[Foca Nessa] A Vida Que Ninguém Vê

Lançado em 2006, o livro A vida que ninguém vê é uma coletânea de crônicas-reportagens feitas em 1999 pela jornalista Eliane Brum para uma coluna homônima do jornal Zero Hora, em Porto Alegre. A obra nos apresenta personagens impressionantes com histórias que vão de inspiradoras a trágicas e mostra que todos têm uma boa historia para contar, basta ter alguém que as escute.

Entre as histórias de vida que ela relata, chama a atenção as de Antônio Antunes e Geppe Coppini. O primeiro, em uma semana, perdeu a esposa e a filha por causa do caos da saúde pública no Brasil.

Já o segundo é um mendigo que nunca pediu nada, mas que, aos 60 anos, conseguiu uma aposentadoria sem nunca ter trabalhado em toda a sua vida. Coppini ainda diz ler o jornal invertido porque “no correto, qualquer bobo sabe ler”.

Foto: Divulgação

Crianças pedintes, deficientes, uma estátua e até mesmo a própria autora são personagens desta miscelânea. Eliane Brum é apresentada de uma maneira pouco vista, conhecemos mais da sua intimidade, que é bem diferente do que muitos imaginam.

Vencedor do Prêmio Jabuti de 2007 como melhor livro- reportagem, A vida que ninguém vê é formado por pequenas historias que, juntas, formam uma historia maior, uma história sobre mudança de foco para ver as coisas de outro modo. Além disto, o livro traz posfácio do jornalista Ricardo Kotscho. Vale a pena ler essa obra, seja pelas histórias de vida que o leitor vai conhecer, seja porque elas vão mexer com a sua vida.

Texto: Hyana Rocha
Orientação: Prof. Alejandro Sepúlveda

Mulher de 91 anos aprende a ler e escrever

Dona Mocinha é a aluna mais velha do ensino público de Fortaleza / Foto: Ana Lorena Magalhães

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o Brasil possui cerca de14 milhões de analfabetos. São jovens, adultos e idosos que registram-se através de suas impressões digitais. Em Fortaleza, na escola municipal Catulo da Paixão Cearense, estuda Dona Maria das Dores de Sousa, uma senhora de 91 anos, que há um ano descobriu na educação um novo sentido para a vida.

Dona Mocinha, como é mais conhecida pela comunidade escolar, estuda no Ensino de Jovens e Adultos (EJA) da escola desde abril de 2011 e é a aluna mais velha do ensino público de Fortaleza. O sonho de aprender a ler e escrever só pode ser concretizado após o estímulo de uma vizinha, que também estuda na escola. “Meu sonho sempre foi aprender a ler e escrever. Nunca tive a oportunidade de ir à uma escola porque tinha que trabalhar e ajudar no sustento da casa. Depois de velha foi que eu tive essa chance, e aqui estou”.

A senhora de olhar atento não poupa as palavras estampadas nas propagandas que vê no caminho de casa à escola. Ela afirma que essa prática a ajudou bastante para o aperfeiçoamento da leitura, que adquiriu tão rápido. Dona Mocinha estuda diariamente em casa depois dos afazeres doméstico. Para ela, exercitar a ortografia todos dias faz com que aprenda mais rápido e seja mais bem vista pela sua dedicação.

Seguindo em frente na linha do lápis

A leitura e escrita básicas ajudaram a senhora a entender mais sobre os seus direitos. Agora, Dona Mocinha, reivindica com mais segurança sobre os seus benefícios financeiros, problemas relacionados ao seu cartão de aposentadoria e INSS. Já pode até fazer compras assinando o próprio nome, sem a necessidade de usar a impressão digital.

Uma de suas maiores realizações foi poder ter dado o estudo ao único filho. Hoje ele mora no interior do estado, e é formado em engenharia. Dona Mocinha mora só, mas fala com frequência com o filho e as netas. “Eu me sinto muito realizada em poder ter dado uma boa educação ao meu filho. Foi a coisa que eu mais me preocupei quando ele começou a crescer. Hoje ele e minhas três netas têm estudo e são cidadãos com conhecimento. Isso me deixa orgulhosa”

Sua força de vontade é admirada por todos na escola. O acolhimento presente na sala de aula, no pátio ou na secretaria é bem visto por Dona Mocinha. Para a professora da turma, Karla Paiva de Lima, o andamento da leitura e escrita da senhora está sendo muito positivo e rápido. “A Dona das Dores é um exemplo que eu sempre uso para os meus alunos mais novos. Porque diferente da maioria, que estão aqui para crescer profissionalmente, ela só quer aprender a ler e escrever para uma realização pessoal. Essa vontade é muito admirável. Ela é uma das que está tendo mais aquisição da leitura em tão pouco tempo”.

A senhora estudante tem muito a dizer, principalmente quando se trata de jovens que não valorizam a escola. Ela mostra-se indignada com alunos que fogem do colégio ou faltam aula sem necessidade. “Eu acho uma pena que esses jovens de hoje não valorizem o que têm. Eles nem imaginam o quanto estão sendo prejudicados. Quem dera eu tivesse tido essa educação tão cedo.”

Assim como não economiza a soletração das palavras na rua, Dona Mocinha não poupa sonhos. Sempre com um olhar à frente, ela não quer parar de trabalhar, mesmo aposentada, e muito menos de estudar. O seu maior objetivo agora é ter domínio completo da escrita e leitura. “Agora que comecei, não vou mais parar. Eu sei que estou indo pelo caminho certo. Sempre que eu leio uma palavra, e pergunto a minha professora se eu acertei, e ela diz “sim”, isso me deixa muito feliz, e com ânimo pra continuar”.

