“Sempre procurei aliar a procura pelo perfeccionismo com a emoção”

Foto: Erivandro Nunes
Foto: Erivandro Nunes

Na noite de ontem, a Universidade de Fortaleza recebeu, para a comemoração dos seus 40 anos, o maestro e pianista, João Carlos Martins. As comemorações do quadragésimo aniversário da Universidade tiveram início no último dia 21 de março, com a abertura da exposição “Trajetórias: Arte brasileira na coleção Fundação Edson Queiroz”.

O evento, que aconteceu na praça da biblioteca da Unifor e recebeu aproximadamente 2000 pessoas, iniciou-se com um vídeo comemorativo aos 40 anos da universidade, apresentando aos convidados o novo slogan “Líderes que transformam”. O projeto visa a proporcionar aos alunos, por meio de parcerias internacionais e professores de expressão, uma formação mais humana, como aponta a coordenadora do Centro de Ciência e Gestão (CCG), Maria Clara Bugarim. “A vinda do Maestro é muito oportuna porque ele nos traz uma imagem positiva, uma mensagem de superação, de liderança que transforma, e é nisso que nós acreditamos! Nós queremos disponibilizar profissionais preparados, mas profissionais que não estejam preocupados só no seu próprio êxito” .

Foto: Marina Duarte.
Foto: Marina Duarte

“O líder precisa estar preocupado com a sua comunidade e que queira contribuir positivamente com o mundo ao seu redor. A vinda do maestro é um coroamento desse projeto da Unifor, pois a vida dele é um exemplo que isso é possível, a prova que existem sim, pessoas que acreditam, que transformam e acreditam num mundo melhor!”, afirmou entusiasmada, a diretora.

Mas a noite era de João Carlos Martins e os convidados puderam conferir um pouco da vida do maestro com a exibição do mini documentário “E agora, João”, que fala sobre a carreira do músico, dos problemas de saúde que enfrentou e sua saga em busca da excelência, que vai muito além dos desafios.

Para tornar uma história longa, curta

Ao entrar no grande palco, João Carlos foi aplaudido de pé por alunos, professores, funcionários e convidados. “Eu não sou palestrante, apenas conto a minha história”, afirmou o músico no tom calmo de costume.

João Carlos começou sua narrativa contando que começou a carreira de regente aos 63 anos de idade, depois de ter um peculiar sonho com o importante regente brasileiro, Eleazar de Carvalho, cearense, de Iguatu. O maestro contou que depois de anos fazendo procedimentos médicos na mão direita, afetada pelo rompimento do nervo ulnar, e na esquerda, vítima de um tumor, perdeu os movimentos de ambas as mãos. “Depois de uma semana (do acontecido), tenho um sonho com Eleazar de Carvalho, ele disse ‘João, vá estudar regência’, ele já havia morrido há 5 anos, no dia seguinte, às 7 horas da manhã tomei a primeira aula de regência. Para fazer uma história longa, curta, nestes oito anos, (fiz) mais de mil concertos, não só nos grandes teatros do Brasil e nos principais teatros do mundo, mas também nas comunidades carentes.”

Foto: Erivandro Nunes.
Foto: Erivandro Nunes

Mas uma palestra do maestro não seria completa sem música, e, por isso, entre os depoimentos emocionantes e divertidos, João Carlos, regia e tocava ao piano clássicos de Johann Sebastian Bach, sua grande inspiração desde criança.

A carreira de João Carlos Martins, no entanto, começou muito anos antes dele se tornar regente, em 1948, aos oito anos de idade, quando iniciou seus estudos de piano. Seis meses depois ganhou um concurso de piano tocando obras de Bach. Ao 13 iniciou sua carreira nacional e aos 18 já tocava fora do país.

“Sempre procurei aliar a procura pelo perfeccionismo com a emoção”, afirmou. Mas se não o falasse, o público notaria durante suas apresentações. A emoção nos olhos do artista extravasou para a plateia e era possível ver lágrimas em muitos olhares. Um dos pontos altos do espetáculo foi a canção “Eu sei que vou te amar”, cantada pelo coral da Unifor, juntamente com a camerata e o Maestro ao piano.

Foto: Erivandro Nunes
Foto: Erivandro Nunes

A emoção não foi a única emoção da noite e o maestro mostrou muita alegria e irreverência ao contar quatro causos que vivera. Em um deles até brincou com os problemas que teve na mão direita, contando que procurou ajuda divina e um pai de santo. “Quando perdi a mão direita, passei a fazer as apresentações usando a mão esquerda e segui com a carreira internacional. E sempre que passava por um país de ponta, procurava médicos na tentativa de reverter a mão direita. Infelizmente, todos falavam que era impossível. Passei, então, a frequentar a igreja, pois acredito em uma força superior e numa força interior, mas o milagre não aconteceu. Na última tentativa, procurei um pai de santo. Cheguei lá e ele perguntou: meu filho, qual é a mão? Eu falei: é a mão direita, ele disse que era mais fácil, eu disse que “bom, meu Deus!”. Aí ele começou a passar óleo na cabeça, óleo no braço, óleo na mão e disse: “Pai João nunca errou, em um ano, Pai João promete, sua mão direita tá igualzinha a outra”. Em um ano a mão esquerda fechou.

Contudo, nenhuma adversidade era maior do que o desejo por excelência do músico e se na época de pianista, o seu rigor e disciplina eram invejáveis, esse comportamento só aumentou quando regente. “Continuei procurando a excelência musical aliada a responsabilidade social”. O maestro desenvolve atualmente uma um trabalho social ao lado da Fundação Bachiana de musicalização, juntamente com a Fundação CASA. “Esses jovens da FEBEM deixaram na portaria da minha casa uma carta dizendo: “Tio maestro, feliz natal, a música venceu o crime”.

Sim, maestro, a música venceu! E venceu mais uma vez ontem à noite na Unifor, inspirando, emocionando e transformando a todos.

Texto: Juliana Teófilo

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