Carnaval em casa: seis filmes para expandir o olhar sobre Jornalismo

carnval em casa

Na contramão das festividades carnavalescas na capital cearense, coexiste o “bloco dos que ficarão em casa”. Para muitos fortalezenses, o feriado de Carnaval é uma oportunidade para desacelerar o cotidiano e resolver pendências – como é o caso do estudante de jornalismo Italo Nunes. “Vou aproveitar para descansar, reunir os amigos, ver um bom filme e colocar a matéria da faculdade em dia”, planeja.

Para o cineasta e professor Glauber Filho, o cinema é “uma oportunidade de vivenciar a aula com prazer, sem a obrigação do método instrucional”. Pensando nisso, agrupamos passatempo e conteúdo teórico por meio de uma lista de filmes e documentários – clássicos e contemporâneos – que, além de entreter, inspiram reflexões e compreensões sobre jornalismo e a condução de sua prática profissional.

1 – Cidadão Kane (Citzen Kane)

Citizen Kane - 4

Considerado pelo American Film Institute (AFI) o melhor filme de todos os tempos, retrata não só a vida pessoal do fictício magnata da comunicação Charles Foster Kane (provável referência a William Hearst), mas a história de uma era. A trama ambienta o espectador ao nascimento da penny press (geração da imprensa que cria um nicho de mercado nas classes mais baixas), do rádio e da influência política e econômica num direcionamento editorial sensacionalista. Além disso, levanta uma perspectiva crítica sobre a manipulação de informações e os valores éticos dos repórteres em busca do “furo” jornalístico.

Assista aqui: http://armagedontv.blogspot.com.br/2013/08/cidadao-kane-1941-legendado.html

2 – A Opinião Pública

a opiniao publica

“Fugimos do exótico e do excepcional e procuramos as situações, os rostos, as vozes, os gestos habituais. Isto porque refletidas numa tela as coisas que parecem comuns e eternas se revelam estranhas e imperfeitas”, anuncia, nas primeiras cenas, o documentário que busca retratar a classe média carioca dos anos 60. Com um gravador e uma câmera que flana, o cineasta Arnaldo Jabor – sob influência do projeto de conscientização política do Cinema Novo – procura saber o que os entrevistados pensam sobre assuntos corriqueiros, a fim de chegar ao significado da expressão “opinião pública”, num contexto de regime ditatorial. A produção levanta reflexões pertinentes acerca da relação entre a falta de consciência política e a adulteração de dados.

Assista aqui: http://www.youtube.com/watch?v=W2SrmbYEpFc

3 – Cinco Câmeras Quebradas (5 Broken Cameras)

5 Broken Cameras 5

Sob a ótica do agricultor palestino Emad Burnat, que comprou uma câmera para acompanhar o crescimento de seu filho Gibreel, imergimos na história da resistência pacífica dos moradores da região da Cisjordânia à opressão israelense. Simultaneamente aos primeiros passos da criança, o exército de Israel constrói uma barreira entre Bil’in e um assentamento de colonos judeus. Esse conflito cotidiano em junção à história familiar (com várias referências ao Brasil) amplia a concepção sobre diário visual e a crônica de protesto.

Assista aqui: http://www.youtube.com/watch?v=iPoYYbF8hjk

4 – A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole)

a montanha2

Uma das primeiras produções cinematográficas que contemplaram o papel e o poder da mídia na sociedade, pontuando a espetacularização do fato. Um jornalista veterano, ambicioso e decadente é convocado para a cobertura de uma pauta, a princípio, sem importância: uma caçada de cascavéis. No caminho, entretanto, descobre com o fotógrafo um novo viés de abordagem em razão de um evento trágico, que ele prolonga para obter projeção nacional.

Assista aqui: http://filmesonlinetocadoscinefilosvideos.blogspot.com.br/2013/06/a-montanha-dos-sete-abutres-1951.html

5 – Videogramas De Uma Revolução (Videogramme einer Revolution)

VideogramsofaRevolution

Por cinco dias, manifestantes que participaram da derrota do regime comunista da Romênia ocuparam a estação de televisão estatal em Bucareste com o intuito de não apenas levar aos telespectadores a cobertura da revolução, mas de impulsioná-la. O documentário – uma compilação de imagens televisivas, material amador de cinegrafistas nas ruas e narrativa impactante – é também um ensaio para além da simples retomada dos fatos. A imagem tece relações entre mídia e poder viabilizando a aparição do acontecimento – dialogando, assim, com o pensamento do filósofo Michel Foucalt.