Texto: João Paulo de Freitas 

[Foca Nessa] Para ler no Dia Internacional do Livro

Hoje não tem espaço para mal-humor, nem para preguiça. A segunda-feira vai com aquele cheirinho bom de livro. Afinal, o dia 23 de abril foi instituído pela Organização das Nações Unidas (Unesco). Dia Internacional do Livro e do Direito do Autor. A data homenageia a morte e o nascimento de escritores famosos, como Miguel de Cervantes e William Shakespeare.

Para comemorar o dia, nada melhor do que ler um bom livro. Por isso, a dica de hoje é a leitura de O único final feliz para uma história de amor é um acidente , escrito pelo carioca João Paulo Cuenca.

Foto: Divulgação

O livro faz parte da coleção Amores Expressos e conta a história do jovem executivo japonês Shunsuke Okuda, que tem sua vida abalada após conhecer e apaixonar-se por Iulana Romiszowska, uma garçonete polonesa-romena que trabalha em uma espécie de bordel em Tokyo. O romance excêntrico entre os dois parece fadado ao fracasso, especialmente depois que o pai de Shunsuke, o Sr. Okuda, começa a espionar a vida amorosa do filho com intuito de destruir o relacionamento.

Uma história nada convencional que mistura personagens estranhos com cultura japonesa. O livro mais parece  ter saído de um sonho fantasioso de Cuenca, bizarro, mas ao mesmo tempo fácil de visualizar em nosso imaginário. O único final feliz para uma história de amor é um acidente surpreende e vicia pela sua originalidade, fazendo que o livro seja consumido em poucas horas. Diferente de qualquer outra obra, vale a leitura nesta semana.

Texto: Lígia Franco
Orientação: Prof. Alejandro Sepúlveda

Os bons leitores nascem na infância

Em pesquisa  divulgada pelo Instituto Pró-Livro, em 2012, Retratos da Leitura no Brasil“, foi apontado que o índice de leitura entre crianças acima de cinco anos cresceu. Elas leem, em média, 4,7 livros por ano. É um dado a ser comemorado, embora a mesma pesquisa mostre que os adultos estão lendo menos. No ano de 2007 eram 55% de leitores, atualmente são 50%.

Jornalista e escritor Flávio Paiva / foto: Divulgação

Para tratar sobre esses números e a literatura infantil, neste dia Internacional do Livro (23/04), o Blog do Labjor conversou com Flávio Paiva, colunista do Diário do Nordeste e autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, gestão compartilhada, mobilização social, memória e infância. Entre eles, podemos citar Flor de maravilha – vinte histórias e vinte músicas (2004), Benedito Bacurau – o pássaro que não nasceu de um ovo (2005), A casa do meu melhor amigo (2010), todos editados pela Cortez Editora.

Blog do Labjor: Por que escrever para crianças?

Flávio Paiva: Escrevo para crianças porque acho que tenho alguma coisa a compartilhar com elas; algo do lúdico que está na dimensão mais livre da condição humana; algo do meu viver que, imagino, sirva para se encontrar e brincar com o jeito infantil de olhar o mundo amando; algo da minha inquietação diante do egoísmo social; enfim, algo de um estado de espírito participativo transformador, que tenho chamado de cidadania orgânica.

BL: Recentemente saiu a pesquisa Retratos da leitura no Brasil, onde mostra o aumento da leitura de livros infantis. O que você acha disso?

FP: Acho maravilhoso. A leitura na infância amplia a capacidade das pessoas de perceberem a realidade na sua dimensão multifacetada e intersubjetiva. É uma sala de espelhos do mundo, na qual o leitor tem várias possibilidades de se ver na sua individuação e no que tem de parte do todo. Ao redescrever a vida, a literatura torna-se plataforma de ressignificação permanente do que somos.

BL: Como você compara os livros infantis clássicos aos atuais?

FP: O que torna uma obra clássica é a honestidade da sua narrativa, tanto que os livros infantis clássicos não foram necessariamente escritos para crianças. E os bons livros atuais, que poderão se tornar clássicos, não são diferentes. O que existe de diferente na atualidade é a multiplicidade de recursos disponíveis para tornar o livro e a leitura mais atraentes. Às vezes, a utilização exagerada desses recursos gráficos, de efeitos volumétricos e interativos podem até prédigerir a imaginação e interferir na grandeza do encantamento.

BL: Há quem critique o fato de que o crescimento da literatura infantojuvenil está ligado livros como Harry Potter e Crepúsculo. Qual é a sua opinião?

FP:  Diz a sabedoria popular que não dá para encher um rio sem toldar a água. Entendo que na enxurrada de publicações dirigidas ao público infantil seja natural ter obras boas e publicações oportunistas. Não dá para comparar a saga do Harry Potter com Crepúsculo, são produções com qualidades muito distintas. Harry Potter tem literatura, enquanto Crepúsculo é apenas um apelo kitshc comercial. De qualquer forma, a predominância dos “mais vendidos” e dos livros baratos, ironicamente chamados de “capa dura em Singapura”, sobre obras sem grandes apelos de marketing, faz parte do domínio do mercado sobre os interesses sociais. Cabe aos pais, mães e cuidadores ficarem atentos para dar oportunidade às crianças de terem acesso a livros que possam honrar as suas experiências de leitura. O mercado e os órgãos oficiais de educação estão cheios, inclusive, de produções duvidosas, muitas vezes editadas por força de lobbies de falsos escritores que se embrenham nas burocracias oficiais, a fim de corromper os processos de seleção de títulos, fazendo valer o “mérito” da camaradagem ao invés da qualidade literária. Mas seja como for, o crescimento da literatura infantil e infantojuvenil merece ser comemorado.

Texto: Hyana Rocha
Orientação: Prof. Alejandro Sepúlveda