[Foca Nessa] A poesia e a comicidade carioca de Gregório Duvivier

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Transformar o que é trivial em poesia não é algo raro. Mas Gregório Duvivier, ator, poeta, colunista e roteirista, consegue extrair uma nova visão do cotidiano carioca e do amor irônico, ingênuo e adolescente. Tudo isso em seu novo livro Ligue os pontos – Poemas de amor e big bang, o segundo de sua trajetória como escritor.

A memória coletiva da cidade do Rio, o amor adolescente e a nostalgia irônica fazem da poética de Duvivier ter uma elaboração simples, adotando uma aparência de poesia moderna com poemas sem sinais de pontuação. No livro, o banal e o ordinário, aos olhos de Duvivier, tornam-se extraordinários, principalmente, pela linguagem coloquial.

você é a última dos moicanos no pacote
de jujubas a cereja do bolo no topo
do milk-shake de creme de la crème
brûlée aquela música do cole porter
o topo do top de todos os pokémons
você é aquele que me diz calma tá tudo
bem agora você é o meu beatle preferido
tem dias em que é o george e dias em que
é o paul e dias em que é o chico buarque
e dias em que é aquele feriado que cai
no meio da semana e a gente enforca
pros dois lados imagine um réveillon fora
de época é você uma terça-feira de carnaval
em plena sexta-feira da paixão e minha
paixão é um sábado que não termina nunca.

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Gregório Duvivier. Foto: Camilla Maia/O Globo

Fugindo um pouco da poesia prosaísta, Duvivier não se preocupa em ser hermético, em fazer analogias super rebuscadas. O seu diferencial é a comicidade, a chamada “poesia-entretenimento”: surpresas no meio dos versos, alinhadas a falta de pontuação dos poemas, que corta a respiração do leitor.

o bairro de botafogo
se fosse um senhor
usaria óculos fundo
de garrafa e daria
bom-dia aos pássaros
cantores que já não
moram na varanda

Antônio Prata foi preciso em sua definição sobre o novo livro de Duvivier: “Em algum momento da vida as pessoas escolhem se vão ser sérias ou engraçadas. Para a nossa sorte, o Gregório faltou essa aula, sendo capaz, nestes belos e surpreendentes poemas, de extrair melancolia de um Guaraplus e de graça do Big Bang”.

Logo no prólogo, o passo a passo de uma declaração de amor moderna:

Ao se deparar com a coisa mais bonita do mundo:

1. Certifique-se de que ela existe.
2. Observe-a minunciosamente. Pode ser que ela evapore.
3. Ouça a coisa mais bonita do mundo.
4. Deite a coisa mais bonita do mundo sobre a superfície mais confortável do mundo.
5. Ame-a imensamente.

Gregório Duvivier é conhecido pelo grande público como um dos criadores e atores do Porta dos fundos, programa humorístico feito para a internet, com esquetes de humor ácido, urbano e realista. O carioca de 27 anos também é colunista da Folha de S. Paulo, roteirista de seriados da Rede Globo, como o Louco Por Elas, atua no teatro com o Z.É, cenas improvisadas e no monólogo Uma noite na Lua, dirigido pelo seu sogro João Falcão.

Texto: Tatiana Alencar

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