“Como o Brasil não é referência mundial na moda?”

Foto: Maria Navarro
Ana Cláudia Silva Farias, Cláudia Leitão, Márcia Travessoni e Cláudio Silveira. Foto: Maria Navarro

Na última quinta-feira, 30,ocorreu o último evento de teor discursivo da Semana de Moda Unifor. Aberto ao público, com coordenação da profesora Ana Cláudia, o curso de Design realizou uma mesa-redonda com três grandes ícones da indústria da Moda e da Economia Criativa no Brasil. O evento ocorreu na Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), às 20 horas, e teve a presença de Cláudia Leitão – ex-secretária do Ministério da Cultura (Minc) e da Secretaria de Economia Criativa (SEC) -, Cláudio Silveira – responsável pelo Dragão Fashion -, e Márcia Travessoni – autora do livro Anuário da Moda no Ceará.

Com o intuito de ressaltar a importância que a indústria da Moda está ganhando no Brasil, bem como no Ceará, a mesa falou acerca das dificuldades e importâncias que esta área apresenta. “Como o Brasil não é referência mundial na moda?”, questionou Cláudia Leitão, falando um pouco de sua experiência frente ao Ministério da Cultura e criticou o pouco investimento e credibilidade que dão para o ramo. Ela também criticou a supervalorização que as pessoas de Fortaleza dão aos produtos internacionais. “Não sejamos consumidores passivos de enlatados e produtos estrangeiros, produtos que muitas vezes são ruins e de péssima qualidade”. Para ela, existe grande possibilidade do Brasil se tornar um exportador no campo da moda.

Cláudia apontou, ainda, quatro dificuldades típicas encontradas nas atividades que se enquadram dentro da economia criativa. Ela acredita que a maior objeção está na produção de informação e dados, “é necessário que existam mais observatórios e espaço para pesquisa no Brasil”. O segundo ponto destacado foi a educação, a especialização em qualquer área deve ser valorizada; em terceiro lugar foi colocado as dificuldades financeiras e, por último, a necessidade de marcos legais que incentivem e facilitem a produção e criação no campo da moda. Como incentivo aos novatos, Cláudia Leitão falou que o mercado precisa “valorizar as cadeias produtivas mais simples, existem várias possibilidades de atuação dentro da moda, como corte e costura, estilismo, pesquisas, fotos, eventos, modelagem, entre outros”.

Márcia Travessoni. Foto: Lucas Magno
Márcia Travessoni. Foto: Lucas Magno

Márcia Travessoni, um dos nomes mais importantes da moda cearense, apresentou seu livro “Anuário da Moda no Ceará”, que ganhou segunda edição, expondo uma série de referências de marcas, pesquisas e registros, analisando temas e critérios para eleger as empresas que se qualificam como cases do ano de 2012. A palestra reforçou bastante a questão da gestão, sendo um desafio para os novos designers. “O curso de moda precisa realmente ter esse cuidado, os profissionais criativos tem que ter o cuidado com a gestão financeira, com a gestão de pessoas, com as gestões de marcas”, ressaltou Travessoni.

A industria da moda precisa ser cada vez mais valorizada, e com a publicação do Anuário da Moda do Ceará só reforça isso, uma vez que a cada ano os números crescem, e mostra o quanto esse mercado é importante para o estado, sendo o anuário um documento de pesquisa, tanto de calçados, como de setor têxtil, que mostra ao Brasil o quanto o Ceará emprega. “Moda é comportamento, a cada ano temos um comportamento diferente”, indagou Márcia.

Finalizando a mesa-redonda, o idealizador do Dragão Fashion Claúdio Silveira destacou a importância da moda regional, apresentando uma grande visibilidade para as industrias locais, uma vez que é preciso quebrar a hierarquia da moda concentrada no eixo Rio-São Paulo. “Eu quis mostrar que existia uma moda autoral, não só nordestina, mas sim uma moda regional brasileira”, levantou. E conclui: “O mercado precisa de um incentivo, precisa estimular o regionalismo, criar algo autêntico, uma identidade que valorize a cultura local de cada estado, deixando de lado as grandes marcas, ganhando, assim, uma maior notoriedade no mercado”.

Ana Cláudia Silva Farias, Cláudia Leitão,  Márcia Travessoni e Cláudio Silveira. Foto: Lucas Magno
Ana Cláudia Silva Farias, Cláudia Leitão, Márcia Travessoni e Cláudio Silveira. Foto: Lucas Magno

Texto: Giovânia Alencar e Marcelo Tavares

“Tudo o que está acontecendo hoje tem a ver com a economia criativa”

Cláudia Leitão. Foto: Victor Lima
Cláudia Leitão. Foto: Victor Lima

Cláudia Leitão, que há pouco tempo coordenava a Secretaria de Economia Criativa (SEC), do Ministério da Cultura (MinC), esteve presente na Unifor a convite do grupo de especialização em Animação e Jogos Eletrônicos, também da universidade, para debater junto ao coordenador do grupo, Nílbio Thé. Cláudia é formada em direito e já foi professora desta área, sua visão é bem jurídica a respeito da Economia Criativa, tema sediado na palestra de ontem, 1º de novembro.

Ela lembrou que na época em que trabalhava no ramo do direito sentia a carência de disciplinas nos cursos desta área que fossem voltados para Patentes, Propriedade Intelectual, Direitos Culturais, Autorais e Coletivos. Segundo ela, são setores que dizem respeito à economia criativa, muito existente atualmente. “Tudo o que está acontecendo hoje tem a ver com a economia criativa”, defendeu Cláudia.

