[Claquete] Batismo de Sangue: “É preferível morrer do que perder a vida”

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Frei Tito, representado por Caio Blat, preso e torturado.

Com um andar angustiado e resoluto, esmagando folhas e cascalhos por uma natureza fria de bosque inóspito, frei Tito caminha depressa às margens do rio Saône, na França, como quem tem algo a resolver com urgência. Era o ano de 1974, e o que o frei cearense iria fazer era acabar com a própria vida, pendurando-se de uma árvore.

Assim começa o filme Batismo de Sangue (2007), baseado em livro homônimo de frei Betto. “Entre o céu e a terra”, é como Betto descreve o suicídio do frade amigo que sucumbiu no exílio, após ter sofrido meses de encarceramento e torturas pela resistência à ditadura militar.

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A sequência do roteiro começa mostrando ações dos jovens frades dominicanos com o movimento estudantil, e os primeiros contatos com a Ação Libertadora Nacional (ALN)  – grupo clandestino de luta armada contra a ditadura. O filme, que é uma biografia de Frei Tito de Alencar Lima, acompanha a trajetória desses jovens religiosos até suas prisões, e os desdobramentos destas.

A montagem é coerente. Ao longo da narrativa, o telespectador é dominado por uma espécie de pressentimento funesto, uma vez que o longa se inicia no desfecho infeliz de frei Tito. Algumas cenas contém diálogos que soam encenados, como se atores de teatro com português correto e gestos largos tivessem sido filmados. Nem todos seguem essa linha – Caio Blat (Tito), Daniel Oliveira (Betto), Angelo Antônio (frei Oswaldo), por exemplo, tem atuações mais sutis, sem perder a intensidade. Os figurinos, cenários e a fotografia convergem, formando uma eficiente reconstituição de época.

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É um filme pesado, como dificilmente não seria qualquer outra produção que trate desse período negro da história brasileira. As longas cenas de tortura são de embrulhar o estômago e um tanto dilacerantes. Elas podem explicar como o frei preferiu morrer, pois já havia perdido a vida.

Um debate que não envelhece 

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Batismo de Sangue foi exibido na segunda sessão do Cineclube Unifor, deste mês de março. Nildes Alencar, irmã de frei Tito, esteve na exibição e na discussão que seguiu acerca do filme. Com os olhos marejados, ela falou que dessa vez, viu do começo ao fim cenas mais cruéis. “É muito importante que essa história seja contada de uma forma bem real”, disse ela. E destacou que a relevância do retorno ao tema é necessária para que a juventude esteja alerta.

 Nildes elogiou a autenticidade histórica do longa e a performance de Caio Blat. “O Caio passou dois dias na minha casa, conversando até às 2h da manhã. O Tito está muito bem representado”, disse. Já quanto à atriz que a representou a representação de si mesma, Nildes acredita que houve falta de pesquisa.

 Segundo ela, o sotaque da atriz que encarnou seu papel, Marcélia Cartaxo, está distante do cearense. Também criticou a cena em quem Nildes vê o irmão pela última vez. “Naquele encontro, eu busquei salvar o meu irmão. Encontrei um morto-vivo; silencioso, calado. Tive pouco tempo, apenas um mês. Emocionada, parti de trem, vendo meu irmão ficar, sabendo que era a última vez que o veria”. Nildes refere-se a sua viagem à França para encontrar Tito exilado, e sem esperanças.

Porque relembrar 

 Desde o fim dos piores e violentos anos da ditadura brasileira, os chamados “anos de chumbo”, houve muita produção cultural envolvendo o tema. No que se refere a filmes, conta-se Lamarca (1994), O que é isso companheiro (1997), Cabra-Cega (2004), O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), Zuzu Angel (2006), e a lista continua, dentre muitos outros. Há quem diga, como por exemplo na resenha crítica sobre o filme Batizado de Sangue, do site Omelete, que o assunto é batido, que explorá-lo tanto assim leva a banalização. Em contrapartida, teóricos, diretores, atores, enfim, produtores culturais, enaltecem a importância de voltar ao tema.

Contudo, dos vários países da América Latina, que estiveram sobre o crivo de ditaduras, o Brasil se destaca por uma particularidade: os agressores, torturadores, e políticos responsáveis pelas conhecidas crueldades infligidas aos “subversivos” e que ainda não responderam por seus crimes. Sem contar a grande quantidade de homenagens, por meio da memoração de datas e monumentos históricos, feitas aos agentes repressores – como é o caso do delegado Sergio Paranhos Fleury, personagem do filme e criador do Esquadrão da Morte, que recebeu a Medalha do Pacificador. Talvez sejam fatos como este, incentivo suficiente para a recorrência à temática.

 

Texto: Manoela Cavalcanti

 

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