Cinema brasileiro e censura: a repressão na ditadura militar

Cena do filme 'O Passageiro da Agonia'.
Cena do filme ‘O Passageiro da Agonia’.

Quando em 31 de março de 1964 o regime ditatorial foi instalado no Brasil, o cinema brasileiro vivia o seu auge. O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte) havia ganhado, em 1962, categoria de melhor filme no Festival de Cannes; Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha), Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos) também participaram do festival francês, enquanto Os fuzis (Ruy Guerra) foi premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim.

Esse reconhecimento internacional foi resultado de um movimento artístico iniciado no fim da década de 1950, o Cinema Novo. Inspirado por vanguardas cinematográficas como a Nouvelle Vague e o Neo-realismo italiano, o Cinema Novo era constituído por artistas de esquerda, engajados politicamente. “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” era o seu lema.

O contexto

Cena do filme 'Rio, 40 graus'.
Cena do filme ‘Rio, 40 graus’.

Durante a década de 1950, o Brasil passava por um momento de rápida industrialização, com a política nacionalista-desenvolvimentista do então presidente da república Juscelino Kubitschek. Os “50 anos em 5” tiveram grandes reflexos positivos na arte e cultura nacional, especialmente no cinema. Os cinemanovistas buscavam retratar a identidade brasileira em temáticas de cunho essencialmente social, como a precariedade vivida pelo sertanejo, o cotidiano das pessoas nas favelas, a miséria e a fome.

Principais obras do Cinema Novo

Rio, 40 graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos

Barravento (1961), de Glauber Rocha

Os Cafajestes (1961), de Ruy Guerra

Cinco vezes favela (1961), filme dividido em cinco episódios de diretores diferentes: O favelado, de Marcos Farias; Zé da Cachorra, de Miguel Borges; Couro de gato, de Joaquim Pedro de Andrade; Escola de samba, alegria de viver, de Cacá Diegues; Pedreira de São Diogo, de Leon Hirszman.

Assalto ao trem pagador (1962), de Roberto Farias.

O pagador de promessas (1962), de Anselmo Duarte.

Deus e o diabo na terra do sol (1963), de Glauber Rocha.

Os fuzis (1963), de Ruy Guerra.

Selva Trágica (1964), de Roberto Farias.

Vidas Secas (1964), de Nelson Pereira dos Santos.

Após o golpe de 1964, os cineastas e suas obras sofreram perseguições, pois, ao abordar temáticas de crítica e denúncia social, a maioria dos filmes foi submetido à censura. Naquele momento, a esperança de um país mais justo socialmente foi enfraquecida e, mais do que isso, destoava do novo governo a visão de mundo daqueles artistas, baseada na vitória do oprimido sobre os opressores, que seus filmes buscavam reproduzir.

“Com o golpe, o Cinema Novo apresenta-se em um novo ciclo. Narrativas mais elaboradas e menos didáticas começaram a surgir para, também, dissimular a censura. No entanto, a característica do engajamento permanecia presente, como foi com Terra em Transe, de Glauber Rocha”, explica Glauber Filho, cineasta e professor dos cursos de Jornalismo e Audiovisual.

cena de terra em transe
Cena de ‘Terra Em Transe’.

 

Filmes produzidos durante o regime militar com temática da ditadura

 

O desafio (1965), de Paulo César Saraceni.

A derrota (1967), de Mario Fiorani.

Terra em transe (1967), de Glauber Rocha.

O bravo guerreiro (1968), de Gustavo Dahl.

Eles não usam black-tie (1981), de Leon Hirszman.

Pra frente, Brasil (1982), de Roberto Farias.

Nunca fomos tão felizes (1984), de Murilo Salles.

A partir de então, cineastas fizeram a ditadura militar ser a temática principal para seus filmes, o que intensificou a censura sobre eles, principalmente após o decreto do Ato Institucional Nº 5, em 1968. O cinema, portanto, encontrava-se em grandes dificuldades para continuar mantendo o seu padrão de crítica social e passou a fazê-la de modo implícito. Exemplo disso são filmes como Brasil Ano 2000 (1968), de Walter Lima Jr e Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, obras que fazem referências ao governo vigente na época.

Porém, o que a censura de cunho político não podia repreender, a de cunho moralista o fazia. A falecida (1965), de Leon Hirszman, fora censurado por apreciação moral, pois continha cenas de ‘infidelidade feminina’; enquanto Deus e o diabo na terra do sol foi considerado inapropriado para menos de 18 anos, por conter cenas de violência e ‘lesbianismo’. Segundo Glauber Filho, “os olhos da Censura políticas fixavam mais o Cinema Novo, enquanto os moralistas ocupavam seu tempo com o Cinema Marginal”.

