[Foca Nessa] “Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer”

Os_espioes

A história do livro “Os Espiões”, de Luis Fernando Veríssimo, baseia-se na vida boêmia de um ex-escritor, funcionário de uma pequena editora de Porto Alegre. Sua função é aprovar ou não os livros que chegam diariamente na editora, vindos de diversos lugares do Estado; cabe a ele decidir se o livro é bom o bastante para a editora publicá-lo.

Descontente com a sua carreira de escritor falida, a rotina do narrador-personagem consiste em descontar toda a sua frustração pessoal enviando cartas de rejeição aos escritores. “Recomendo ao autor que não apenas nunca mais nos mande originais como nunca mais escreva uma linha, uma palavra, um recibo. Se ‘Guerra e Paz’ caísse na minha mesa numa segunda-feira, eu mandaria seu autor plantar cebolas. Cervantes? Desista, hombre. Flaubert? Proust? Não me façam rir.” Essas cartas eram produzidas com mais frequência nas segundas-feiras, após um fim de semana inteiro de doses incontáveis de bebidas no bar do Espanhol, quando ele estava de ressaca e se dizia mais inspirado a escrevê-las.

O nome “Ariadne” escrito com letra trêmula, com uma florzinha em cima do “i”, adornando um envelope branco é o suficiente para atrair a atenção daquele editor rude e infeliz. Aquele era o primeiro capítulo de um livro, o qual a escritora prometia contar sua história com um amante secreto e depois se suicidar. A ausência de vírgulas e alguns erros ortográficos não diminuíram a qualidade literária da obra, que envolveu o editor e seus amigos do bar, que se interessaram pelo enredo desde o começo.

No primeiro envelope Ariadne expõe sua difícil relação com o marido, quase de subserviência e o seu profundo desejo de vingança pelo que o marido fez com seu pai e seu Amante Secreto. Lendo apenas esse trecho da história, o editor se adiantou e mandou uma resposta a Ariadne, falando do seu profundo interesse pelo livro e pedindo que lhe mandasse logo a continuação.

Ficamos o resto do tempo especulando sobre o manuscrito de Ariadne e o drama real ou imaginado que ela nos revelaria. Só à meia-noite me dei conta que tinha bebido uma única dose de cachaça. A Inaugural, como eu chamo. Ariadne ocupara meu cérebro de tal maneira que eu esquecera de beber, não passara da Inaugural”.

O narrador e seus companheiros de vida boêmia têm a curiosidade aumentada a cada envelope, ao mesmo tempo em que a aflição cresce ao saber que a obra estava perto de ser finalizada e o suicídio da escritora estava próximo. Quem seria o amante secreto? Qual o motivo dessa relação de senhor e vassalo entre Ariadne e seu marido? E, principalmente, o que o marido teria feito de tão grave com seu pai e seu amante, a ponto de levá-la a cogitar suicídio?

Na mitologia grega, Ariadne ajuda Teseu a sair de um labirinto. Na obra de Veríssimo, o autor faz o contrário; Ariadne incentiva o editor e seus amigos a resgatarem, por meio dos envelopes que manda semanalmente, a ponto de eles decidirem ir à Frondosa salvar a vida da jovem potencialmente suicida.

Utilizando-se de referências literárias embasadas, Veríssimo mistura, do começo ao fim, mistério, humor e drama em um livro que é encerrado com um desfecho surpreendente, decepcionante para alguns leitores e genial para outros, provando que o enigma que se segue torna ainda mais instigante o enredo.

Texto: Andrezza Albuquerque 

 

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