Assista aqui: http://www.youtube.com/watch?v=sTm8YVUpLUE&list=PLA016F01B20C03B3E

6 – A Sociedade do Espetáculo (La Societé du Spectacle)

SocietyOfTheSpectacle

Utilizando a Detournement (técnica que mescla imagens de documentários históricos, spots publicitários, filmes e narrativas que desconsideram direitos autorais), Guy Debord dissemina a gênese da concepção contemporânea pós-marxista sobre a questão do espetáculo. O pensador, cineasta, poeta, ativista político e expoente das vanguardas artísticas critica a imagem que leva o homem ao conformismo dos valores preestabelecidos pelo capitalismo. O espetáculo é compreendido como uma figuração que dá sentido ao “fetichismo da mercadoria” na sociedade. Os meios de comunicação de massa, no entanto, seriam apenas a superfície de uma raiz que nutre a infelicidade, o anonimato e a solidão do indivíduo para fomentar a massa de consumo.

Assista aqui: http://www.youtube.com/watch?v=A4FAJsFqHe0

Texto: Alana Oliveira

“Tudo o que era diretamente vivido tornou-se uma representação”

Foto: Eduardo Cunha
Foto: Eduardo Cunha

Aconteceu na última quinta-feira, 13, a segunda edição do mês de fevereiro do Cineclube Unifor, com exibição do documentário A Sociedade do Espetáculo (1973), dirigido e roteirizado por Guy Debord a partir de seu livro homônimo, escrito em 1967 e reproduzido quase na íntegra na narração off que se estende por todo o longa.

Construindo uma crítica social ferina a partir dos construtos teóricos de Karl Marx em Contribuição para a Crítica da Economia Política (1859), Debord vai além, expondo fatos que só se tornariam evidentes algumas décadas depois, já na sociedade de mercado da hipermodernidade: a adoção do espetáculo como forma social de abstração, o monopólio da aparência sobre a vida e o “assujeitamento” do indivíduo, que passa a ser mero espectador frente ao protagonismo da mercadoria.

Construído sob a forma de um discurso ilustrado por imagens em preto-e-branco artístico-performáticas, fabris, publicitárias e militares, a obra mostra com impressionante força plástica o fascismo velado da sociedade de consumo, ou, como quer Debord, do espetáculo, em que “tudo o que era diretamente vivido tornou-se uma representação” e “a própria insatisfação tornou-se uma mercadoria”.

Jorge Paiva no Cineclube Unifor. Foto: Eduardo Cunha
Jorge Paiva no Cineclube Unifor. Foto: Eduardo Cunha

A exibição foi seguida de debate com a socióloga Rosa da Fonseca, membro-fundador do movimento Crítica Radical, e Jorge Paiva, estrategista e líder intelectual do grupo. Ambos destacaram o pensamento de Guy Debord como norteador da ideologia do Crítica Radical após o que denominam como uma certa superação de Marx.

A inovação teórica inaugurada por Debord consistiria em uma leitura do capitalismo não mais do ponto de vista da luta de classes, mas a partir de uma crítica do sistema em suas categorias: dinheiro, mercadoria, trabalho etc. Dessa forma, o autor teria se antecipado à derrocada das revoluções socialistas ao sugerir que a possibilidade de superação positiva do capitalismo poder-se-ia dar unicamente a partir de uma ruptura radical com a parafernalha do sistema (algo que Marx e os bolcheviques jamais se propuseram a fazer).

Rosa da Fonseca enfatiza a realidade do dinheiro e do capitalismo como construções histórico-culturais, instâncias não-ontológicas, i.e. não inerentes ao homem, e que estão chegando ao seu limite – “o capitalismo é uma contradição em processo; a maior parte do capital que circula hoje no mundo é fictício, vive-se uma bolha”, afirma.

Em sua incitação à recusa da mediação das relações sociais pelo dinheiro, a socióloga chega a utilizar a metáfora da necessidade da ruptura da Matrix. Para Jorge Paiva, “o indivíduo encontra-se enfeitiçado pelo fetiche da mercadoria”, e isso o impede de enxergar o capital como uma abstração falsa e reificadora, da qual o homem prescindiu durante longos períodos de sua história.

Rosa, por fim, ao esgotamento socioeconômico iminente do capitalismo, lança a questão: “A humanidade vai sucumbir  junto com o sistema? Ou vamos por nossa criatividade à disposição de um novo modelo?”.

O Cineclube Unifor, sob coordenação do professor Márcio Acselrad, é uma atividade de extensão universitária formadora de plateias para o cinema, o diálogo e a crítica. Suas sessões, sempre acompanhadas de debate, ocorrem todas as quintas-feiras, às 13h30 na sala A da videoteca, e são gratuitas e abertas ao público.

Texto: Lia Martins

Ficha Técnica

Título Original: La société du spectacle
Ano: 1973
Direção: Guy Debord
Roteiro: Guy Debord
Gênero: documentário
Duração: 88 min.
Origem: França