[Retratos e perfis] Em nome do padre: 38anos de perseverança e coragem no Ceará

padre-ferreirinhaNão foi nada fácil encontrá-lo pessoalmente. Gastamos alguns dias de paciência e disposição para, finalmente, conseguirmos uma entrevista (rápida, diga-se de passagem), com Manoel Ferreira. Padre Ferreira para uns, Ferreirinha para outros tantos.

O encontro aconteceu no dia 01 de novembro, às oito horas de uma manhã ensolarada, na Igreja Santa Edwiges, templo idealizado e construído por ele. Ferreira exigiu pontualidade. “Às oito e dez já não falo mais nada”.

Foram poucos os minutos, porém, bastante proveitosos. Como esperado, o pároco tinha muito o que contar, afinal, são 80 anos da história de um dos Padres mais influentes do estado do Ceará.

Enfim, entendemos sua suposta rispidez ao exigir nossa pontualidade. Pouco tempo nos direcionando exclusiva atenção foi o suficiente para abalar a tranquilidade do local. A atenção do pároco ficou dividida entre nós e as várias solicitações de pessoas da igreja.

Enfim, tivemos de nos render. Ao final do encontro, ainda cheias de perguntas, fomos obrigadas a respeitar sua pouca disponibilidade. Ficamos mais tranquilas quando ele disse “tem muita coisa sobre mim espalhada por ai, muita gente que me conhece. Já tem imagem minha, não tem? Então podem ir, vocês já tem o suficiente”.

História

Por conta dos vários desencontros que tivemos para conseguirmos algum depoimento do Padre Ferreirinha pessoalmente, acabamos acompanhando-o de longe, por telefone ou por relatos de terceiros, já que seus compromissos inadiáveis e de última hora sempre o proibiam de disponibilizar algum tempo para nós, mesmo quando combinávamos previamente.

Percebemos nele uma personalidade firme, cheia de disposição. Vê-lo pessoalmente só reiterou tudo isso. Um homem, que, apesar da longa e cansativa estrada já percorrida neste mundo, é vívido e cheio de planos.

Filho do Nordeste, nasceu em 23 de maio de 1932, num lugarejo chamado Baixias, no interior da Bahia. Uma região conhecida por judiar seus moradores, comumente vitimados por longos períodos de seca e escassez de alimentos. Porém, sempre abençoado por Deus, como ele mesmo costuma afirmar, foi criado em uma família precavida, que “visava o futuro”. Assim, nas terras de seus pais, José Coelho de Castro e Balbina Ferreira de Castro, havia um açude e um poço profundo, tesouros que garantiam à sua família uma vida menos atribulada e sofrida pela falta de chuva.

O menino Manoel viveu uma infância feliz. Em meio aos banhos de açude, corridas de cavalo de pau e passeios no lombo de jumentos, ele e seus 16 irmãos, sendo três deles adotivos, eram orientados a seguir a doutrina Cristã Católica. Aos finais de semana, rezavam o terço e ouviam trechos das Escrituras Sagradas da boca de seu pai. Uma vez por ano, seus pais o levavam para a famosa novena de Santa Filomena, num vilarejo próximo ao local onde morava. Essa rotina, para orgulho de seus pais, acabou formando dois padres, ele e seu irmão José, e duas irmãs salesianas, Donatila e Rosa.

Em 1949, Manoel Ferreira, já com 17 anos, deixa a casa dos pais para concluir o Curso Primário, na Capital. Muda-se para Recife (PE), para concluir o Ginasial. Estuda Filosofia em Natal (RN) e Teologia em São Paulo (SP), onde se ordena Diácono.

Em 1968, o destino faz com que Manoel Ferreira, já com 36 anos, retorne à sua região Natal, onde foi ordenado padre, na Catedral de Petrolina, em Pernambuco. Porém, é o Ceará o grande destino daquele jovem padre, que encontrou ali acolhida e o rebanho que Deus havia predestinado para receber dele seus conselhos e cuidados.

No Ceará, cursou as faculdades de Letras, Pedagogia e História, além de cursos de especialização e outras formações, que auxiliaram no seu desempenho como pároco. Na década de 70, quando já havia fincado raízes sólidas no Ceará, depara-se com aquilo que o ajudou a tornar-se um dos maiores nomes da fé católica no Estado. Por intermédio de Dom Aloísio Lorsheider, o então Arcebispo de Fortaleza, Padre Ferreirinha conhece a Igreja do Patrocínio.