Cinema Marginal

O Bandido da Luz Vermelha (1968).
O Bandido da Luz Vermelha (1968).

No final dos anos 60, com suas obras sendo frequentemente interditadas e seus artistas levados ao exílio, como Glauber Rocha, o cinema brasileiro encontrava-se em um momento frenético de transformações. Em 1969 é fundada a Embrafilme, o que ocasiona a transformação paulatina da produção autoral do cinema novo em uma indústria cinematográfica, uma vez que os filmes não encontravam produtores e dependiam do mesmo governo que os censurava.

Alguns diretores aceitaram esse patrocínio da própria ditadura para a produção de seus filmes, pois acreditavam que era uma forma de dar continuidade ao diálogo com a população por meio da arte. Enquanto isso, um grupo de cineastas contrários a essa ideia propunha o radicalismo extremo e a produção de filmes feita de forma alternativa. Isso foi possível graças à difusão das câmeras super-oito no início da década de 1970, utilizada pelos artistas do chamado Cinema Marginal, que permitia a realização de novas obras de forma rápida e a baixos custos.

“O Cinema Novo era mais intelectualizado e percebia os personagens sociais ‘comuns’ numa visão verticalizada do intelectual sobre seu objeto: o oprimido. O Cinema Marginal, mais popular, o ‘oprimido’ não tinha o discurso do ‘oprimido’. Ele se protagonizava. Eles se uniam justamente no que o discurso hegemônico da ditadura escondia: a sociedade e suas complexidades de relações e personagens”, afirma o diretor de cinema Glauber Filho.

Principais obras do Cinema Marginal

A Margem (1967), de Ozualdo Candeias.

O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla

Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), Julio Bressane.

Orgia ou O Homem que Deu Cria (1970), de João Silvério Trevisan

Perdidos e Malditos (1970), de Geraldo Veloso

O uso democrático da câmera super-oito e a produção alternativa dessas obras foi de extrema colaboração para a ampliação de técnicas de filmagem e para o experimentalismo no cinema brasileiro. Porém, após essa fase e o surgimento de novas tecnologias, a super-oito tornou-se obsoleta.

O Cinema na Retomada e Pós-Retomada

Em 1992entra em vigor a Lei do Audiovisual. A partir de então, novos recursos e incentivos à produção de obras cinematográficas conseguem levar o cinema brasileiro de volta ao reconhecimento internacional. No ano de 1997, as Organizações Globo inauguram sua própria produtora, a Globo Filmes, o que intensifica o lançamento de novas películas brasileiras. A temática de algumas dessas produções é inspirada na abordagem dos cinemanovistas, como o registro do cidadão brasileiro na favela, a exemplo de Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, Carandiru (2003), de Hector Babenco e Tropa de Elite (2007), de José Padilha. Muitos filmes desse momento também retratam cenas do que aconteceu no Brasil durante a ditadura militar.

O que é isso, companheiro? (1997), de Bruno Barreto

Ação Entre Amigos (1998), de Beto Brant

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), de Cao Hamburger

Zuzu Angel (2006), de Sérgio Rezende

Batismo de Sangue (2007), Helvécio Ratton

Hoje (2011), Tata Amaral

Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda

Texto: Milena Santiago 

[Foca Nessa] Uma noite em 68

Foto: Caio Pinheiro

Uma volta ao tempo em que havia resistência e luta contra a ditadura. Essa foi a proposta do evento “Uma noite em 68” que aconteceu na véspera do feriado, 14 de novembro, no Anfiteatro Dragão do Mar. Mais do que a apresentação dos artistas envolvidos era um momento em que várias gerações se congraçaram no espírito revolucionário das passeatas dos anos 1960s .

Através dos clássicos de protesto consagrados nos festivais de música popular brasileira e outros, nem tão conhecidos, mas que faziam parte do cancioneiro da época estavam, de alguma forma, entrelaçados, fomos convocados a escutar e vivenciar um período das belas canções brasileiras: Mutantes, Caetano Veloso,  Gilberto Gil, Tropicália, entre outros nas vozes de Fernando Catatau, Céu, Paula Tesser, Vitoriano (Os Transcionais) e Soledad Brandão.

