[Claquete] Para além do íntimo óbvio

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Azul é a Cor Mais Quente (La vie d’Adèle), do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche, estreou nos cinemas brasileiros este mês. O filme, baseado no romance gráfico Le Bleu Est Une Couleur Chaude (2010), da quadrinista francesa Julie Maroh, narra o encontro e o romance entre Adèle, vivida pela atriz Adèle Exarchopoulos, e Emma, interpretada por Léa Seydoux. O enredo ultrapassa o lado piegas de uma história de amor, ao dar lugar às expressões, às dúvidas e aos sentimentos desconhecidos, descritos com tanta naturalidade pela personagem Adèle.

A história mostra, inicialmente, Adèle indo ao colégio, em jantares familiares, entre amigos que parecem não compreendê-la, não lê-la por inteiro. É uma adolescente com direito a todas às fugas, às irresponsabilidades, às paixões encarceradas. O longa constrói o despertar da personagem a partir do momento em que Emma conhece Adèle em um bar GLS. Emma é uma estudante de Belas Artes mais velha, madura e certa sobre o que pensa de si e do mundo. Descobre sua opção sexual aos 14 anos, e não pressiona Adèle a se descobrir em nenhum momento. A fluidez com o qual a trama entre as duas personagens decorre é o grande diferencial do longa.

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O diretor explora o cotidiano, o olhar claro sobre os “flashes” de acontecimentos vividos por Adèle, todos em cenas com objetos e referências em cor azulada. O abuso de closes nos rostos, nos corpos e na pele das atrizes busca mostrar o natural, a pureza do sentimento e da expressão. Adèle e Emma são personagens que exploram ao máximo o trivial do ser humano, a realidade do corpo e da mente como elas realmente aparecem, fazendo com que a pele ecoe no olhar do espectador.

Apesar das intensas cenas de sexo entre as duas protagonistas terem levantados diversas críticas ao diretor, com acusações de abuso das duas atrizes, ou de uma abordagem machista, Kechiche afirma que buscou seguir o desenrolar destas cenas com a mesma naturalidade com a qual Adèle comia, respirava, chorava, entrava em casa, estudava. “Estão dizendo que há um olhar correto [sobre o sexo entre duas mulheres]? Não concordo. Isso é trancar o amor numa camisa de força.”, declarou.

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Quando o filme termina, não se sabe ao certo quem é Adèle, e nem se pode afirmar que ela mesma sabe. O fim passeia pela incerteza, deixa livre a imaginação e a observação de quem o assiste. A paixão e a obsessão por Emma são vividas intensamente, mas são apenas mais um capítulo na descoberta do íntimo de Adèle.

Azul é a Cor Mais Quente levou o prêmio Palma de Ouro, categoria máxima no Festival de Cannes deste ano, o prêmio Louis-Delluc, que premia o melhor filme francês do ano, escolhido por uma equipe de críticos do cinema, uma indicação de Melhor Filme Estrangeiro pelo Globo de Ouro de 2014, além de ser eleito como melhor filme estrangeiro pelo site New York Film Critics Circle e pela Los Angeles Film Critics Association Awards.

Texto: Beatriz Santos

Ficha Técnica

Título Original: La Vie D’Adèle

Ano: 2013

Direção: Abdellatif Kechiche

Roteiro: Abdellatif Kechiche

Gênero: Drama

Duração: 187 min

Origem: França

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