O Templo abandonado

A Igreja do Patrocínio foi o primeiro local onde minha amiga e eu tentamos contato com Padre Ferreirinha. Tentativa frustrada, como já relatei. Marcamos com ele às três da tarde, mas ele não estava lá. Acabamos conversando com Leocádia, sobrinha e ajudante de Ferreirinha nos afazeres da igreja. Muito simpática, ela nos contou que o vigário teve um compromisso de última hora e que a “missa das três” seria celebrada por outro padre.

Localizada no Centro de Fortaleza, a Igreja do Patrocínio fica próximo à movimentada Praça José de Alencar, com vista privilegiada para o famoso Teatro que também recebe o nome do renomado escritor cearense. Atualmente, o templo é marca registrada no local, muito bem conservado, recebendo semanalmente centenas de fiéis que fazem questões ir até lá e ouvir os sermões do Padre Ferreirinha.

Uma realidade que em nada condiz com o estado desta mesma igreja na década de 70. Totalmente destruída física e religiosamente, o templo estava literalmente abandonado. Padre Ferreira então decide mudar a realidade do local, de uma forma não muito tradicional, mas que surtiu os efeitos que ele tanto desejava.

Para manter a ordem, Padre Ferreirinha acaba tomando decisões extremas. Assim como Jesus destruiu as tendas de vendilhões que comerciavam em frente ao templo sagrado em seu tempo, conforme relatado na Bíblia, Ferreira também encontra uma maneira de repelir todos aqueles que, de alguma forma, “dessacralizavam” a sua igreja. Um gradil foi instalado ao redor do templo e, munido com um revólver calibre 38, o pároco amedrontava. “Eu não ia atirar em ninguém, mas a arma impõe respeito. E a igreja tem que ser respeitada”, dizia.

Assim, Manoel Ferreira ganhou fama. Grande padre, grande líder e grande defensor. Como afirmou o Padre José Teles Arruda no ano de 1982, em entrevista ao jornal A Verdade, de Baturité, “até hoje, durante meus 51 anos de sacerdote, nunca encontrei uma paróquia tão bem organizada e à gosto dos fiéis como a Igreja do Patrocínio”.

Seu comportamento sério e destemido rendeu-lhe homenagens e condecorações. O sacerdote foi elogiado por Dom Aloísio, suas missas passaram a ser televisionadas e seus feitos espalharam-se por diversos jornais nordestinos. Em 1984, teve o privilégio de participar de um retiro mundial de sacerdotes, no Vaticano, com a presença do então Papa Paulo VI, onde apenas 350 párocos brasileiros tiveram a honra de estarem presentes.

Reformar igrejas abandonadas e assistir comunidades de risco e vulnerabilidade social tornou-se rotina para o Padre Ferreirinha. Criou creches, escolas profissionalizantes, cursos, salões de beleza. “A minha missão não é só pregar a palavra, mas cuidar dos pobres como fez Cristo”, salientava.

Talvez, para ele, todos esses grandes trabalhos ainda não satisfaziam seu ego e sua a boa vontade. Ideias de um projeto mais audacioso, de maior magnitude, começaram a se desenhar na mente de Ferreira. A ideia criou forma e chamou-se Igreja de Santa Edwiges.

Novo desafio

A igreja de Santa Edwiges, como já dito no começo desta narrativa, foi o local onde conseguimos, enfim, trocar algumas palavras com Padre Ferreirinha. Um local privilegiado por possuir uma belíssima vista para o mar e, como alguns costumam dizer, por ser administrada por um grande chefe.

Um homem, no mínimo, exemplo de persistência. Batalhou muito para concretizar a Igreja de Santa Edwiges, um de seus projetos mais desejados. Foram insistentes oito anos para conseguir um alvará que permitia a construção do templo, além das várias visitas à prefeitura de Fortaleza, nos anos em que Maria Luiza e Ciro Gomes geriam o município.

A igreja foi construída e, junto dela, o “Altar do Novo Milênio”, um espaço anexo da Igreja Santa Edwiges. “Um lugar maior, ambiente acolhedor, de muita interioridade e em profunda sintonia com a suave brisa que vem do oceano, reflexo da grandeza de Deus”, conforme Padre Ferreira deixou registrado em uma espécie de cartão-postal contendo a imagem do local.

