[Claquete] Trilha sonora do cotidiano

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Primeiro longa de ficção do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho (diretor dos premiados curtas Vinil Verde, Eletrodoméstica e Recife Frio), O Som ao Redor é um drama urbano com laivos de thriller.

Dividida em três partes, a narrativa é aberta por uma sequência de fotos em preto-e-branco de agudo realismo e melancolia, evidenciando o aparente contraste e a profunda permanência do modo de vida rural patriarcalista no cotidiano urbano atual de Recife.

Com uma mise-en-scène bastante cuidadosa, o filme apresenta clara predominância de cores neutras, tendendo ao branco, e uma profusão de corredores e espaços desocupados, remetendo ao vazio e à prosaicidade do cotidiano. Essa pode ser considerada a temática central do filme, e é notável o eco que ela encontra nas obras anteriores do diretor, em especial o curta Eletrodoméstica (2005).

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Apontada pela crítica como um autêntico estudo de classe – no caso, a classe média urbana -, a obra é dotada de um humor irônico e mordaz em relação a essa classe, vista como excessivamente autocentrada, mergulhada no tédio e na falta de sentido de sua própria rotina diária. Nesse sentido, a recorrência de planos intermediados por grades transmite de forma sensível a situação de sufocamento e insegurança crônica autoinfligida por esse extrato da sociedade.

O filme apresenta um tom melancólico quase onipresente ao tratar do tema da demolição, literal e metafórica, da memória coletiva da cidade de Recife, expondo sutilmente os mecanismos de causa e conseqüência dessa dinâmica observável na grande maioria dos espaços urbanos na contemporaneidade.

A fotografia, a cargo de Pedro Sotero (Boa Sorte, Meu Amor), exprime com maestria a solidão e o desamparo do indivíduo nas metrópoles modernas, com seus planos simétricos recorrentes, mostrando personagens contrapostos à cidade, à paisagem urbana e voraz de Recife.

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Os planos conjuntos citados e os freqüentes enquadramentos em plongée a partir de sacadas de edifícios, em diversos momentos captando mensagens de amor e desilusão deixadas no asfalto, remetem a um paralelo temático com o premiado longa Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual (2011), do cineasta argentino Gustavo Taretto. A angústia e a falta de sentido do cotidiano de uma grande cidade, temática comum aos dois filmes, parece cada vez mais recorrente no cinema contemporâneo, evidenciando a atuação da Arte como cartografia cultural.

A maior qualidade do longa é, contudo, justamente a trilha sonora – conduzindo cenas e moldando a percepção do espectador, por meio do direcionamento da atenção e do controle das expectativas, o som promove uma verdadeira ressignificação das cenas. A atenção especial dedicada à trilha instrumental e aos efeitos sonoros é capaz de conferir tal nível de tensão às cenas que momentos corriqueiros ou prosaicos do cotidiano parecem ter o poder de ameaçar a existência, carregando em si toda a tragicidade negada da vida.

Texto: Lia Martins

Ficha técnica

Título Original: O Som ao Redor
Ano: 2012
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Gênero: drama
Duração: 131 minutos
Origem: Brasil

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