“Quem não conhece Aurélia Camargo?”

Foto: Afonso Monte
Foto: Afonso Monte

Na última quinta-feira, 26, aconteceu a 13ª edição do projeto Quinta Literária, promovido pelo Centro de Ciências Jurídicas (CCJ) e Vice-Reitoria de Extensão. O evento, sob a coordenação da professora Ivanilda Sousa da Silva, propõe-se a discutir clássicos da literatura brasileira e estrangeira de maneira interdisciplinar, com ênfase na Literatura e no Direito. A atual edição contou com a presença dos professores Bleine Queiroz, Leonardo Leal e Marina Cartaxo, que debateram a obra “Senhora”, do escritor cearense José de Alencar.

Esta edição foi introduzida por uma interpretação teatral da última cena de “Senhora”. A diretora de Comunicação e Marketing da Unifor, Eroltilde Honório, interpretou a protagonista do livro, Aurélia Camargo. Fernando Seixas, o segundo protagonista, foi interpretado pelo ator Léo de Oliveira. O diálogo, dramático e surpreendente, ilustrou, em poucos minutos, o amor entre Aurélia e Fernando e a posição firme da mulher, comentada por alguns dos debatedores.

Erotilde Onório. Foto: Pedro Vinícius
Erotilde Onório. Foto: Pedro Vinícius

O mediador, o professor, escritor e poeta José Batista de Lima, deu continuidade ao debate introduzindo a obra ao público, composto por alunos da Universidade de Fortaleza (Unifor) e alunos do ensino fundamental do Colégio da Polícia Militar de Fortaleza. “Senhora” foi publicado em 1875, dois anos antes do falecimento de José de Alencar. “Considero Iracema e Senhora os melhores livros de Alencar. Suas obras conversam com obras de outros autores, como o livro Lucíola, em relação a Dama das Camélias”.

O professor Leonardo Leal deu início à sua fala enfatizando aspectos que, em sua opinião, deviam ser discutidos do ponto de vista jurídico. A relação familiar, o casamento e a oposição entre a atual e a Constituição de 1988 foram aspectos enfatizados pelo professor. “Muitas pessoas, naquela época, encaravam o casamento como um negócio eminentemente contratual. O livro foca muito nisso, dividido em quatro partes que fazem parte da montagem da relação contratual: a definição do preço, a quitação e a posse.”

Foto: Afonso Monte
Foto: Afonso Monte

A personalidade de Aurélia, retratada por meio da força e do comportamento amargurado após o abandono, foi outro ponto discutido. “Aurélia se comporta como uma mulher dos tempos modernos, muitas vezes. Comporta-se como uma mulher independente, que não deve satisfações a ninguém. De fato ela era orfã de pai e mãe e tinha recursos financeiros, mas, para a realidade da época, era algo completamente dissonante”, ressaltou Leonardo.

O professor destacou, ainda, um fragmento do livro que ilustra o comportamento destoante de Aurélia, durante o diálogo entre a personagem e seu tio, em que a mulher, contrária às normas do século XIX quanto ao direito da mulher de ter voz, deixa claro que já escolhera seu noivo.

A professora Marina Cartaxo, prosseguiu o debate contando um pouco sobre sua experiência em relação à leitura do livro. “Quando li Senhora, me identifiquei. Talvez as mulheres, quando lêem o livro, se identificam com a situação de Aurélia, mais até do que a situação do Fernando, você sente a dor dela”. Comentou também sobre a sensibilidade do autor ao escrever o livro e construir a personalidade de Aurélia, humanizando-a e, ainda, justificando a vingança contra Fernando Seixas. “Quando li novamente o livro, percebi como é interessante a postura que José de Alencar, enquanto homem, empregou a Aurélia. Ele não trata Aurélia de forma ruim, mostra o porquê de sua vingança como mulher submetida à vida”.

Foto: Afonso Monte
Foto: Afonso Monte

Finalizando sua fala, Marina Cartaxo discorreu sobre o sistema dotal e a mudança de perspectiva entre a atual e a sociedade no século XVIII e XIX. “O sistema dotal era uma forma de casamento. Na constância do casamento a mulher ficava obrigada a pagar uma quantia estipulada para o marido. Quem escolhia esse tipo de regime tinha de pagar essa quantia, funcionava como uma garantia para o marido para que os dois começassem a construir a vida de casados com aquele dinheiro. Hoje em dia nós mulheres não sofremos mais pela questão do dote, e sim pelo sentimento. Vivemos numa sociedade que vende que o casamento deve ser com base no sentimento, a sociedade evolui e as referências mudam. Talvez naquela época o sentimento não era uma coisa necessária”

A professora Bleine Queiroz finalizou o debate sustentando sua argumentação na divisão da sociedade, de acordo com Platão, em três segmentos: as pessoas que agem com a razão, as que agem tomando como referência a emoção e os idiotas como base maior. “Nós devemos ter um pouco das três coisas. Todo nós somos um pouco idiotas, mas não podemos ser completamente.” Situou Aurélia em casa um dos segmentos, sendo idiota pela vingança, racional por ter escolhido fazer do casamento um contrato social e emotiva por perceber que, no fim de tudo, o que prevalece é o amor.

A professora de Literatura do Colégio da Polícia Militar de Fortaleza, Rosemary Albuquerque, opinou sobre o evento. “Todas as colocações feitas pelos debatedores foram muito pertinentes. É a primeira vez que o colégio traz os alunos, que comentaram ter ficado com muita vontade de ler esse e outros livros de José de Alencar, tanto pelas curiosidades colocadas quanto pela análise como um todo”. O debate interligou temas atuais a aspectos da sociedade do século XIX, citando outros renomados autores como Jane Austen e as Irmãs Brontë.

Texto: Janine Nogueira

Obra alencarina é tema de debate da Quinta Literária

Quinta Literária

O Programa Quinta Literária, promovido pelo Centro de Ciências Jurídicas (CCJ) e Vice-Reitoria de Extensão e Comunidade Universitária debaterá nesta quinta, 26, a obra “Senhora”, de José de Alencar. O evento será realizado no auditório A-4 às 19 horas.

Sob a mediação do professor José Batista de Lima, estarão presentes na mesa os professores Bleine Queiroz, Leonardo Leal e Marina Cartaxo. O programa promove a discussão da Literatura e Direito por meio de obras literárias brasileiras e estrangeiras.

Os alunos com interesse de participar devem chegar com 15 minutos de antecedência ao local para realizarem suas inscrições. Os participantes receberão certificado válido como Atividade Complementar (2 pontos ou 5 horas).

Publicado na segunda metade do século XIX, o obra alencarina “Senhora” traz em sua narrativa a temática do casamento burguês baseado no interesse financeiro.

SERVIÇO

Programa Quinta Literária

Data: 26 de setembro 2013
Horário: 19h
Local: Auditório A4

INSCRIÇÕES NO LOCAL

Texto: Marcelo Tavares