Mais do que apenas um morto-vivo

Foto: site oficial INtocados
Foto: Iago Domingos/ S1 Produções

Aconteceu no dia 22 de fevereiro, na livraria Nobel do Pátio Reserva Open Mall, a palestra Walking Dead, uma análise psicológica do zumbi. Produzido pelo portal de Literatura Fantástica, INtocados, o encontro contou com a fala do historiador e mestre em psicologia, Heráclito Aragão e do psicólogo, mestre em psicologia e analista junguiano, Filipe Jesuíno.

“O INtocados normalmente promove palestras, seminários e encontros com a ideia de sair de encontros virtuais para compartilhar experiências pessoalmente. E a proposta do evento era justamente trazer essa discussão para o grande público que muitas vezes não tem onde se reunir e discutir”, destacou um dos produtores do site, Soares Júnior.

Tendo como mote principal a presença cada vez maior dos zumbis em produtos da cultura pop (filmes, séries, músicas, jogos), Filipe Jesuíno iniciou sua fala com uma discussão sobre a apropriação da literatura europeia e americana do mito original do Zumbi, proveniente do Haiti. “A figura do zumbi não é oriunda da literatura europeia ou da literatura americana. Foi a partir do século XIX, com o movimento de libertação dos escravos e independência do Haiti, que essas literaturas se apropriaram da imagem do zumbi, bem antes do cinema, por exemplo”, esclareceu Filipe.

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Foto: Iago Domingos/ S1 Produções

Enquanto que o zumbi original, típico do Haiti, era representado pela figura do negro, escravo, que tinha suas funções psíquicas, sua personalidade e vontades, extraídas por um feiticeiro visando torná-lo um escravo perfeito, ou seja, um escravo que não se rebela. A apropriação europeia era, segundo o psicólogo, uma representação pútrida de uma cultura vítima de um genocídio e de tamanha violência.

Sendo assim, mesmo que inconscientemente, graças a tendência denominada “going black”, destacada pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço, Carl Gustav Jung, o colonizador europeu, mesmo sem querer, absorveu parte daquela cultura tida como “primitiva” e transferiu para o imaginário coletivo seu próprio povo, tido como “avançado”.

Esta é, segundo Filipe, uma tentativa de apropriação cientifica do mito do zumbi. Dentre os tantos exemplos desta “presunção científica” na literatura mundial, Filipe deu destaque ao conto O Caso do Sr. Valdemar, do escritor americano Edgar Allan Poe. Na narrativa, tenta-se uma zumbificação por meio da hipnose.

Essa construção feita pelo palestrante levou à discussão sobre a nova forma de se retratar o aparecimento do zumbi. Se antes os filmes e a literatura imprimiam uma aura de mistério à figura do zumbi graças a sua criação por meio de magia, hoje, acontece uma substituição do fantástico pelo material. Se antes era um feiticeiro que dava vida novamente ao que já morreu; hoje são vírus, acidentes nucleares ou outras tragédias materialmente explicáveis.

“Parte da figura do feiticeiro no mito moderno do zumbi está integrada ao zumbi, enquanto a outra parte simplesmente se perdeu. Em filmes como, por exemplo, Resident Evil, ou o jogo “The Last of Us”, os zumbis surgem graças a um vírus; em outras expressões, como a séries de Tv The Walking Dead, não existe sequer motivo para o aparecimento dos mortos vivos”, explicaram os palestrantes.

Heráclito Aragão destacou que esse apreço da sociedade atual pelo material pode ser designada como “metafísica da matéria”. O termo, proposto por Carl Jung, destaca a preferência de cunho emocional, irracional, pelo o mundo físico e pela matéria. “A metafísica da matéria surge para substituir a metafísica do espírito, que permeou todo o medievo, na qual havia uma busca pelo conhecimento divino, pelo conhecimento da alma por meio do pensamento metafísico. Isso foi colocado abaixo e passou-se a crer em um novo Deus, e esse Deus é a matéria”, esclareceu o historiador.

O material está presente, ainda, na crítica feita por essas expressões culturais à sociedade de consumo. Surge, então, a imagem de hordas de zumbis ultra-modernos: uma representação de uma sociedade com uma fome voraz que consome sem freio. Outra interpretação, destacada por Filipe Jesuíno, é a imagem de focos humanos tentando sobreviver cercados por zumbis, que, segundo ele, representa a angustia social vivida atualmente.

Heráclito concordou com o colega, aprofundando ainda mais a discussão quando afirmou que a imagem de um apocalipse zumbi é resultado de um profundo vazio existencial, qualquer mudança é melhor do que a realidade vivenciada por algumas pessoas. “Não é simplesmente o fato da existência de zumbis, mas existe um aspecto, que é um dos aspectos mais festejados entre alguns, que é o fato que a sociedade acaba. E isso é tão forte que se você se der ao trabalho de procurar no Youtube, vocês vão encontrar tutoriais de como sobreviver a um apocalipse zumbi. Desde coisas como: como se abre uma lata de atum sem um abridor de latas, até armas improvisadas para matar zumbis. Há, inclusive, na Inglaterra, um curso de alguns dias sobre como sobreviver a um apocalipse zumbi”, apontou o pesquisador.

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Foto: Iago Domingos/ S1 Produções

Esse vazio, designado por T.S. Eliot como “terra devastada” implica também uma estase, uma impossibilidade da inconsciência, por ela mesma, escapar disso. “O Jung falava que o mito é a alma falando dela mesma, um espelho da alma. O que você tem desse mito moderno do zumbi é a nossa alma em espelho. O horror do zumbi que nós contemplamos diz respeito ao horror que vive em nosso próprio coração”, destacou Heráclito.

E, em última instancia, a ânsia da vivência pós-apocalíptica é, segundo Heráclito, a natureza que está em nós prestes a se rebelar contra nós mesmos e estamos prestes a pagar o preço por nossa atitude de completo descaso em relação a nossa própria natureza. “Segundo a psicoterapeuta analítica, pesquisadora e escritora alemã, Marie-Louise von Franz, nas imagens apocalípticas, existe algo de inconsciente que está agitado por estar sendo renegado. Em algum momento ele vai se rebelar e se colocar completamente em oposição a consciência e isso significa pura e simplesmente loucura ou uma profunda neurose”, ilustrou o historiador.

“Eu acredito que é muito importante nós refletirmos sobre algo que tem um baque tão grande sob tantas pessoas, que mobiliza tanta gente. Isso certamente é algo que vai em nossa alma e nós aumentamos os nossos conhecimentos acerca do homem quando a gente consegue saber um pouco mais a cerca desses fenômenos da cultura”, finalizou Heráclito.

Texto: Juliana Teófilo

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