Redes sociais e projetos culturais em pauta

Foto: Thiago Gadelha
Foto: Thiago Gadelha

A I Semana de Comunicação da Universidade de Fortaleza teve início na manhã da segunda-feira (18), no Teatro Celina Queiroz. A primeira mesa do evento teve como tema Concepção, Gestão e Realização de Projetos Culturais e sua relação com as redes sociais. Contou com a presença da professora e jornalista, Bete Jaguaribe; do Secretário da Juventude de Fortaleza e sociólogo, Élcio Batista; do artista gráfico Narcélio Grud e, como mediadora, a proprietária da ATO Marketing Cultural, Ivina Passos.

O evento é novidade no calendário acadêmico da Unifor, já que nos onze anos de existência do curso de Comunicação Social da instituição não havia sido realizada uma semana totalmente voltada para a área de Jornalismo e Publicidade. Organizado pelo Diretório Acadêmico Patativa do Assaré (Dapas), a I Semana de Comunicação trouxe, por três dias, mesas de debate, oficinas e intervenções artísticas.

Dando início à primeira mesa do evento, a mediadora Ivina Passos apontou que as redes sociais foram responsáveis pelo fortalecimento da gestão da marca pelo patrocinador, visto que o relacionamento é fortalecido. “O relacionamento com a marca ganha parâmetros gigantescos: eu consigo me relacionar com a mídia, consigo me relacionar com o meu patrocinador, me relaciono com o público, com a classe para a qual aquele projeto foi feito. A rede social nos dar a possibilidade de aproximação, engajamento e troca”, destacou.

Foto: Thiago Gadelha
Bete Jaguaribe. Foto: Thiago Gadelha

Bete Jaguaribe deu continuidade ao debate apontando sua experiência pessoal com o campo virtual. “Comecei a trabalhar com gestão cultural em 1992, quando sai do jornalismo para me dedicar exclusivamente a essa área. Agora vocês imaginem a minha dificuldade de adaptação a essas novas tecnologias, essa realidade virtual, já que sou da geração gutenberguiana”, brincou.

A jornalista destacou, ainda, a dificuldade de compor equipes culturais que saibam lidar com as redes sociais, porém, mais do que isso, saibam alimentá-las e torná-las atraentes para o público crescente que as consome. “Acho que um dos maiores desafios de incorporar o uso das redes sociais na lida com projetos culturais é compor uma equipe competente que saiba acompanhar a evolução dessas mídias sociais e, mais do que isso, acompanhar o ritmo alucinado que é a produção de conteúdo para essas mídias. É difícil compormos uma equipe que atenda a esses requisitos e que saiba tocar esse tipo de mídia com responsabilidade”, compartilhou Bete.

Bete, porém, não deixou de destacar a importância do mundo virtual para o campo cultural. “Acho que o mundo virtual tem que estar presente desde o momento da concepção do projeto cultural. Inclusive na perspectiva de criar no chamado mundo real uma rede capaz de financiar o próprio projeto”. Para embasar seu discurso, Bete exemplificou com a iniciativa chamada crowdfunding, que nada mais é do que a obtenção de capital para iniciativas de interesse coletivo através da agregação de múltiplas fontes de financiamento, ou seja, financiamento coletivo.

Sobre essas ações no campo das redes sociais, Bete alertou. “Quando pensamos em divulgar um projeto nas redes sociais, achamos que nossas próprias redes de amigos e conhecidos bastará para uma divulgação forte. Isso não acontece. O projeto tem que ser capaz de conformar comunidades que possam se transformar em usuários engajados no projeto. São esses usuários, seduzidos por aquela ideia, que vão, espontaneamente, divulgar o projeto”, explicou.

“A experiência indica que a centralidade das redes sociais em qualquer processo que exige diálogo com o publico maior é um fato. As demandas principais são: conteúdos de qualidade, capacidade de conexão com a experiência social e ao mercado a ser conquistado. Talvez nós devêssemos formar alunos radicalmente preparados mais para mundo virtual do que para o mundo impresso, visto que a comunicação impressa e televisiva estão sendo desafiadas a acompanhar o ritmo das novas mídias e construir um diálogo com elas”, finalizou Bete Jaguaribe.

“Se algum dia existiu a ideia de que conhecimento é poder, essa ideia tem que ser revista”, aposta Élcio Batista

Élcio Batista deu continuidade à discussão abordando o termo “redes sociais”. O sociólogo destacou que redes sociais sempre existiram, que o ser humano sempre se organizou em redes, em grupos, para, primeiramente, sobreviver na natureza e, depois, para estabelecer uma relação de comunidade. “Foi o fato de nos associarmos, de nos compormos em redes, que produziu a civilização em que vivemos atualmente”, explicou.