Canções estas que expressaram mais do que as palavras musicadas, nas entrelinhas houve uma comunicação fantástica entre diferentes gerações, músicos e plateia. Em um som único, composto por timbres tão diferentes, buscava-se despertar reflexões, buscava-se gritar a comunhão de um povo tão desgastado e sem o menor interesse de aceitar passivo ou acomodar-se diante do que a realidade tem oferecido.

Entre fotos de pessoas e momentos passando em vídeo mapping no palco, juntamente com cenário inspirado no momento sobre o qual se tentava resgatar, fomos captados, ao final do show, por um discurso político, direcionado a nossa cidade, tendo como temática a insegurança de nossas ruas, feito por Fernando Catatau, também produtor da noite.  O discurso causou polêmica nas redes sociais, com muitas críticas e outros elogios, mas que vem a calhar com os momentos atuais vividos no nosso país como um todo.

Uma noite em 68 foi um grito de direito a vida, um grito desses direitos humanos tão em voga e ao mesmo tempo tão esquecidos. Onde estamos nós, “que amávamos tanto a revolução”?

Texto: Caio Pinheiro

Fotografia e ditaduras são tema de palestra

Evandro Teixeira, um dos mais premiados fotojornalistas brasileiros, falou sobre seu trabalho, e suas experiencias na cobertura do período de Ditadura Militar do Brasil. A palestra aconteceu na noite desta quinta-feira, para público de fotógrafos e estudantes reunidos em auditório da Assembleia Legislativa do Ceará.

A fotografia foi a forma que Evandro encontrou de denunciar os horrores do período de regime militar brasileiro. Ele não era estudante, nem sindicalizado a ponto de se envolver em partidos,mas entrou na “guerra” como profissional do Jornal do Brasil.“Tinha que ter coragem. Os laboratoristas faziam uma duplicata das fotos, porque os militares chegavam e rasgavam os filmes todos. Muita coisa foi massacrada, destruída, mas o que ficou é importante mostrar para as novas gerações”, pontua o fotógrafo.

Em seu trabalho no JB, Evandro registrou alguns momentos importantes da história do Brasil, como o fim do governo de Juscelino Kubitschek, a passeata dos cem mil, a morte e missa de 7° dia do estudante Edson Luís, fotos de presos políticos no Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Também cobriu pelo JB o golpe militar do Chile, onde foi o único fotógrafo a registrar a morte do poeta Pablo Neruda, que seopôs ao regime.

Na palestra ele mostrou algumas de suas fotos. Cada uma delas carregada de história, algumas engraçadas, outras assustadoras. As fotos da passeata dos cem mil viraram um livro, anos depois, que reúne a história de pessoas que foram captadas por sua lente. A qualidade fotográfica desse período muitas vezes não é das melhores, pois era necessário ser rápido para não ser a próxima vítima. A pouca tecnologia é compensada com a emoção do instante registrado.

Como outros jornalistas e profissionais da comunicação,Evandro foi preso, no Brasil e no Chile, e também apanhou,“foi de leve, eu era uma águia pra correr”. Hoje, sobre os generais e presidentes que o censuraram, ele fala com ironia: “eles
me sacanearam, mas eu fotografei o enterro deles todos”.

Confira nessa galeria uma amostra do trabalho de Evandro Teixeira:

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Texto: Lorena Cardoso
Orientação: Profa. Joana Dutra

Comissão de Anistia promove festival de cinema no país

Foto: Divulgação

O Cineclube Unifor vai exibir neste mês, em parceria com o Instituto Cultura em Movimento (ICEM), do Rio de Janeiro, três filmes sobre a ditadura militar. A exibição faz parte do minifestival nacional “Cinema pela Verdade”, organizado pelo Instituto com o apoio da Comissão de Anistia. O projeto será apresentado em 81 universidades de todo o país e tem viés educacional.

O objetivo central é relembrar às pessoas dos acontecimentos no período da ditadura. É uma forma de conscientização da história não-dita do país. Segundo Tiago Pedro, agente mobilizador do evento aqui no Ceará, de início, pretendia-se pressionar a presidente Dilma para a escolha de uma Comissão da Verdade. Agora, com os nomes da Comissão já divulgados, o “Cinema pela Verdade” vai ser como uma comemoração, uma forma de brinde a atitude do Governo.

