[Retratos e Perfis] Nos passos de Vera Passos

Carros e mais carros chegam e saem a todos os instantes. É justamente o tráfico de automóveis na frente da Academia Vera Passos. O som da música é perceptível a partir da calçada. Logo nos primeiros instantes, a presença dominante de garotas e mulheres andando e correndo de um lado para o outro é notória. “Gabiiiii, trouxe a sapatilha?, grita uma menina ao fundo. “Mulheeeer, tá na mochila. Pega lá”, responde a outra.

Perto da recepção o papo de um grupo de amigas já é outro: “Manu, você perdeu a coreografia da aula passada”, diz uma delas. “Mas é super fácil”, diz a segunda. “Vamo (sic) ali na varanda que eu te passo tudo, mas como foi o niver da Mari?”, pergunta a terceira. “Gente, foi tudo!”, responde Manu dirigindo-se à varanda com as amigas.

– A Vera já chegou? Marquei uma entrevista com ela, digo à uma das funcionárias.
– Ah! Vera me falou da sua vinda. Mas assim, ela tá em aula agora, responde a secretária.
– Posso ver um pouco?
– Claro! É na sala logo ali na frente.
– Eu te levo lá, diz uma das alunas.

A garota estava ali observando toda a conversa. Aparentava ter seus 12 anos de idade.

– Por que a entrevista com a tia Vera?, ela me questiona e continua: Sou Amanda.
– Trabalho de faculdade, respondo.
– Eita!, surpreende-se ela.

Ao chegar na sala, há uma certa dificuldade para ficarmos mais próximos da porta. Algumas mães estão ali, observando orgulhosamente cada salto e pirueta feita por suas filhas. A aula já tinha começado há uns 15 minutos. E de acordo com Amanda, “tia Vera nunca atrasa!”.

Vera Passos durante sua aula de Jazz. Foto: Milenne Haeer.
Vera Passos durante sua aula de Jazz. Foto: Milenne Haeer.

Após os 35min de espera observando aquele local, aquelas meninas – com suas sapatilhas e aranhas (um estilo de sandália para dança) – chega a hora da entrevista com Vera Elizabeth Picanço Passos, mais conhecida como Vera Passos.

Vera se direciona a mim com um sorriso no rosto e diz: “Deixa eu sou me arrumar um pouco que tô toda descabelada. Te acalma aí”. Tia Vera me convida a entrar na sua sala para a entrevista. “Aqui não é muito grande, mas é aconchegante”, afirma.

Ah! Sobre fotos aqui no escritório, não heim! Deixa pra tirar as fotos daqui a pouco, durante a aula. É que aqui é um local mais particular.

No ambiente, com mesa de vidro e objetos bem organizados, há inúmeros cd’s. “Esses aí são apenas alguns dos quais utilizo nas minhas aulas. Tem de tudo aí. Sou quase uma DJ (risos)”, declara Vera.

Apesar de ser dona de um acervo de mais de 2500 cd’s, ela afirma ser incapaz de ouvir música quando chega estressada em casa.

“Eu não escuto música em casa porque eu já passo o dia inteiro na academia escutando música. Só vou ao meu acervo para escolher alguma música para montar as coreografias”.

Vera diz ser uma pessoa que não para quieta. “Tô aqui na entrevista, mas ao mesmo tempo tô pensando na coreografia da aula. Ah! Comigo é assim, meu filho. Minha cabeça é um turbilhão (risos)”.

Concentração na aula da tia Vera. Foto: Ícaro Paio.
Concentração na aula da tia Vera. Foto: Ícaro Paio.

Por influências familiares (já que sua mãe, Regina Passos, é a pioneira do ballet clássico em Fortaleza), ela sempre esteve próxima da dança.

“Nasci praticamente dentro de uma academia de dança. Então, seria impossível não sentir a arte de mexer o esqueleto por perto. Mas também sou muito ligada nas outras artes. Gosto muito de trabalhos manuais, adoro pintar. Já fiz até aulas de violão, menino. Tá pensando o quê!”.

Ela começou no ballet clássico e no sapateado, mas se identificou mesmo com o jazz aos 13 anos de idade. “Pronto, é aqui. Minha praia é essa”, relembra Vera. Quando era pequenina não imaginava que seguiria a profissão de bailarina.

“Era uma criança tímida e tinha medo de olhar nos olhos das pessoas, mas aos meus 14 anos eu mudei completamente minha personalidade. Acho que o Jazz me ajudou (risos). Fiquei muito determinada. Às vezes, quebramos a cara, mas é preciso aprender com os erros”.

