Workshop de cinema fala sobre a construção de roteiro

Foto: Giovânia Alencar
Foto: Giovânia Alencar

Nesta quinta-feira, 23, o Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB) ofereceu o workshop Imagem em Pensamento sobre Roteiro de Cinema. A oficina foi mediada por Diego Benevides, que já trabalhou com crítica de cinema e na área de jornalismo cultural, estando atualmente fazendo estudos acerca da ficção audiovisual seriada.

Diego Benevides chama atenção nas dificuldades encontradas aos que estão iniciando seus trabalhos na área do cinema. “Quem faz filme independente padece de divulgação”, ele recomenda que os interessados em produzir filmes frequente festivais, mostras, exposições e eventos culturais para ter uma base do que está sendo produzido além do que a grande mídia oferece. “É bom que a pessoa assista de tudo um pouco, para aguçar o olhar”, acrescentou.

O facilitador do workshop falou sobre os diretores de filmes, chegando a perguntar nomes de cineastas que trabalham nesta área, obtendo vários nomes destacados pelos participantes da oficina. O mesmo não ocorre quando a pergunta é voltada aos roteiristas. Em alguns casos o roteirista também atua na direção, a exemplo de Quentin Tarantino, mas, não ocorrendo esta mútua função, eles são poucos lembrados. “Geralmente o diretor tem mais destaque, mas se o roteiro não for bom, o diretor não consegue salvar o filme”, ressaltou Diego Benevides.

Todo roteiro deve passar por um processo de amadurecimento, que consiste em um tratamento de constante leitura do texto, a fim de corrigir possíveis erros e aperfeiçoar as ideias que foram colocadas. Este procedimento tem tempo relativo, pode demorar de meses a anos, para Diego Benevides “existe o momento certo da divulgação”, que pode ser medida pela qualidade e segurança que o escritor tenha sobre o seu roteiro, da expectativa do público em volta do tema colocado na história que foi construída, entre outros fatores.

Para Diego Benevides a forma de contar a história é o diferencial do roteiro. “A história deve conter conflitos, lugares, cenas, relações, atos, músicas, personagens, entre outros elementos”. Para ele o roteiro é uma narração através de imagens, diálogos e descrições. Benevides destaca, ainda, a importância dos conflitos: “Um filme não existe sem drama”, mas faz ressalto, também, sobre as reviravoltas que o excesso de conflitos podem ocasionar. Ele acredita que muitas soluções conflituosas são encaradas como método enganoso pelo espectador, que fica na expectativa de apenas um desfecho e acaba recebendo vários. “Você não pode subestimar o seu público”, ele observa que as pessoas estão passando a apreciar o cinema como uma arte, e não como puro entretenimento.

 

Curtas exibidos no workshop

Diego Benevides exibe Alguém do Futuro, de Salomão Santana, chamando atenção ao hiato entre os diálogos, que dá um espaço de respiração e reflexão ao público. O Silêncio do Mundo, de Bárbara Cariry, mostra a possibilidade de executar um filme conceitual sem o uso de diálogos, o mediador do curso chama atenção também para as narrações contidas em muitos outros filmes: “A narração pode acabar com o filme, no cinema a gente tem que mostrar e não explicar.” O último curta foi Memórias Externas de Uma Mulher Serrilhada, de Eduardo Kishimoto, que mostra a boa administração de tratamento de sons, o filme é feito em película e faz uso de celular, webcam e câmera de vídeo.

 

Pontos fundamentais que o roteiro deve ter

Diego Benevides destacou alguns pontos básicos que o roteirista deve ficar atento na construção do seu texto. Primeiramente ele deve ter em mente o seu propósito bem definido. “O roteirista tem que saber a história que ele quer contar, se ele não conseguir entender a sua própria ideia, quem mais vai compreender?”, questionou.

Benevides afirma que todo filme deve ter três atos bem estabelecidos, que consiste no começo, meio e fim, porém o começo do filme não precisa ser necessariamente o início da história que foi criada. O primeiro ato serve para fazer uma apresentação dos personagens, levando cerca de 20 minutos nos longas e médias-metragens. “Alguns críticos de cinema falam que se nos primeiros 20 minutos você não se envolver com a história, pode desistir do filme”, falou, mesmo discordando desta linha de raciocínio. O segundo ato é o chamado “miolo do filme”, que vai mostrar os conflitos do personagem principal e suas experiências de vida. O terceiro e último ato funciona como desfecho, resolvendo os conflitos apresentados no clímax.

É preciso, segundo o facilitador do workshop, que o roteirista defina o gênero de sua história e depois estabeleça as necessidades que os personagens irão possuir. Ele alerta que depois da escolha do tema e dos personagens é importante que haja pesquisas sobre o assunto, para abrir possibilidades de ações e diálogos no filme. É interessante, também, que sejam criadas suspensões, diferente de suspense, “suspensão é o conflito que faz com que o público fique suspenso esperando a solução”, explicou Diego. Sobre a organização do perfil que os personagens devem ter, Diego falou que “criar uma biografia sobre cada personagem facilita na construção de situações e diálogos, além de ajudar o ator ou a atriz a sentir e compreender melhor o personagem”.

Para quem não tem noção da história que pretende construir, Diego Benevides instiga uma reflexão pessoal de acordo com a sua visão de mundo, seus sonhos, suas referências, suas experiências, as pessoas que você convive, que gosta e que não gosta. “A ideia de um filme pode surgir de qualquer lugar”, concluiu Diego.

Texto: Giovânia Alencar