Trotes universitários: ritual de passagem ou de ódio?

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Os trotes universitários realizados na contemporaneidade incorporaram em sua essência algumas características de ritos de passagem arcaicos. Rituais paganistas implicavam mudanças no status de membros das comunidades. Os nativos norte-americanos, por exemplo, celebravam a passagem para a vida adulta em um evento no qual a pele do peito dos jovens guerreiros era trespassada por espetos e repuxada por cordas.

Considerada uma tradição no calendário acadêmico, veteranos submetem os calouros a rituais de boas-vindas. Estudantes são cobertos de tintas, pedem dinheiro em semáforos, são postos “à venda” em leilões e, muitas vezes, induzidos ao consumo excessivo de bebida alcoólica. Em meio a rostos orgulhosos pelo ingresso numa instituição de ensino superior, existe uma parcela de casos nos quais a brincadeira toma proporções desastrosas. É onde identificamos a linha tênue entre diversão e humilhação. Calouros amarrados em postes, reproduzindo obscenidades com alimentos e objetos e em coma alcoólico passam impressões diferentes do que deveria ser o ingresso nas faculdades.

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Historicamente, as origens do trote remetem à Idade Média. Nas primeiras universidades europeias, os alunos mais experientes costumavam pôr os novatos em situações absurdas a fim de testá-los e tirá-los do estado de inocência e ignorância com o qual, supostamente, chegavam na vida acadêmica. As práticas variavam entre queimar roupas, raspar cabelos, além de atirar fezes e urina nos novos alunos. Os veteranos acreditavam que tais rituais eram necessários porque os novos estudantes deveriam sofrer um processo de “purificação”. Não é à toa que os calouros em universidades foram, ao longo do tempo, apelidados de “bichos”, uma vez que – simbolicamente – estas pessoas se encontram em estado de “selvageria” antes de adentrar no universo acadêmico. 

No Brasil

O trote foi trazido ao Brasil por colonizadores portugueses e era praticado com frequência nas escolas militares. O primeiro registro de morte ocorrida dentro deste evento data de 1831. O aluno Francisco da Cunha e Meneses foi morto a facadas na Faculdade de Direito do Recife. O caso mais conhecido – e nunca solucionado – aconteceu em 1999 quando o corpo do aluno Edison Tsung Chi Hsuesh foi encontrado no fundo da piscina atlética da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) um dia depois de um trote ter ocorrido ali.  Em 1962, alunos do curso de Medicina da PUC – SP forçaram um aluno a mergulhar em um barril cheio de água misturada com cal. O estudante teve boa parte do seu corpo queimado, resultando em sua morte.

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Cancelamentos de matrículas e danos psicológicos pós-trote já não são mais os maiores danos causados aos estudantes. Em virtude disso, boa parte das universidades brasileiras tentam realizar o “trote solidário”, no qual os calouros arrecadam dinheiro, alimentos, água e roupas para instituições carentes. Essa é apenas uma das tentativas de descontruir a bárbarie instituída na ideologia do trote universitário Há uma lei em vigor que proíbe trotes violentos em boa parte das universidades localizadas no Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país. Contudo, tais medidas não parecem suficientes para chamar atenção das universidades e das autoridades públicas na luta contra esta destrutiva tradição.

Confira a reportagem da RádioNIC sobre o assunto:

Texto: David Nogueira e Matheus Facundo

 

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