Foto: Thiago Gadelha
Élcio Batista. Foto: Thiago Gadelha

A teoria de Élcio é que as redes sociais ganharam outra dimensão: virtual, etérea, não palpável. “Nós vivemos numa era over, numa era em que nós temos uma abundância muito grande de tudo: informação, por exemplo, conhecimento também. Se algum dia existiu a ideia de que conhecimento é poder, essa ideia tem que ser revista. Claro que conhecimento ainda é poder, porém, o conhecimento se democratizou de uma forma extrema, ou pelo menos as condições de acesso ao conhecimento”, apontou o sociólogo.

“Essa era over tem como princípio ordenador a ciência e a tecnologia. Foram a ciência e a tecnologia, numa revolução que aconteceu mais ou menos há 400 anos, que impulsionaram para que nós pudéssemos viver hoje numa era over”, continuou Élcio.

Para o sociólogo, atualmente, além da velocidade, que é a palavra de ordem da era over, vivemos também numa constante instantaneidade. “Essa instantaneidade produz uma ideia de urgência muito grande em todos nós. De um modo geral todos nós vivemos estressados, porque, por exemplo, se uma pessoa manda uma mensagem para você e você não responde, aquilo gera um estresse em você porque você tem que responder e gera um estresse na pessoa com a qual você está falando porque ela quer a resposta agora. Em breve vamos ter que colocar uma tarja preta nas redes sociais e avisar do perigo de passar muitas horas nas redes sociais”, brincou Élcio.

Nárcelio Grud. Foto: Thiago Gadelha
Nárcelio Grud. Foto: Thiago Gadelha

O artista gráfico Narcélio Grud procurou dar destaque à sua experiência no campo das artes urbanas e a divulgação desse trabalho nas redes sociais. “Divulgo vídeos, por exemplo, no formato para redes sociais e isso já me rendeu portas abertas e vários lugares do mundo. Tive a oportunidade incrível de comprovar isso quando viajei e outro artista me reconheceu de um vídeo que eu tinha postado. Essa pessoa acabou me levando para conhecer outros artistas, me hospedei na casa do cara. Enfim, foi uma experiência maravilhosa e tudo isso por um vídeo que o cara viu!”, exclamou o artista.

Para concluir, Grud alertou sobre os perigos de estar constantemente voltado para as redes sociais. “O mundo virtual é o que o nome diz: virtual. E como toda ferramenta, tem essa dualidade, lado bom e lado ruim. Vamos nos preocupar mais com o que postamos, com o que compartilhamos, com o que consumimos. Vocês que são futuros jornalistas, futuros publicitários, que serão as pessoas que vão alimentar a população com informação, tenham sempre em mente a responsabilidade que essa função exige”.

 

Texto: Juliana Teófilo e Laís Tavares 

 

 

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Música nordestina na mídia

Foto: Divulgação

O III Simpósio Mídia Nordeste, que será realizado de 21 a 23 de novembro, no Auditório do Centro Cultural Dragão do Mar, traz como tema central de discussão os 100 anos de Luiz Gonzaga e a cultura do Nordeste na Mídia. Como nas outras duas edições, que expuseram os 200 anos de imprensa no Brasil (2008) e os 50 anos da TV no Ceará (2010), o evento utiliza o centenário do cantor e compositor nordestino, conhecido com Rei do Baião, como marco histórico para apoiar as discussões.

Entre os convidados desta edição estão José Miguel Wisnik, Gilmar de Carvalho e o músico Waldonys. Para a abertura, no dia no dia 21, a partir das 19h, José Miguel Wisnik vai abordar a construção da canção de massas na música de Luiz Gonzaga. Wisnik é professor de literatura brasileira pela Universidade de São Paulo, também é músico e pesquisador de música popular.

As professoras da Unifor, Bete Jaguaribe e Ana Quezado, organizadoras do evento, esperam que o simpósio propicie um momento de refletir os marcos históricos propostos, desconstruir mitos e reinventar as narrativas. Para Bete Jaguaribe “É muito instigante refletir como Luiz Gonzaga, nordestino, conseguiu estabelecer um espaço de distinção no coração da indústria cultural, numa época em que a própria região não tinha a menor visibilidade no país”.

As inscrições são gratuitas e estão abertas no site. Também no portal estão mais informações sobre a programação e sobre os convidados. Haverá certificado de participação.

Serviço:
III Simpósio Mídia Nordeste – 100 anos de Luiz Gonzaga:a cultura do Nordeste na mídia
Quando: 21, 22 e 23 de novembro de 2012
Onde: Centro Cultural Dragão do Mar – Auditório

Texto: Lorena Cardoso