[Série] Xerox nossa de cada dia

Com algumas opções de livrarias espalhadas pelo Campus da Universidade de Fortaleza e uma ampla biblioteca, ainda assim os alunos optam pelos Centros Acadêmicos (C.A), com o intuito de economizar e serem mais práticos. Afinal, levar algumas folhinhas é muito mais cômodo que um livro inteiro.

D.A de Comunicação de Social. Foto: Juliana Queiroz
D.A de Comunicação de Social. Foto: Juliana Queiroz

Há vários Centros Acadêmicos (C.A) pela Unifor e um Diretório acadêmico (D.A) que é o da Comunicação Social, devido ao curso ter duas opções, Jornalismo e Publicidade. Além de conter materiais de outros cursos, como Psicologia, Audiovisual e Belas Artes. As salas dos C.A’s ficam nos corredores do bloco P e Q, e podem ser encontradas também nos blocos O e I.

Os centros funcionam de 7:30 às 21h. “A xerox facilita a vida dos estudantes, pois estes fazem gastos maiores com a compra de livros, podendo assim economizar adquirindo a fotocópia nos centros acadêmicos”, afirma Marcello Magno, um dos funcionários do D.A. Pode-se encontrar além do serviço de xerox, algumas guloseimas como: biscoitos, chocolates e bombons com o intuito de agradar os estudantes e professores que frequentam o ambiente.

Texto: Juliana Queiroz

Veja a reportagem completa:

– A Unifor é uma feira livre!

 

Esta é uma reportagem colaborativa feita pelos alunos de Oficina de Ciberjornalismo da Unifor.

O Poeta não Morreu

O Diretório Acadêmico Patativa do Assaré, dos cursos da área de Comunicação Social, encerrou de forma memorável o clico de palestras realizadas desde o início do semestre, com a exibição do filme Patativa do Assaré – Ave Poesia, do renomado cineasta cearense Rosemberg Cariry.

A produção foi exibida para um público de alunos e professores, admiradores e curiosos para conhecer melhor a vida daquele que foi consagrado como um dos maiores poetas populares do país. Ao som de repentes e poemas musicados, o filme exibe imagens pessoais colhidas pelo diretor e outras retiradas de acervos históricos que ilustram e traçam um perfil histórico da vida de Patativa.

A produção, porém, não funciona apenas como uma cinebiografia. Ao lado da história de Patativa, somos também apresentados ao estilo de vida do sertanejo, tipicamente rural e roceiro. Através de cada imagem, de cada poema declamado, o espectador é transportado pelos grandes momentos que marcaram a história do País e colocaram o Ceará no centro das atenções. O êxodo rural, a migração nordestina rumo ao Sudeste, a criação das ligas camponesas e a ditadura militar são alguns dos assuntos tratados.

Após a exibição do longa, o pesquisador Luiz Tadeu Feitosa, autor do livro Patativa do Assaré: a Trajetória de um Canto, relatou sua valiosa experiência ao lado do poeta. Feitosa conviveu diariamente com Patativa durante seis meses, e revelou aspectos curiosos sobre sua vida, como a existência de uma série de poemas de cunho erótico não publicados pelo autor e desconhecidos pelo grande público. O pesquisador também parabenizou o engajamento do Diretório Acadêmico, que classificou como necessário e relevante, que deve servir de exemplo para a juventude cearense.

Prof. Tadeu Feitosa e o Diretor Rosemberg Cariry
Prof. Tadeu Feitosa e o Diretor Rosemberg Cariry

O diretor Rosemberg Cariry também participou do debate e destacou a diversidade de tipos que faziam de Patativa um homem único: lírico, satírico, violeiro, cantador, mistico, político. Afirmou que o Ceará finalmente se retratava e reconhecia, embora tardiamente, a importância do poeta. Cariry ressaltou a força de vontade de Patativa, que de forma autodidata aprendeu seu ofício e superou sua infância miserável com uma série de limitações físicas (cegueira, surdez parcial, e um problema de locomoção).

Sobre o documentário, Cariry afirmou que a captação do material e das imagens começou em 1978, e a edição foi a parte mais difícil do trabalho. O cineasta preferiu deixar de lado os trechos que exibiam o processo de degradação física de Patativa, optando por fazer uma produção que destacasse a sua felicidade inabalável.

Seguindo o debate, alguns membros do Diretório anunciaram as próximas ações do grupo. Barbara Cariry, estudante

Barbara Cariri
Barbara Cariry

do curso de Audiovisual e integrante do Diretório, esclareceu o motivo pelo qual escolheram exibir Patativa do Assaré – Ave Poesia: “a idéia de passar o filme tem a ver com o centenário do Patativa que aconteceu esse ano, com o diretório se chamar Patativa do Assaré, com a gente já ter visto o filme no festival de cinema Cine Ceará, e com a gente ter um contato com o Rosemberg, que disponibilizou o filme que ainda está em cartaz.” Sobre o papel político do Diretório, Barbara diz que “no diretório a gente sempre tenta levantar, nas nossas discussões, os debates políticos e estudantis.” Ela também garantiu que para o próximo semestre, o D.A. está planejando a exibição de uma série de curtas-metragens seguidos de debates.

A seguir, uma entrevista exclusiva com o premiado diretor do filme Patativa do Assaré – Ave Poesia, Rosemberg Cariry:

Labjor: O senhor iniciou sua carreira na década de 70, dirigindo curtas metragens sobre manifestações e artistas populares, e agora estamos observando um retorno ao artista popular, que foi o Patativa do Assaré. Existe uma “fixação” pela cultura popular do estado?

