[Claquete] Polisse e a ideia vívida do imponderável

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Cartaz do filme Polisse: simbolismo eficiente.

Baseado em uma história real, Polisse (2011) emprega um simbolismo inteligente quanto ao assunto em que toca, já em seu pôster. Nas várias versões, o que permanece é a imagem de um policial com o rosto coberto por uma fotografia de criança. A proposta parece querer lembrar que policiais adultos também já foram crianças, e que mesmo sob seus coletes à prova de balas, ainda carregam vulnerabilidades. A montagem criativa e coesa lança um mix de cenas que, assim como um quebra-cabeças, aos poucos esclarece um retrato amplo do filme.

Rodado em Paris, Polisse ganhou diversos prêmios. Dentre eles, o do Júri, no Festival de Cannes, e 13 indicações ao César, vencendo nas categorias, melhor atriz promissora – para Naidra Ayadi – e de melhor montagem.

O roteiro acompanha o cotidiano de policiais de uma unidade que lida com crimes relacionados a pedofilia, exploração de menores e casos de estupro, equilibrando inseguranças e tensões, guardando medos e dúvidas. Apesar do tema pesado, o longa da jovem diretora Maiwenn Le Besco, não recorre a cenas explícitas dos crimes – fator que não fez falta à intensidade alcançada na produção. Uma curiosidade: na pesquisa para o filme, Maiween acompanhou de perto o cotidiano da Brigada de Proteção de Menores (BPM), em Paris. Além disso, foi coautora do roteiro – junto a Emmanuelle Bercot – e assim como a colega roteirista, também atuou no filme.

A premiada atriz Naidra Ayadi, em sua cena mais marcante.
A premiada atriz Naidra Ayadi, em sua cena mais marcante.

O casting apurado traz um elenco incrível de muitos integrantes. Por vezes, os personagens e situações são tão convincentes, que se tem a impressão de assistir a um documentário. Mais que isso: o que parece é que o telespectador está vendo cenas íntimas, de pessoas comuns, que nem sabem que estão sendo filmadas.

Assim como no brasileiro Tropa de Elite, Polisse parte da perspectiva dos agentes, humanizando-os. E coloca em pauta, a dificuldade de defender critérios éticos, tendo que lidar de perto com a violência e as próprias limitações. Falhas, distúrbios e dependências dos policiais são evidenciadas, em paralelo a um trabalho exaustivo, que parece estar sempre aquém da demanda. Relatos e denúncias se sucedem em uma insistência extenuante, amontoando-se em uma cadeia crescente e irrefreável. Em contrapartida a esse empurrão de realidade, o filme tem pinceladas de bom humor e esperança, conferindo-lhe alguma leveza.

Série francesa Strip-tease, reproduzida no filme Polisse.
Série francesa Strip-tease, reproduzida no filme Polisse.

Apesar de preciso, Polisse não demonstra querer abarcar tudo, nem contar todas as histórias em sua ótica. É verdade que essa característica pode acabar gerando a sensação de incompletude – a produção termina de forma impactante e sem explicações para tal impacto. Mas é dessa forma que intensifica a ideia da imponderabilidade do real (ou ideia vívida do imponderável), de que a arte, representativa ou não, não pode absorver toda a experiência que é a vida, cheia de surpresas da realidade, a nos deixar paralisados, sem argumentos, às lágrimas ou aos pulos de alegria.

Texto: Manoela Cavalcanti

Ficha Técnica

Diretor: Maiwenn Le Besco

Produção: Alain Attal

Roteiro:Maïwenn, Emmanuelle Bercot

Fotografia: Pierre Aïm

Trilha Sonora: Stephen Warbeck

Duração: 127 min.

Ano: 2011

País: França

Gênero: Drama