SoundCloud bifurca novos palcos

Foto: Alana Oliveira
Foto: Alana Oliveira

O SoundCloud – plataforma gratuita de compartilhamento de áudios – vem proporcionando a recriação de veredas na esfera musical. Em suas múltiplas possibilidades e estrutura simples, esse aplicativo funciona como uma rede crescente de teias divergentes, convergentes e paralelas; assemelhando-se ao labirinto do conto O jardim dos caminhos que se bifurcam, do escritor argentino Jorge Luis Borges. Cada conta particular é o ponto de partida de outras bifurcações, diferindo de outras plataformas, entretanto, por dispensar a exposição efetiva do usuário inscrito. Dentro desse contexto, a música intimista, menos abrangente e de poucos artifícios técnicos, ganha espaço e admiradores.

Edmar Neto, maranhense e estudante de Direito, ouvia uma canção compartilhada por um amigo no SoundCloud quando, ao verificar a quantidade de pessoas que haviam favoritado o som, encontrou o perfil de Andreza Reis, cearense e estudante de Jornalismo. “Ouvi um cover de Mutantes e uma autoral dela que realmente gostei. Vi, depois, que ela tinha um blog. Fiquei lendo suas poesias e uma delas foi “Seja”, que musicalizei, na mesma hora, com um violão. Entrei em contato com ela via Facebook, musicamos nossas poesias, e, por fim, surgiu o projeto virtual ‘Bonanza’ ”, rememorou.

Andreza, no entanto, já dispunha do “Café Noir”, que surgiu em conjunto com a vontade de aprender a tocar violão e o estímulo do amigo Raimar Safardano (idealizador do “Safardanos”), também usuário do aplicativo. Suas canções, que eram timidamente cantadas apenas para amigos, num ambiente caseiro, foram explanadas nas circunstâncias que ela mesma descreve: “Escolher o SoundCloud foi interessante porque ele agrega tudo o que um músico precisa para a divulgação: o recurso estético (capa do álbum), a disponibilidade da música para download e a possibilidade de ter um retorno rápido das pessoas – que participam, pedem músicas, dão dicas”.

Enquanto isso, Dean Rooks, norte-americano, recebeu um comentário de um dos seguidores do seu perfil sugerindo reparos sonoros. O seguidor era Marcelo Teles, músico cearense, notório pelas parcerias inusitadas (entre as mais recentes, “Drama & Terror” com Jonnata Doll, também cearense, que ele nunca viu). Após esse pequeno gesto, hoje, Rooks e Marcelo constituem uma parceria que já conta com oito sociedades virtuais. Rooks compõe, envia uma versão preliminar para Marcelo, que grava e reenvia ao sócio. “O cenário musical atual é maior, mais ativo e mais diverso do que eu pensava – principalmente em termos de estilos e propostas musicais. Pelo SoundCloud, percebi que existem muitos artistas, músicos e bandas de alto nível que estão fora do mercado musical”, apontou Marcelo – que também é amigo de Pablo.

Pablo Naranja, cearense e biólogo, atribui a si um forte e proposital amadorismo: “Não me disponho a um comprometimento maior com nada; como diria Belchior ‘Eu escolhi a vida como minha namorada’. Essa espécie de relacionamento aberto é o que de mais sincero eu penso que poderia ter com a arte”, afirmou. Pablo diverte-se, no palco do SoundCloud, com a recepção positiva das gravações cruas, “cheias de golpes de sorte e movimentos arriscados” do Congo Belga, seu projeto entre amigos. A meio de seus encontros descomprometidos e férteis, plataforma adentro, há o cover duplo “Sujeito de Sorte / Fim do dia” com a conterrânea Claudia Cabral – idealizadora do projeto “Camomila”, um subterfúgio aos shows que fazia com a banda “Coisa Fina”. “Vejo no SoundCloud uma forma de me expressar com sinceridade, sem cortes, ajustes e medos. Algo que nunca encontrei em palcos”, levantou. Para Claudia, o mais gratificante são os elos, as amizades firmes que vem construindo com o projeto.

Tatiana Alencar, estudante de jornalismo e fã confessa de Claudia, idealiza atualmente um projeto com a própria, chamado “Macabéa”. Sua única pretensão como produtora de conteúdo na ferramenta em questão, relatou, é transportar o ouvinte a um ambiente familiar e nostálgico. Enquanto usuária, porém, Tatiana reúne dezenas de caminhos desbravados, proliferados e bifurcados; dentre esses, segue o de Andreza, amiga de Edmar – ponto de partida da teia descrita.

Transformações

Em uma perspectiva mais abrangente, o professor, músico e usuário do Soundcloud Daniel Parente, analisa o cenário artístico vigente, considerando a relevância desse novo canal, de forma diversa, porém confluente. “Os anônimos tem o seu público específico, onde o anonimato torna-se uma espécie estranha de fama, que me lembra os escritores que usavam pseudônimos para escrever em um estilo diferente ou falar sobre temas polêmicos. Por outro lado, considero esse anonimato proposital como algo positivo somente no caso de quem faz música como hobby. Se o objetivo do músico é se profissionalizar, essa postura pode prejudicar o desenvolvimento de uma carreira. Se o artista posta suas músicas no SoundCloud, mas nunca faz shows, como ele vai se sustentar?”, relativizou.

Ele reflete, ainda, sobre as possibilidades de transformações sociais nesse contexto: “Saímos de um mercado de massa e estamos numa era de mercado de nicho. Deixamos de ser apenas consumidores aguardando o que as grandes empresas produzem. Hoje todos podem ser produtores e consumidores. Eu, inclusive, também estou me adaptando. Vou lançar meu primeiro CD instrumental e selecionarei duas faixas, excluídas do disco, para publicar no SoundCloud”, acrescentou.

Texto: Alana Oliveira

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