[Claquete] “A Negação do Brasil”: (in)visibilidades na TV

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Nos primeiros minutos do documentário “A Negação do Brasil – O Negro nas Telenovelas Brasileiras” dirigido por Joel Zito Araújo, a aparição da primeira atriz negra a protagonizar uma novela (O Direito de Nascer), Isaura Bruno, sobressai-se. Seu papel na novela era “Mamãe Dolores”, personagem que arrebatou mais de 1 milhão e meio de telespectadores da época. A atriz encenou a última cena da novela em diversas cidades do país, dado o tremendo sucesso da obra. Em um breve futuro, Isaura Bruno cairia no esquecimento e morreria anos depois, vítima de um ataque cardíaco, vendendo doces na praça da Sé, em São Paulo.

Esta é uma das muitas histórias contadas no filme de Zito Araújo. Em comum, as dificuldades, a luta da humanidade, neste caso específico dos atores contra o preconceito e a invisibilidade. Talvez essa linha de pensamento nunca deixará de existir, pois esta é uma ideia presente nas raízes do pensamento humano, demonstrada no documentário.

Zito Araújo revisita a trajetória de diversos atores e atrizes brasileiras. Entre elas, a atriz Zezé Motta, que atuou na novela “Beto Rockfeller”, interpretando a empregada “Zezé“, personagem que recomeçou a grandeza dos papéis interpretados por atores negros. Após esta novela, “A Cabana do Pai Tomás” vai ao ar no ano 1969. Com um elenco que contava com diversos atores negros, como a protagonista Ruth de Souza, que possuía grande experiência nas artes cênicas, passando pelo Teatro Experimental do Negro e pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Em 1954, a atriz foi indicada ao prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza, provando sua excelência no filme “Sinhá Moça” (1953) e perdendo o prêmio por apenas dois votos para Lili Palmer. A obra “A Cabana do Pai Tomás deu inicio a uma grande polêmica, pois o ator que interpretava” Pai Tomás” era Sérgio Cardoso, galã da época e, por cima de tudo, branco.

Escrava Isaura”

Em 1976, “Escrava Isaura” vai ao ar. A obra, que teve grande parte de seu elenco composto por atores negros, obteve enorme sucesso no Brasil, fato que levou à reprodução da mesma em quase 80 países. Em Cuba por exemplo, o governo cancelava o racionamento de energia durante a exibição da novela. Apesar do sucesso, os realizadores da novela pecaram na ousadia, demonstrando que, mesmo nos anos 70, os preconceitos ainda não eram tão distantes do século XIX. O Brasil passaria por um hiato de 20 anos sem nenhuma protagonista negra em novelas.

Quase branca”

Com “Gabriela” (1975), a polêmica presença (ou ausência) de atores negros ganha destaque. A escolha de Sônia Braga para a personagem principal da adaptação do romance homônimo de Jorge Amado, uma atriz “quase branca”, nas palavras do diretor de TV Walter Avancini, não parecia ser coerente. Segundo Avancini, autor e escritor que fez o teste de elenco da trama, a personagem Gabriela deveria ter sido interpretada por uma atriz negra ou mulata. Avancini justifica que não escolher uma atriz negra se deu ao fato do receio de apostar numa protagonista negra, criando um pensamento de que atores negros seriam incapazes de realizar a tarefa.

Nos anos seguintes, as novelas brasileiras apresentavam elencos que contavam, em sua maioria, com a presença de atores negros. Mas, por muitos anos, não houve registro de famílias negras, ou casamentos entre duas pessoas negras. Muito presente também, era o estereótipo das crianças abandonadas que, em sua maioria, eram interpretadas por atores mirins negros. Isso pode ser observado na obra “Meu Rico Português” (1975) com o personagem Fritz, interpretado por Odair Toledo. Fritz, que inclusive fala alemão, protagoniza uma cena onde é pejorativamente chamado de “negro” e “macaco” por convidados, na casa de seus “parentes” alemães.

Ascensão

Ainda em 1975, “Pecado Capital” vai ao ar, trazendo o grande ator Milton Gonçalves no papel de um psiquiatra, o Dr. Percival Garcia, personagem que representava a ascensão dos negros no país. A escritora Janete Clair foi pioneira ao criar, juntamente com Gonçalves, a personagem que representava um negro de classe média.

Quase 10 anos depois, estreava “Corpo a Corpo” (1984), que contava com um grande elenco composto por atores e atrizes negros. A obra abordou diversos temas polêmicos, como a presença efetiva dos negros na sociedade, a ascensão feminina, o machismo, a discriminação racial e a homossexualidade, porém esta última temática foi “derrubada” pela censura.

A novela “Sinhá Moça” (1986) inovou e levou aos telespectadores a história de heróis negros que participaram ativamente da luta abolicionista, fugindo de um padrão enraizado em obras passadas de que papéis interpretados por atores negros eram apenas “submissos”. O fim do trabalho escravo retratado na novela não significou a criação de um “paraíso racial” no Brasil, mas provocou um momento crítico na história dos negros.

As obras “Pacto de Sangue” (1989), “Mandala” (1988), “Renascer” (1993), “Pátria Minha” (1994),”A Próxima Vítima” (1995), “Salsa e Merengue” (1996) e novelas transmitidas nas duas últimas décadas abordaram os negros e seus papéis de maneiras distintas. A medida em que atores negros se tornavam parte dos lares do Brasil, os telespectadores iam “aceitando a ideia”, construindo um exercício de cidadania.

O documentário de 2001 ganhou diversos prêmios brasileiros, como o de “Melhor Roteiro de Longa Documentário” no 5oº Festival de Cinema do Recife, além de ser selecionado para inúmeros Festivais e Mostras Internacionais pelo mundo inteiro.

Ficha Técnica:

Direção: Joel Zito Araújo

Roteiro: Joel Zito Araújo

Direção Fotografia: Adrian Cooper e Cleumo Segond

Montagem/Edição: Joel Zito Araújo e Adrian Cooper

Texto: Diego Twardy

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