 Durante o percurso da palestra, Cláudia se direcionava bastante aos alunos, alertando sobre as dificuldades de se trabalhar na área de games, pouco conhecida e mal investida por parte do governo. Ela ressaltou a abordagem da sua ex-chefe, Marta Suplicy – ministra do MinC -, que considera game como um setor não cultural. Sentindo um certo alívio de não fazer mais parte da SEC, por ter mais liberdade de opinar, ela diz: “você não pode contrariar o seu chefe, mas como eu não faço mais parte de lá, agora eu posso falar o que eu realmente penso sobre o tema”, desabafou, achando um absurdo a não classificação dos games como produtos culturais.

A fim de explanar mais sobre a Economia Criativa, é exibida uma reportagem da TV Senado. Ao final dos 3 blocos apresentados, Cláudia Leitão comenta: “Não há um conceito bem definido de economia criativa no Brasil. “Existem várias possibilidades de setores que esta economia faz parte, sendo o setor de “ game, música, cinema, culinária, fotografia e multimídia, que vêm se reinventando atualmente, sendo por isto considerados como setores criativos”, concluiu.

Direcionada aos alunos da área dos games, ela fala: “Vocês estão sozinhos”, fazendo referência aos poucos investimentos e incentivos que o governo oferece, ponto bastante ressaltado na palestra. Apontou a área criativa como um setor invisível e incompreendido, apresentando uma certa dúvida sobre a questão do não investimento brasileiro “pode ser que haja uma rejeição do governo, ou mesmo uma incompreensão do tema por parte deles”. Cláudia fez uma alerta sobre o comportamento que as pessoas têm de consumir produtos estrangeiros, “é necessário uma educação que faça as pessoas produzirem e consumirem produtos nossos”.

Cláudia tem uma visão otimista em relação à cultura brasileira, ela considera a cultura como sinônimo de “pessoas”, acreditando que isto traduz bem Brasil e que seja sinal de um rico conteúdo inserido nos produtos internos. “A tecnologia é só um instrumento, sozinha ela é nada, é necessário que haja um bom conteúdo.”

Níbil Thé.
Nílbio Thé e Cláudia Leitão. Foto: Victor Lima

Ademais, levantou o Brasil com forte potencial de ser um grande exportador de games. “Se existe plano de Brasil Maior, Brasil sem Miséria, porque não pensar em um Brasil Criativo? ”. Ela lembrou que já chegou a apresentar um plano desta área à Dilma, alegando que, de princípio, a presidente se mostrou bastante interessada. Ela passou uma hora respondendo perguntas e esclarecendo suas ideias, até que recebeu autorização da Dilma para elaborar o plano junto à Casa Civil, mas no final das contas ele não foi executado.

Cláudia lembrou, ainda, que a Economia Criativa é informal, “não existirão dados fáceis de se apurar, pois ela está vinculada às festas, apresentações artísticas, exposições, mercados, entre outros setores, sendo a maioria deles locais, por isto a dificuldade de se apurar números”. Sobretudo, ela acredita que está área, por mais carente que ainda seja, tende a crescer bastante no mercado. Por fim, ela abordou o panorama de investimentos que devem ser feitos, levantando a “educação, pesquisa, inclusão social, marcos legais (leis), serviços e entidades que trabalham o desenvolvimento empresarial”, para serem trabalhadas a fim de que haja um desenvolvimento efetivo.

Texto: Giovânia Alencar

Games e economia criativa são tema de palestra amanhã na Unifor

Foto: Reprodução internet
Foto: Reprodução internet

O grupo de especialização em Animação e Jogos Eletrônicos da Unifor promoverá, amanhã – 1º de novembro, no auditório A1, às 18h30 -, uma palestra aberto ao público sobre “A Economia Criativa e o Setor dos Games: uma nova alternativa de desenvolvimento para o Brasil”. O evento será ministrado por Cláudia Leitão, ex-secretária da Economia Criativa, que é vinculada ao Ministério da Cultura (MinC) .

A Secretaria da Economia Criativa (SEC), da a qual Cláudia Leitão coordenou, foi criada em 2012 e tem objetivo de elaborar planos e políticas públicas para promover e desenvolver a economia criativa brasileira, além de coordenar e implementar ações neste ramo. A SEC coordena quatro setores no Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), que são: artesanato, arquitetura, design e moda.

Claúdia Leitão. Foto: Divulgação
Claúdia Leitão. Foto: Divulgação

Cláudia Leitão é graduada em Direto e em Educação Artística, respectivamente pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Mestra em Sociologia Jurídica pela Universidade de São Paulo (USP) e doutora em Sociologia pela Sorbonne, Université René Descartes, Paris V. Já foi secretária da Cultura do Estado, e da Secretaria da Economia Criativa.

A palestrante já ministrou debates acerca da inovação, diversidade cultural, inclusão social, sustentabilidade, entre outros setores estratégicos de desenvolvimento. Diante dos seus conhecimentos e experiências na área, amanhã ela realizará uma palestra abordando a temática sobre a economia, o fator de crescimento e investimento que o Brasil vem tendo no ramo dos games.

Serviço

Economia Criativa e o Setor dos Games: uma nova alternativa de desenvolvimento para o Brasil

Local: Auditório A1

Horário: 18h30

Data: 1º de novembro, sexta-feira

Entrada gratuita e aberta ao público

Texto: Giovânia Alencar