A partir daí, Vera começou a estudar a modalidade com sua irmã, Claudia Borges, passando a ser sua assistente e, logo em seguida começou a ensinar a ‘”arte de mexer o esqueleto”. Vera passou a se envolver tanto com seu trabalho de professora que abandonou a faculdade de Pedagogia que cursava na época para poder viajar e se aperfeiçoar na dança. E foi justamente em uma dessas viagens que acabou conhecendo um dos seus incentivadores, Lennie Dale, que a apresentou a Marly Tavares, professora de dança no Rio de Janeiro.

Aos 19 anos, ela se casou e prestes a completar seus 20 anos de idade teve seu primeiro filho. Na época, ela dava oito aulas por dia para poder ter seu dinheiro e viver razoalvelmente bem.

“No início da minha carreira não queria ajuda da minha mãe. Queria me sustentar. Tenho muito orgulho de ser filha dela, mas naquela época eu queria ser reconhecida pelo meu trabalho”.

Todo o empenho no trabalho valeram a pena. São mais de 90 prêmios acumulados, sendo 60 deles com colocação em 1° lugar. Entre seus espetáculos de maiores destaques estão “Harry Potter” (2001), “Gatos” (2002), “Reino” (2008) e “Ogro” (2009) – estes três últimos inspirados nos musicais da Broadway “Cats”, “The Lion King” e “Shrek” respectivamente. Atualmente, é coreógrafa e professora de dança da academia que leva seu nome – a Academia Vera Passos – além de ser um dos principais nomes de destaque no Festival de Dança Joinville em Santa Catarina.

Confira a entrevista com Vera Passos que nos contou um pouco sobre o ‘Pano de Boca’, seu primeiro grupo de dança; a criação da Academia Vera Passos; histórias e bastidores dos espetáculos já apresentados; além de comentar sobre as dificuldades enfrentadas por grupos independentes de se manterem da dança.

Foto: Rychelme Braga.
Foto: Rychelme Braga.

Como iniciou sua careira na dança?
Nasci dentro de um academia de ballet clássico, mas não me identificava com o estilo apesar de achá-lo a base de tudo. Quando minha irmã, Claudia Borges, abriu a academia de dança moderna dela, comecei a estudar jazz com ela e me apaixonei. Me tornei sua assistente e logo em seguida assumi algumas turmas de baby class. Já em relação ao sapateado eu sou autodidata.

A partir de quando começou as viagens para estudar dança?
Eu ainda estava na academia da minha irmã quando comecei a viajar para o Rio de Janeiro. Lá, procurei Marly Tavares por intermédio do Lennie Dale. Passei a ir para o Rio todos os anos. Conheci Vilma Vernon, Tânia Nardini entre outros. Depois, comecei a ir para Nova Iorque e em 1990 abri minha própria academia.

Mas antes de fundar a academia você criou o grupo ‘Pano de Boca’, certo?
Isso. Criei o meu grupo profissional, já que a dança se tornou fundamental na minha vida. O primeiro espetáculo do ‘Pano de Boca’ foi em 1984 e pelo fato de serem meninas de 14 e 15 anos e eu com 24 anos, tentei trabalhar profissionalmente, mas o bom é que o grupo deu certo e permaneci com ele por mais 15 anos.

Foto: Arquivo pessoal.
Foto: Arquivo pessoal.

Logo veio a Academia Vera Passos. No início dava pra se manter com o lucro gerado com as aulas?
Quando comecei como professora era complicado porque dava muitas aulas, estava casada e já tinha meu filho. Não queria ajuda da minha mãe. Tinha que me sustentar sozinha.

Vivia bem, mas com a ‘grana apertada’.

Teve algumas dificuldade para montar a Academia Vera Passos?
Sim. Não tinha tantos recursos financeiros, mas tinha juntado uma quantia e a investi toda na academia. E apesar dos problemas financeiros, a maior dificuldade foi com minha irmã Cláudia porque ela ficou muito chateada comigo. Ela não admitia ter uma concorrente. Terminei meus trabalhos com ela e disse que queria seguir meu caminho. Ficamos um tempo afastadas. Não contei para ninguém que tinha saído da academia dela e quando abri minha academia metade das pessoas vieram comigo. Aí, ela ficou mais revoltada. Nunca quis ‘bater de frente com ela’, pelo contrário. Hoje em dia, somos super amigas – ela é minha madrinha – e a revolta dela foi grande porque ela me tinha como filha.

Quais as dificuldades que você percebe em relação ao cenário da dança no Ceará?
Primeiro, não temos a valorização que merecemos. O público não vai assistir aos espetáculos. Existe uma ignorância cultural em cima do Norte/Nordeste. Não é só aqui no Ceará. No Piauí e Maranhão é do mesmo jeito. Já fui ensinar lá e não há valorização. Uma grande parte das pessoas não procuram cultura. Quando os nacionalmente conhecidos estão na cidade, os eventos lotam, mas quando é o artista da terra… cadê? Meu trabalho, apesar de ser um espetáculo acadêmico – pelo fato de terem crianças e adolescentes -, tem sempre muita qualidade. Prezamos sempre pelo melhor e a cada dia estamos evoluindo. Todos nós estamos evoluindo, mas apoio não temos nenhum.

