[Claquete] Pirataria moderna e crítica social

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Capitão Phillips, longa do veterano Paul Greengrass (A Supremacia Bourne, Ultimato Bourne), é uma vigorosa adaptação do romance A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea, do capitão da marinha mercante americana Richard Phillips. No romance, escrito em 2010, Phillips narra a sequência de eventos ocorrida no ano anterior, quando foi levado como refém por piratas somalis durante o sequestro do navio Maersk Alabama.

Com seis indicações ao Oscar deste ano, entre elas a de Melhor Filme, Capitão Phillips tem entre seus trunfos as ótimas atuações do elenco, que conta com Tom Hanks no papel principal e o somali Barkhad Abdi como Muse, líder dos piratas, papel pelo qual concorreu ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

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Entre as qualidades do longa, pode-se destacar o ritmo sempre enérgico da narrativa, que alterna entre sequências do Capitão com sua tripulação no Maersk Alabama e sequências que retratam, ainda que superficialmente, o cotidiano dos piratas na Somália. A intercalação das duas realidades, em tudo opostas, prova-se uma excelente forma de escapar ao maniqueísmo – tantas vezes observado em narrativas do gênero – ao oferecer ao espectador uma perspectiva quanto à falta de perspectivas que assola os antagonistas, e, além disso, anuncia de forma clara a iminência do conflito.

Apesar disso, a película exibe sensíveis falhas de direção, sobretudo no uso descuidado da câmera nervosa. Apesar de sua eficiência em potencializar a tensão nos momentos oportunos, seu uso despropositado nas cenas iniciais, de apresentação do personagem, faz com que os acertos posteriores pareçam por acaso. O enquadramento, especialmente no que toca às tomadas internas, carece de uma orientação lógica aparente, e é intrigante a obsessão de Greengrass por closes do perfil de Tom Hanks.

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No mais, é apreciável a gradatividade na apresentação dos piratas somalis – inicialmente mostrados de forma quase animalesca, sugerindo uma perspectiva naturalista do homem como vítima das condições naturais, socioeconômicas e culturais de seu meio, os personagens pouco a pouco revelam suas reais aspirações e sonhos, dando enfim um sentido à ambição improvável que os move.

Não que tais sonhos e aspirações não estejam diretamente ligados à falta de perspectivas da vida na Somália; quando o Capitão Phillips tenta demover Muse de seus intuitos, dizendo que deve haver alguma opção além de sequestrar pessoas, o somali responde: “Talvez na América”.

Em uma outra cena, um pouco anterior e ainda mais plena de sentido, enquanto imagina o sucesso de sua “operação”, Muse devaneia – “Após isso tudo, irei para a América. Eu sempre quis ir para a América. Ir a Nova York, comprar um carro…” Fica evidente, na fala do antagonista, o subtom de crítica social de Capitão Phillips quanto a um aspecto bastante específico da conjuntura socioeconômica mundial que, surgido logo após a I Guerra, tem se tornado a cada dia mais evidente.

Observa-se, em suma, uma aguda análise condenatória do modo como os Estados Unidos vendem compulsoriamente seu estilo de vida ao restante do mundo sem proporcionar aos atingidos por sua publicidade massacrante as condições de aderir a tal estilo de vida – ainda que não se trate do tema central do longa, a consciência dessa nuance enriquece sobremaneira a apreciação da obra.

Texto: Lia Martins

Ficha técnica

Título Original: Captain Phillips
Ano: 2013
Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Billy Ray, baseado no romance de Richard Phillips, A Captain’s Duty
Gênero: biografia; drama; thriller
Duração: 134 min.
Origem: EUA