Após passar por uma seleção de currículo e uma entrevista, Tiago submeteu-se a quatro dias de capacitação no Rio de Janeiro para estar apto a promover a mostra aqui no estado. Em sua estadia na capital carioca, esteve em reunião com os agentes mobilizadores de todo o país, com os membros do ICEM, com dois membros da Comissão de Anistia e com o diretor Roberto Mader, do Filme Condor. “Nós tivemos acesso há muitos documentários e informações. Ouvimos histórias chocantes. É preciso que as pessoas vejam e ouçam essas histórias também. É preciso tentar conscientizá-las dos acontecimentos da época e informá-las que muitos desses acontecimentos ainda não são esclarecidos. Temos de lutar por esse esclarecimento”, defende Tiago.

Ao mobilizador cearense foram entregues quatro banners, 1000 filipetas, 16 cartazes e 200 questionários com perguntas relacionadas ao envolvimento das pessoas com o tema. “É uma maneira de saber o quanto as pessoas estão informadas sobre a ditadura militar e da Comissão de Anistia ter o controle, mesmo que superficial, do número de pessoas que a mostra irá atingir”, afirma.

Em Fortaleza, três instituições de ensino superior foram escolhidas pelo ICEM para fazer parte do minifestival. Foram elas: Unifor, UFC e Face. A parceria com a Universidade de Fortaleza foi feita através do professor Márcio Ascserald, organizador do Cineclube Unifor. Após a exibição de cada filme, ocorrerão debates entre os espectadores e uma mesa de especialistas, que será escolhida por Tiago em comunhão com o professor Márcio Acselrad.

Comissão da Anistia

A Comissão de Anistia foi instalada pelo Ministério da Justiça, em agosto de 2001. Tem como ponto central analisar os pedidos de indenização formulados pelas pessoas que foram impedidas de exercer atividades econômicas por motivação exclusivamente política de 1946 até cinco de outubro de 1988, período da ditadura militar.

Para reparação econômica dos indivíduos prejudicados, a Constituição de 1988 formulou uma lei (Lei n° 10.559) que consiste na concessão em prestação única correspondente a 30 salários mínimos por ano de perseguição política até o limite de 100 mil reais. Ou prestação mensal que corresponderá ao posto, cargo, graduação ou emprego que o anistiando ocuparia se na ativa estivesse, observado o limite do teto da remuneração do servidor público federal.

A Comissão da Anistia é composta por 24 conselheiros nomeados.

Comissão da Verdade

A lei que cria a Comissão da Verdade foi sancionada em novembro do ano passado, mas a Comissão teve nomeação decretada apenas na última sexta-feira, dia 11 de maio de 2012, pela presidente Dilma Rousseff. Foram sete integrantes nomeados para a missão de esclarecer os casos de desaparecimentos, torturas, mortes e ocultação de cadáveres no período de 1946 a 1988. Serão dois anos de apuração, análise e requisição de documentos, dados e depoimentos.

A comissão terá caráter investigativo e não de punição. Ela aproveitará informações levantadas pela Comissão de Anistia, e de outros movimentos investigativos sobre o assunto, para análise e esclarecimento dos casos.

Sessão do Cineclube

16/05 “Condor”, direção Roberto Mader, 2007.

Condor foi o nome dado à cooperação entre governos militares sul-americanos que resultou no sequestro e assassinato de milhares de pessoas e no exílio de tantas outras. Uma análise contemporânea destes

eventos, trazendo uma história de terrorismo de Estado, mas também de pessoas e da procura pela verdade e justiça.

23/05 “Marighella”, direção Isa Grinspum Ferraz, 2011.

Carlos Marighella (1911-1969), quadro histórico do Partido Comunista e dirigente da ALN (Ação Libertadora Nacional), era tio de Isa. À reconstrução histórica da figura do militante mesclam-se recordações afetivas da diretora, que fala de um tio carinhoso, porém cercado de mistérios, que aparecia de vez em quando e, em seguida, sumia do mapa.

30/05 “Cidadão Boilsen”, direção: Chaim Litewski, 2009

Um capítulo sempre subterrâneo dos anos de chumbo no Brasil, o financiamento da repressão violenta à luta armada por grandes empresários, ganha contornos mais precisos neste perfil daquele que foi considerado o mais notório deles. As ligações de Henning Albert Boilesen (1916-1971), presidente do grupo Ultra, com a ditadura militar, sua participação na criação da temível Oban – Operação Bandeirantes – e acusações de que assistiria voluntariamente a sessões de tortura emergem de diversos depoimentos de personagens daquela época.

Texto: Luana Benício
Orientação: Profa. Adriana Santiago