[…] não temos a valorização que merecemos. O público não vai assistir aos espetáculos. Existe uma ignorância cultural em cima do Norte/Nordeste.

Foto: Rychelme Braga.
Foto: Rychelme Braga.

Eu tento elevar tanto o meu nome quanto o nome do Ceará mundo afora e tenho conseguido. O respeito e o carinho das pessoas, principalmente em Joinville, é muito grande e gratificante.

Você leva o nome da academia de forma muito assídua ao Festival de Joinville. Como surgiu a ideia de participar de um evento de grande porte como é o de Joinville?
Todo ano minha mãe trazia alguém de fora para ajudá-la a montar os espetáculos dela. Em uma dessas visitas, veio Débora Bastos, uma profissional do ballet clássico do Rio de Janeiro. Ela viu o meu grupo ‘Pano de Boca’ e disse que eu tinha que ir para Joinville, pois lá acontecia um festival de dança maravilho. Eu não sabia da existência do festival até então, pois frequentava mais o Festival de Dança de Recife e Campina Grande. Ela me mandou os papéis de inscrição e assim eu fiz. Na época não era necessário mandar uma fita para participar do evento. Fiz milhões de espetáculos aqui para arrecadar dinheiro e levar o grupo ‘Pano de Boca’. Isso foi em 1989. Levei um jazz e um sapateado. Meu objetivo era mostrar o grupo e não ganhar. Dançamos 2 dias e assim que acabou nossa apresentação em Joinville fomos para o Festival de Dança em Campina Grande. Chegando lá, um professor que recebeu a placa por nós em Joinville nos disse que tínhamos ganho o 2° lugar no profissional de Joinville e que não teve o 1°, além disso tínhamos tirado a maior nota do Festival.

Confira a performance de “Sombras” do grupo avançado de sapateado da Academia Vera Passos. O número tirou 1° lugar na categoria ‘Avançado – Sapateado Conjunto’ no 27° Festival de Dança de Joinville (2009).

E a competição nível internacional no ‘I Love Dance’ nos Estados Unidos?
Essa foi outra ousadia minha. Tínhamos ganho o 1° lugar em Joinville e todos comentavam sobre a boa qualidade dos meus espetáculos. Uma professora de dança de São Paulo me enviou a papelada, entrei em contato com a representante lá em Nova Iorque e inscrevi uma galera da Academia Vera Passos. O ‘Pano de Boca’ foi também. Levei no total 60 pessoas. O festival aconteceu em Orlando durante 7 dias no ano de 1995. O ‘Pano de Boca’ tirou 1° lugar no contemporâneo e a Academia levou o 1° lugar tanto no sapateado sênior e júnior quanto no jazz sênior e júnior. Além disso, ganhei a maior nota no sapateado e a Lucinha (Lúcia Machado é uma das diretoras da Academia Vera Passos) recebeu a maior nota no jazz. Em 1996, o festival aconteceu em Nova Iorque e levei sete coreografias. Das sete,seis foram 1°’s lugares e uma 2° lugar. Já em 1998, a competição foi em Orlando. Levei duas coreografias e ambas tiraram 1° lugar. Foi aí que fomos convidados para dançar na Disney, no Magic Kingdom, mas não dançamos porque a apresentação era dois dias depois da passagem de retorno e não tínhamos como trocar as passagens de todos.

Como se sente com a responsabilidade de levar além de seu nome, o nome do Ceará para o Brasil e para o exterior?
É uma pressão. Eu tento elevar tanto o meu nome quanto o nome do Ceará mundo afora e tenho conseguido. O respeito e o carinho das pessoas, principalmente em Joinville, é muito grande e gratificante.

Existem histórias de ensaios em lugares inusitados, como em garagem e corredores. Como é isso?
Ah, meu filho! Nos festivais não podemos dormir no ponto. Lá, temos dificuldade de encontrar lugares para ensaiar porque somos um grupo grande. Aí, onde encontramos um ‘chãozinho’… acontece o ensaio. Já ocupamos garagem de hotel com chão de cimento. E até dentro dos quartos já ensaiamos, afastamos as camas e passamos a coreografia (risos).

Ensaio na garagem, Festival Joinville 2008. Foto: Marília Recamonde.
Ensaio na garagem, Festival Joinville 2008. Foto: Marília Recamonde.

Texto: Ícaro Paio

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