Da pichação à arte em apenas um conceito

Foto: Divulgação

O Centro, bairro considerado por muitos o coração da cidade de Fortaleza, sempre será recordado por seus espaços de convivência. A Praça dos Leões, o Theatro José de Alencar, todos os equipamentos públicos que fizeram ou fazem parte do cotidiano do cearense, neste bairro carregam consigo histórias de alegria ou de luta.

Ponto de encontro da antiga burguesia e da atual classe trabalhadora do bairro, quando se pensa em manifestação ou protesto, a Praça do Ferreira é sempre uma opção simbólica. Fazer coletivamente demonstração pública no espaço do Centro é recorrente não apenas por quem tem interesses sindicais e até a própria prefeitura da cidade se utiliza desses locais para shows ou eventos abertos ao público.

Com tanto apelo popular, com tanta gente transitando por ruas antigas e paredes sujas, realidade incontestada pela própria secretaria da regional do centro, Luiza Perdigão. Vendo tais espaços inutilizados, entregues às moscas, alguns artistas vêm se utilizando desses espaços públicos para expressar sua arte.

A exemplo disso o grupo de grafiteiros Grafite Cidade, levou às paredes do Centro, nas mediações da avenida Duque de Caxias com a rua Solon Pinheiro, um ato contra a violência, tentando retratar o texto “A bala que matou Marcela”, do jornalista Lira Neto. O muro que antes era repleto de campanhas publicitárias ganhou vida e transformou-se em um espaço de representações da luta contra a violência através de um painel de grafite.

O desenho começa com um navio que estaria engolindo uma cidade e finaliza com uma criança segurando uma bandeira parcialmente queimada com a frase ‘Gentileza gera gentileza’. Para os membros do grupo Grafite Cidade, a idéia é representar no desenho todo o descaso que vivenciamos com a violência, tentando traduzir essa realidade através de imagens e símbolos.

Os grafiteiros transformam muros das ruas em uma grande galeria de arte, com cores diversas dando forma às mensagens que eles tentam passar para sociedade, muitas vezes enfrentando o preconceito que ainda confunde o grafite com a pichação. “Está melhorando. Há uns cinco anos que o pessoal está respeitando mais, está vendo o resultado do nosso trabalho e gostando”, conta Robezio Marqs, um dos membros do Grupo Acidum.

Ele conta ainda que os trabalhos realizado nos muros da cidade estão abrindo portas para uma nova geração de grafiteiros. “Estamos indo além das ruas, chegamos as escolas e comunidades onde a pichação ainda é latente, mas com as armas de trabalho que dispomos: pincéis, tintas-spray e outros adereços. Além da criatividade, estamos conseguindo transmitir uma mensagem de paz. Além disso, fazemos um chamado para que a cidade seja menos indiferente e omissa”, acredita Marqs.

 A origem

A palavra ‘grafite’ é de origem italiana e significa “escrita feita com carvão”. Os antigos romanos tinham o costume de escrever manifestações de protesto com carvão nas paredes de suas construções. Tratavam-se de palavras proféticas, ordens comuns e outras formas de divulgação de leis e acontecimentos públicos. Alguns destes grafites ainda podem ser vistos nas catacumbas de Roma e em outros sítios arqueológicos espalhados pela Itália. Na década de 1960, jovens do Bronx, bairro de Nova Iorque (EUA), restabeleceram esta forma de arte usando tinta e spray. Para muitos, o grafite surgiu de forma paralela ao hip hop. Muitos grafiteiros europeus e norte-americanos conseguiram mostrar suas obras além das fronteiras.

Os estilos

Free hand é o estilo ´mão livre´, onde o artista tem maior liberdade de criar desenhos, sem seguir moldes. Ja o estêncil é uma forma muito popular por ser rápido e simples. É um desenho que pode ser delineado a partir de uma fôrma e reaplicado por várias vezes, em diferentes locais.

A aerografia é uma técnica cuja ferramenta é o aerógrafo, um equipamento que utiliza ar comprimido para jogar a tinta na superficie, conseguindo traços mais controlados. Artistas mais experientes conseguem obter um efeito de hiperrealismo em suas obras.

O Spray

O spray, aquela latinha que projeta tinta sob pressão na parede, é o instrumento mais utilizado por artistas de rua para deixar sua mensagem nos muros. Criado no fim década de 1960, a latinha de spray já foi usada até para pichar o Muro de Berlim em seu lado capitalista, enquanto o lado controlado pela União Soviética permanecia com sua pintura impecável.

A legislação

As mensagens dos grafiteiros contam até com reconhecimento do Governo. Para o Estado brasileiro, grafite não é crime. Uma lei de 1998, que determina que “a prática do grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público e privado mediante manifestação artística com autorização do proprietário” é legal, porém a pichação, antecessora do grafite, é considerada vandalismo e crime ambiental, cuja pena pode variar de 3 meses a 1 ano e multa, para quem pichar edificações ou monumentos urbanos.

 A pichação

Seja para demarcar território ou simplesmente deixar sua assinatura na parede, o pichador é comumente conhecido como vandalo. Seu objetivo na noite, horário que mais atua, é deixar suas inscrições repetitivamente nas paredes ou no ponto mais alto de alguma edificação.

Considerada por parte da sociedade como transgressora, predatória, visualmente agressiva, vandalismo, desprovido de valor artístico ou comunicativo, o picho é também uma forma de expressão. Cada assinatura, desenho, podendo até tomar o nome de hieroglífo, comunica para a sociedade pichadora.

Texto: Célio Scipião e Lucas Menezes
Orientação: Prof. Eduardo Freire

(Matéria produzida pelos alunos da oficina de jornalismo 2012.1) 

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