“O ideal seria que estudássemos também as artes”

Foto: Juliana Teófilo
Foto: Juliana Teófilo

Aconteceu na última quinta-feira, 6, a 12° edição do projeto Quinta Literária. Surgido em fevereiro de 2011 e idealizado pela professora Gina Pompeu, a então diretora do Centro de Ciências Jurídicas da Unifor (CCJ), o projeto, que conta com o apoio do Tutorial Acadêmico do CCJ, de professores e de alunos, tem como objetivo discutir clássicos da literatura nacional e internacional adentrando no âmbito do Direito.

Com três edições por semestre, a Quinta Literária busca fazer o link entre o Direito e a literatura por meio da interpretação dos professores convidados. A mesa é formada por três debatedores que ficam responsáveis por apresentar aos alunos representações jurídicas, literárias e filosóficas presentes nos clássicos da ficção.

A professora Ivanilda Sousa da Silva, uma das coordenadoras do projeto, falou da importância da Quinta Literária para o aluno da Unifor. “O projeto tem como maior objetivo trazer a provocação, fazer com que os nossos alunos se interessem pela leitura. E não só os alunos de direito, porque apesar de ter surgido no CCJ, nós acreditamos que é na boa leitura, na literatura, que nós podemos encontrar todas as formas de produção de conhecimento”, explicou a professora.

A partir da leitura clara e concisa dos professores, geram-se discussões que buscam provocar o aluno a buscar na literatura alimento para sua formação. O vice-reitor de extensão da Unifor, Randal Pompeu, destacou a importância dessa experiência cultural para a formação do aluno da Universidade. “A Universidade de Fortaleza como o próprio nome diz é um universo de ideias, um universo de ações que acontecem por aqui. Eu vejo esse evento como uma oportunidade para o aluno complementar sua graduação, não só na área do direito, mas em todos os cursos”, afirmou.

Aristóteles. Foto: Juliana Teófilo
Aristóteles. Foto: Juliana Teófilo

O aluno do Direito, Aristóteles Queiroz, que já participou de outras edições do evento destacou o poder da leitura. “A meu ver a Quinta Literária é uma forma de você despertar para o prazer da leitura. E para alunos como eu, do curso de Direito, a leitura é indispensável, assim como a retórica, o diálogo. E o livro proporciona tudo isso, o prazer, o diálogo e o conhecimento”, apontou.

Em uma leitura mais contextualizada, o poeta e professor da UFC, Dimas Macedo, que já participara do evento algumas vezes, destacou a importância de tornar o direito uma ciência humanística. “Depois de ter se perdido o elo histórico e cultural entre a literatura e o Direito, período vivenciado até 50 anos atrás, aproximadamente, no Brasil e no Ocidente, finalmente essas disciplinas estão se reaproximando, para o bem de ambas, principalmente para o bem do Direito. O Direito tem sido uma ciência que tem se tornado tão cientificamente ciência que ela está perdendo sua dignidade, então ela precisa encontrar a arte, ela precisa encontrar a literatura”.

E completou, “o ideal seria que estudássemos também as artes, para além das ciências humanas, porque o direito é uma ciência humana. E no Brasil ele vive um momento de completa decadência, porque tudo se tornou uma exigência da legalidade, estrita, e a legalidade estrita não responde a nada, nem o poder judiciário, responde sim no cometimento de injustiças, uma atrás da outra, no sentido de não reconhecer a dignidade do direito e não reconhecer a sua dimensão humanística”, categorizou o professor.

Para dar inicio às falas dos professores, o ex-aluno da Unifor, Léo de Oliveira, protagonizou uma encenação do livro, onde interpretou Adson de Melk.

A Palestra

Professor Randal Pompeu deu inicio à palestra fazendo uma pequena apresentação sobre a o livro “O Nome da Rosa”, destacando informações sobre o autor, Humberto Eco, enfatizando que além de escritor, Eco também é filósofo, linguista, bibliófilo e atualmente leciona semiótica na Universidade de Bolonha. Pompeu também buscou interpretar o nome do livro, afirmando que a expressão “o nome da rosa” era usada na Idade Média para definir o poder infinito das palavras, destacando um trecho em latim “A rosa antiga permanece no nome e nada temos além dos nomes”. Aos alunos presentes, Pompeu fez uma breve comparação entre o acesso à informação na época em que se desenrola a história do livro e nos dias atuais. “Naquela época a informação era guardada, ela não podia ser espalhada ou semeada, a não ser que fosse por autorização e por intervenções de quem tivesse o poder (a Igreja)”.

Prof. Dimas Macêdo e a Profa. Ivanilda Souza. Foto: Juliana Teófilo
Prof. Dimas Macêdo e a Profa. Ivanilda Souza. Foto: Juliana Teófilo

O professor, jurista e literário, Dimas Macedo, deu inicio a sua fala afirmando que “O Nome da Rosa” não pode ser considerado um romance. “Ele (o autor) advoga o sentido da obra aberta que é a criação literária não circular, que é complementada pela estética da recepção”.

Umberto Eco chegou a afirmar em entrevistas, após a publicação da obra, que o livro seria uma fábula, Dimas discorda. “Eu pessoalmente acho que a melhor interpretação da obra, apesar de ele (Umberto Eco) dizer o contrário, é que o livro, a rigor, uma peça de teatro, um roteiro”. O professor também destacou a dimensão temporal do livro, afirmando que a obra não é sobre a idade média, mas sim um livro na idade média.

Macedo apontou, ainda, a presença da numerologia na obra. ”O livro se passa durante sete dias e sete noites e nesse período são assassinados sete monges. O sete é o número simbólico de todas as religiões iniciadas antes da era cristã, há mais ou menos seis mil anos”. Em uma discussão que não tem nada de antiga, Dimas fez um paralelo com os setes dias da semana e o porque da “departamentação do mundo”, divisão do mundo em ordens numéricas especificas ou rotinas especificas, típicas do mundo pós-moderno.

Interpretação do ex-aluno  Léo de Oliveira. Foto: Juliana Teófilo
Interpretação do ex-aluno Léo de Oliveira. Foto: Juliana Teófilo

O professor e procurador da Justiça Militar, Antônio Cerqueira, iniciou sua fala afirmando que, na sua opinião, a pretensão de Umberto Eco com relação ao “O Nome da Rosa” era escrever um romance, mas que a obra assumiu vida e tornou-se algo diferente de um mero romance. “Para ler ‘O Nome da Rosa’ você só pode adotar duas posições, ou você adota uma visão crítica, como faz o Dimas, ou então você apenas mergulha no livro e começa a extrair dele aquilo que ele te apresenta e as perspectivas que ele pode te trazer. A segunda opção acaba sendo mais agradável e lúdica, além de apontar alguns caminhos”. Cerqueira enfatizou que o livro é a base para uma reflexão mais apurada sobre a Idade Média. “O objetivo é trazer ao raciocínio atual um pequeno pedaço de um mundo místico, brutal e ao mesmo tempo belo. É por isso que ele (o livro) é belo, porque não tem solução!”, concluiu Cerqueira.

Texto: Juliana Teófilo

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