui chamado”. Em improviso eles cantaram o sabiá, estilo de rima cujo mote é “voa sabiá no galo da laranjeira/que a pedra da lavadeira vem zoando pelo ar”.

Na apresentação do livro, o professor e pesquisador Gilmar de Carvalho salientou o trabalho da historiadora, que partiu da tradição para renovar os estudos. “Quando a gente acha que não há mais nada para ser dito sobre cantoria, vem a Simone com esse trabalho de retomada, com olhar novo, resgatando a memória, que é algo tão importante para o campo. Simone será referência nos estudos sobre cantoria”.

Também discursaram o representante do reitor do IFCE, o Pró-reitor Gilmar Lopes, e o secretário de cultura de Limoeiro do Norte, Paulo Remígio. Lourdes Macedo, mestre de cerimônia e professora do Instituto, encerrou o evento destacando a importância de ali estarem presentes representantes das quadrilhas, do afoxé, do maracatu e das africanidades, concretizando esse apoio das diversas manifestações culturais umas às outras.

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A cantoria

Cantoria é o momento em que cantadores de viola (instrumento parecido com o violão) fazem versos improvisados, como às vezes observamos na orla de Fortaleza. A cantoria faz parte da cultura nordestina e tem bastante representação no Ceará, onde, na cidade de Limoeiro do Norte, há três anos ocorre o Festival Internacional de Trovadores e Repentistas.

A beleza do momento reside no fato de que, mesmo improvisando, os repentistas fazem versos metrificados (seguindo o esquema de sílabas métricas comum ao gênero da poesia) em que não há um só verso que não faça rima com o outro. E versando rimas de improviso eles contam os mais variados causos e falam sobre todos os assuntos.

O sabiá, citado acima, é um dos gêneros da cantoria. Dentre os mais conhecidos estão o galope à beira mar, o martelo agalopado, o mourão e a sextilha, esta composta por uma estrofe de seis versos. Abaixo, um exemplo de sextilha de autoria anônima recitado por Geraldo Amâncio no final de sua fala. Carregado de humor, outra característica bastante presente na cantoria, a sextilha conta porque o cidadão não parou na blitz:

“É que ontem eu vi um guarda
Vestindo uma farda assim
Carregou minha mulher
Que era preguiçosa e ruim
Eu pensei que fosse ele
Devolvendo ela pra mim”

Texto e fotos: Marília Pedroza
(mariliapedroza2@gmail.com)
Orientação: Profa. Adriana Santiago

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