“Desde quando nós decidimos sair do canto, nós não conseguimos sair do canto”

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Esteve em cartaz durante o mês de março, no Teatro Celina Queiroz, a peça Lesados, do Grupo Bagaceira de Teatro, lançada em 2004. Sob a direção de Yuri Yamamoto e texto de Rafael Martins, a peça não só divertiu, como propôs uma reflexão acerca da nossa sociedade. “Lesados” causa uma certa inquietação em quem assiste. Com uma linguagem peculiar marcada por regionalismos, nos foi apresentado o conflito de quatro indivíduos que, passando por diversas situações, embora permaneçam no mesmo lugar, estão com uma dúvida aparentemente cruel: “vamos ou não?”.

O espetáculo mostra cada personagem em seu “ambiente” – representado por uma estrutura semelhante à de uma escada – produzindo ações do cotidiano de cada um, em movimentos marcados e repetitivos, que representam a acelerada vida urbana contemporânea. Os diálogos apresentam um discurso essencialmente existencialista, com questões sobre o sentido da vida e a existência de Deus.

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Os diálogos – elemento substancial da obra – são caracterizados por repetições exageradas, gritos e ruídos, evidenciando a agonia retratada pelos quatro “lesados”. A personalização do elenco – maquiagem e acessórios – é um detalhe relevante, pois tende a desumanizá-lo. Notamos também uma preocupação com a composição dos elementos presentes no palco e dos movimentos bem definidos das personagens, resultando num arranjo que faz referência à própria crítica da peça: a essência delimitada e banal da nossa sociedade.

Os indivíduos, em certo momento do enredo, prendem-se a uma mesma corda pelos pés, simbolizando que os quatro personagens estão juntos na mesma situação de angústia perante seus questionamentos. Nesse momento, a peça adquire um teor claustrofóbico, o que se elucida quando a personagem feminina exclama que “desde quando nós decidimos sair do canto, nós não conseguimos sair do canto”.

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O título do espetáculo traz uma palavra que detém de vários significados. “Lesado”, no contexto apresentado, pode expressar um sujeito acomodado ou enganado. As duas interpretações encaixam-se na crítica abordada na obra, trazendo características do teatro do absurdo e das produções dadaístas.

De uma forma descontraída, nos sentimos representados pelas personagens. A aluna de engenharia mecatrônica do IFCE, Bárbara, afirma que é a partir da identificação que surge o humor da obra. “Achei a peça interessante, muito introspectiva. Ela nos toca de uma forma muito singular, pois é nos detalhes que a gente se encontra. Você pensa e vê que, em determinado momento da sua vida, você realmente é um pouco lesado, deixa as situações tomarem conta de você e não sabe como sair delas”, conclui.

Texto: Milena Santiago e Cidney Sousa

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