Rosemberg Cariry: A verdade é que eu sempre gostei dessa cultura popular por se tratar de uma cultura herdeira, notadamente, das culturas ocidentais, ibéricas, mediterrâneas, africanas e ameríndias, então é uma riqueza muito grande, e são culturas que levaram séculos pra criar uma identidade de brasilidade, mas com traços de universalidade. Me encanta muito, por exemplo, escutar um Patativa do Assaré e perceber o que ele tem de universalidade. Por outro lado também, sempre houve uma desinformação muito grande sobre a cultura popular, eu diria até mesmo uma alienação por parte da elite brasileira. Os intelectuais nunca perceberam a importância, a beleza e a força dessas culturas. Então, eu sempre gostei de abordar e de mostrar esses aspectos mais importantes dessas culturas.

L: Em 2008 foi lançado o filme do Joe Pimentel, Bezerra de Menezes, o Diário de um Espírito. O senhor acha que é uma tendência do cinema nordestino, sobretudo o cearense, iniciar uma busca por esses heróis cearenses, colocando-os em pauta?

R.C: Não. Eu acho que são momentos diferenciados. O Bezerra de Menezes é um filme voltado para o mercado, uma coisa bem sucedida nesse campo. O Patativa do Assaré é muito mais um registro afetivo sobre a vida de um homem. Então, são filmes diferentes, com possibilidades diferentes.

L: Já que o Bezerra é um filme mais voltado para o mercado, qual o público alvo que o Patativa procura atingir?

R.C: O filme tem circulado muito entre os movimentos sociais, entre o movimento dos sem terra, entre as associações de bairros e favelas e também no meio universitário. Por incrível que possa parecer, o público alvo desse filme tem sido a juventude, são pessoas que pouco conheceram o Patativa em vida, assim também como muita gente que o acompanhou. A geração dos anos 60 e 70 também procura ver o filme. Mas eu acho que o fascínio maior que ele tem exercido é sobre a juventude. E o Bezerra de Menezes é uma produção bem sucedida, porque foi um filme feito pensando no mercado, ou seja, uma produção cearense que terminou sendo distribuída nacionalmente e chegou quase aos 500 mil espectadores. Então, é uma coisa muito interessante do ponto de vista da indústria cultural do Nordeste.

L: Porque o lançamento de Patativa em circuito nacional só aconteceu agora, dois anos depois do lançamento no Cine Ceará, em 2007, onde recebeu o prêmio de melhor filme?

clara magalhaes 029 copyR.C: Houve a questão do centenário, e o filme funciona como uma grande homenagem ao mestre, mas a distribuição é hoje, no Brasil, o grande gargalo do cinema, da produção audiovisual. Produzir, até que se produz. Nós temos hoje uma produção de cerca de 80 a 100 filmes por ano, sendo que apenas 15% ou 20% conseguem distribuição, já que o cinema hoje está restrito às salas dos shopping centers. Nós não temos mais cinemas populares, cinemas nos bairros. E essas salas pertencem a um complexo que fazem parte de grandes empresas norte americanas, e é muito difícil um filme brasileiro entrar em cartaz. A não ser os filmes da Globo Filmes, que são filmes de produção maior, que geralmente trabalham com um milhão a 4 milhões de espectadores. O filme brasileiro independente é lançado com 3 ou 4 cópias no país inteiro. Pra você ter idéia, o Homem-Aranha é lançado com 600 ou 800 cópias, e um filme da Globo é lançado com 200 ou 300 cópias. Patativa, por exemplo, está sendo lançado com 3 cópias.

L: E como está sendo a divulgação nacional do filme do Patativa?

R.C: Tem sido muito boa. Ele foi lançado em São Paulo com uma repercussão muito positiva da crítica, saiu matéria no Estado de São Paulo, Folha de São Paulo. É um filme muito espontâneo, no sentido de não ter um grande aparato financeiro.

L: Existe algum tipo de preconceito, por parte da população do Sudeste, quanto ao cinema produzido no Nordeste?

R.C: Não, eu acho que o patativa rompe esses preconceitos todos. Ele é de uma dimensão humana, de uma grandeza, que fala do ser nordestino, do ser paulista, que fala do ser homem. Eu acho que o Patativa trata do ser homem.

L: Como o senhor conseguiu essa série de imagens históricas exibidas no decorrer do filme?

R.C: As imagens do Patativa, eu filmei muitas, foram mais de 20 anos filmando e registrando em várias bitolas, em vários formatos de vídeo. Quanto às imagens de época, eu fiz uma pesquisa em arquivos de cinematecas e no arquivo nacional, para identificar todas aquelas imagens e depois conseguir essa cenas que usei no filme. São imagens da ditadura, imagens da publicidade nos tempos da ditadura, imagens da seca. Alguns filme também foram referência, em especial de três grandes documentaristas brasileiros: Linduarte Noronha, que fez Aruanda, Wladimir Carvalho e o Geraldo Sarno.

L: Além de cineasta, o senhor é poeta. O senhor percebe alguma influência de Patativa em suas produções poéticas?

R.C: Olha, a minha poesia é bem mais urbana, especialista, mais política. Mas não deixa de haver semelhança, porque eu acho que há uma coisa muito bonita na poesia do patativa, afora o seu conteúdo, afora a sua excelência literária, que é o ritmo, a própria musicalidade dessa poesia. Eu acho que mesmo depois da gente trabalhando com versos livres e temáticas diferenciadas, a gente termina, de certa forma, internalizando esse ritmo e essa forma de dizer.

*texto: Jáder Santana

*fotografia por: Clara Magalhães