Todos iguais, mas uns mais iguais que os outros

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As manchetes policiais estampam as capas de jornais cearenses desde o princípio de suas tiragens. Os boletins policiais de nossas rádios despejam, há décadas, profusas e dantescas ocorrências geradas em nossa sociedade. Há 35 anos, diuturnamente nos televisores, os programas policiais alcançam alturas impossíveis nos picos de audiência, as custas de um discurso sensacionalista, onde mais se incita a violência e  a morte do que se acena para um debate amplo sobre as delicadas questões de segurança pública em nosso estado. A propósito, questões que “repórteres policiais” lidam diariamente, como o tráfico de drogas e o crime organizado.

Embora respaldadas pelos tantos anos de existência na mídia cearense, as matérias “de polícia”, na comunidade acadêmica, são tratadas a partir de uma ótica unitária, em que chavões consagrados e críticas ostensivas desse fazer jornalístico o põem na latrina do ofício. O que não se enxerga, porém, é um engajamento prático dos cursos de jornalismo, em busca de uma primazia que acarrete no devir da área.

O repórter e autor do livro “TeleVisões: violência, criminalidade e insegurança nos programas policiais do Ceará”, Raimundo Madeira, crê que as universidades precisam assumir uma parcela de responsabilidade pela qualidade dos profissionais e do conteúdo veiculado nos suplementos policiais. “Se os próprios cursos de jornalismo se preocupassem em travar discussões mais aprofundadas sobre o jornalismo policial, fomentar o exercício teórico e prático para um tratamento mais qualificado das notícias policiais e tratar os diversos segmentos do jornalismo com igual nível de importância e responsabilidade, as visões sobre ele seriam diferentes já a partir das universidades, com repercussões positivas sobre os futuros profissionais nesse tipo de cobertura, seja qual for o veículo – impressos, rádio, televisão e internet”, analisa.

Opinião complementar tem o professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), Alejandro Sepulveda, ao defender a extensão do debate sobre as recorrentes violações dos direitos humanos e desencontros de informações nas abordagens, a outras estâncias da sociedade. “Penso que uma alternativa seria envolver no debate acadêmico os profissionais da mídia que são responsáveis pela veiculação desses programas policias, além das autoridades relacionadas com a segurança pública e gente da OAB, Ministério Público”, indica.

A marginalização do jornalismo policial inicia-se antes mesmo do ingresso a academia. Para Sepulveda, apesar de haver elementos fundamentais com os quais a célula de polícia convive, a exemplo dos direitos e deveres dos cidadãos, esta negligencia-os, endoçando o repúdio de parte da sociedade. “Creio que o próprio jornalismo policial tem contribuído para isso (desprezo do público), quando sensacionaliza e espetaculariza os fatos, expõem a imagem de detentos, mostra cenas degradantes e explora a violência do cotidiano como caso de polícia”.

O estudante de jornalismo, Farley Brasil,  lança um olhar concentrado nos programas televisivos “pouco evoluídos” e questiona a função social do jornalismo praticado neles. “O motivo mais discutido é sobre que função essa atividade realmente exerce dentro de um contexto social. A forma, sensacionalista, como esse tipo de jornalismo passa as suas informações põe em cheque o entendimento para que realmente ele serve e principalmente a sua importância para a sociedade”, enfatiza.

Madeira ainda formula o que seria, para ele, um jornalismo policial de qualidade. “Mais do que engatar uma notícia atrás da outra sobre criminalidade e violência, os veículos de comunicação deveriam se constituir em espaços para o debate qualificado sobre segurança pública. Na veiculação das notícias policiais, os jornais, as revistas e as emissoras de rádio e televisão deveriam evitar prejulgamentos, zelar pela garantia de direitos ao contraditório e à defesa, assegurar a preservação da identidade e da imagem das pessoas, enfim, promover o respeito a vítimas, acusados, familiares e leitores, ouvintes e telespectadores”.

Texto: Jefferson Passos

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