Recentemente, foi construída uma imagem de Santa Edwiges ao lado da igreja, que gerou discussões e desentendimentos entre os fiéis e o Ministério Público Federal. A imagem foi acusada de ferir a nação laica, segundo Padre Ferreirinha. “Antes de destruir a minha estátua, destruam o Cristo Redentor”, completou.

Despedida

Enfim, a imagem continuará lá, intacta. Padre Ferreirinha não. No dia 31 de dezembro deste ano, ele dá adeus a suas atividades paroquiais nas duas igrejas que tanto amou e ajudou a edificar. Aos 80 anos, disse que precisa descansar e cuidar da saúde.

Muito querido e, também muito criticado. Ele afirma que já foi acusado de ter uma amante e de ser “beberrão”, “além de muitas pessoas me acusarem de ser proprietário de helicóptero e ter uma grande fazenda na cidade de Pacajus. Tudo isso foi desmentido pelo tempo”, disse.

Em comemoração ao seu 80° aniversário e em despedida oficial das paróquias, padre Ferreirinha realizou uma missa na Igreja de Santa Edwiges, no dia 23 de maio. Compareceram cerca de 100 bispos e padres, além de seus vários fiéis e seguidores.

Como 38 anos à frente da Paróquia Nossa Senhora do Patrocínio e 18 da Capela Santa Edwiges, Manoel Ferreira soube conduzir com maestria todas os desafios nos quais teve participação. Não haverá adeus nos corações daqueles que sempre irão lembrar de sua trajetória.
Padre Ferreirinha

De onde o senhor acredita ter vindo a vocação sacerdotal?

A vocação é de família. São dois padres e duas freiras, ou seja, a família já é vocacional. Saí de casa para estudar e me aprofundar e quando já ordenado vim aqui pro Ceará.

Como foi a primeira impressão que o senhor teve da Igreja do Patrocínio aqui no Ceará?

Era uma igreja abandonada, que nenhum padre queria. No centro da cidade e abandonada. Só tinha uma missa, às 17hrs. A igreja ficava fechada o dia todo.

O que o senhor acredita ter trazido de bom para a Igreja do Patrocínio?

As missas diárias. Nós passamos a ter dez missas diárias, coisa que não acontece em nenhum lugar do mundo. São 38 anos sendo pároco lá e nós damos a assistência que nenhuma outra igreja oferece. Muitas igrejas fecham nas segundas feiras. Eu nunca fechei a nossa, ela é sempre aberta, de domingo a domingo.

Como se deu a implantação da Capela de Santa Edwirges?

Santa Edwirges é um monumento que ninguém queria fazer pela oposição que tinha de todos os órgãos. A gente venceu todos esses órgãos e obstáculos e está aí o monumento. É um monumento para o mundo porque as pessoas se hospedam no Hotel Marina Park e vêm assistir à missa. São pessoas de todas as partes do mundo.

E como é o funcionamento da Capela de Santa Edwirges? Segue o exemplo da Igreja do Patrocínio?

Nós temos as missas nas quintas feiras, às 8hrs da manhã, às 16hrs e às 19hrs. Aos sábados a missa acontece às 13hrs e no domingo às 9h30m, às 11hrs, às 17h30m e às 19hrs, com mais de duas mil pessoas. Nenhuma igreja tem uma multidão dessa. Além disso, assim como a Igreja do Patrocínio, ela é aberta o dia todo. Quem chega, pode estacionar o carro e rezar.

Muitos julgaram o senhor pela sua atitude em defender a Igreja do Patrocínio com uma arma. O que o senhor tem a falar a respeito desse episódio?

Eu digo que vocês esqueceram que o criador foi salvar os judeus e matou todos os egípcios mergulhados no mar. O criador fez isso. Então para mim, a solução foi essa e deu jeito. A arma não era pra matar ninguém mas ela, por si mesma, impõe respeito. Hoje a Igreja é pacífica e os fiéis vão rezar sem medo. Hoje a Igreja é respeitada e a mais freqüentada de Fortaleza.

O senhor anunciou a sua despedida em breve. Alguma razão importante para a decisão de se aposentar?

Pela saúde, já estou com 80 anos. Desde os 75 anos é para eu entregar. Foram muitos anos sendo pároco das duas igrejas, já fiz, agora pronto. Vou cuidar da minha saúde para mais viver!

Texto: Raynna Benevides e Kamyla Lima.

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